  Eternamente Apaixonados
      Least Likely Lovers
   Victoria Hinshaw
      
      
      Inglaterra, 1810
      O amor verdadeiro chega sem pressa... porque vem para ficar!
      Kitty Stone sonhava em fazer um par perfeito com o duque de Charsley... at que ele se casou com sua irm mais nova. E para sua decepo, o feliz casal anuncia 
o nascimento de um herdeiro. Assim, Kit ter que viver em Charsley Hall para ajudar sua irm e fazer o papel da tia solteirona. Felizmente, uma interessante distrao 
logo aparece...
      Jack Whitaker, um heri de guerra e primo do duque retorna a Charsley Hall para se recuperar de ferimentos sofridos na guerra. Apesar de no encontrar descanso 
naquele ambiente conturbado, h uma compensao: A doce e espirituosa Kitty. Em sua companhia a vida parece cheia de promessas... promessas de um grande amor!
      
      Doao: Mana
      Digitalizao: Al M.
      Reviso: Crysty
      Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fs para fs. Sua distribuio  livre e sua comercializao estritamente proibida. Cultura: um 
bem universal.
159 pginas no livro original

Victoria Hinshaw  fascinada pelo perodo da Regncia, em todos os aspectos: cultural, artstico, literrio, social e poltico.  membro da Associao de Romancistas 
da Amrica Oseus romances histricos so aclamados pela crtica e pelo pblico.


Querida leitora,
Combinando mistrio, humor e romance numa trama surpreendente, Victoria Hinshaw conta a histria de Kitty, que ao se hospedar na casa de sua irm para ajudar com 
os preparativos para o nascimento do sobrinho, fica chocada com o tratamento tirnico que ela dispensa aos criados e resolve interferir. Para tanto, Kitty espera 
poder contar com o apoio do charmoso Jack Whitaker, primo de seu cunhado, sem imaginar que o amor entraria em cena, inesperadamente e sem aviso!
Leonice Pomponio Editora

Copyright (c) 2005 by Victoria Hinshaw 
Originalmente publicado em 2005 pela Kensington Publishing Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY - USA Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.
TTULO ORIGINAL: Least Likely Lovers
EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTE EDITORIAL Patricia Chaves
EDIOATEXTO 
Traduo: Maria Cecilia Rodrigues 
Copidesque: Maria da Penha Faria 
Reviso: Giacomo Leone
ARTE Mnica Maldonado
ILUSTRAO Thomas Schlck
MARKETING/COMERCIAL Silvia Campos
PRODUO GRFICA Snia Sassi
PAGINAO Dany Editora Ltda.
(c) 2007 Editora Nova Cultural Ltda. 
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010 - So Paulo - SP 
www.novacultural.com.br
Impresso e acabamento: RR Donnelley Moore
      
      
      
    Prlogo
      
      
      A discusso se arrastava havia trs dias. 
      - Voc precisa vir morar comigo em Charsley Hall, minha querida Kitty - lady Grace Dunmark suplicava  filha. - No h alternativa. Nossa casa foi alugada, 
e no pode se acomodar sozinha em nenhum outro lugar, meu bem.
      - Por que no? - Kitty Stone indagou, embora j soubesse a resposta.
      - Porque no tem dinheiro, meu bem, e eu tampouco. Gastamos tudo o que tnhamos em Londres, e os aluguis que receberemos j esto comprometidos. Entendo seus 
sentimentos quanto a viver na casa do duque e ter de v-lo todos os dias, mas Beatrice precisa de ns.
      - Beatrice precisa de voc, mame, no de mim!
      - No h outro lugar para voc ficar, Kitty. Uma garota solteira de vinte e dois anos deve viver com sua me!
      Duas mulheres igualmente voluntariosas. A mais jovem - alta, esbelta e belssima - mostrara-se forte e inteligente ao suportar, durante vrios meses, a curiosidade 
insacivel da elite londrina, quando suas palavras e gestos eram minuciosamente avaliados, no s pelas pessoas como por toda a imprensa.
      A mais velha - cujo rosto bonito no denunciava seus quarenta e trs anos - sofrera a mesma avaliao. Sua condio de viva, capaz de zelar por suas filhas, 
fora questionada e, ao final, lady Dunmark acabou sendo considerada a culpada pelo escndalo que envolveu a famlia.
      O assunto que teve incio no caf da manh continuou enquanto ambas observavam os criados embalando seus pertences, e at mesmo na hora de se recolherem.
      Enfim, o dia da partida chegara. A carruagem do duque de Charsley parou em frente  residncia. Lady Dunmark observava a cena com tristeza e, ao ver que Neil, 
a criada, entregava as ltimas malas para o cocheiro de Charsley Hall, muniu-se de toda a autoridade de que foi capaz e afirmou:
      -  imprescindvel que venha, Kitty.
      - Por qu?!
      - Voc no tem para onde ir!
      Kitty ficou olhando Neil embarcar. Os novos inquilinos chegariam por volta das cinco horas naquela tarde. De sbito, deixando-se levar pela frustrao, estendeu 
a mo ao cocheiro e subiu no veculo.
      Em total silncio, me e filha se acomodaram nas almofadas macias, e logo sentiram o movimento da carruagem puxada pelos cavalos magnficos que iniciavam sua 
marcha.
      Kitty sabia que perdera. Em breve estaria residindo na manso do homem que a cortejara durante seis meses e depois fugira para se casar com sua irm mais nova.
      
      
      
    Captulo I
      
      
      Kitty contemplava os gramados verdes, caractersticos da estao primaveril,  medida que se afastavam da casa onde nascera e passara toda a sua infncia.
      Embora relutasse em admitir, soube desde o incio que acabaria sendo obrigada a acompanhar a me at Charsley. Sem dinheiro, sem um parente ou uma amiga casada 
que a acolhesse, no lhe restava outra sada. Teria de lidar com a situao da melhor forma possvel pelo menos por alguns meses, at que Beatrice desse  luz, em 
novembro. Seis meses seriam suportveis.
      Lady Dunmark poderia continuar em Charsley Hall para sempre, se quisesse. Mas ela no.
      A nica opo seria encontrar um emprego de preceptora ou dama de companhia, pois em qualquer outro emprego teria despesas com moradia.
      No longo perodo que se seguiu  fuga de Bea com o duque e quando o escndalo era o nico assunto nos sales londrinos, Kitty muitas vezes desejou poder se 
esconder em uma das pequenas vilas perto da cidade, adotar um novo nome e levar uma nova vida longe da maledicncia de Mayfair.
      Na verdade, realizara algumas pesquisas; no entanto, o resultado lhe mostrou como seria dispendioso manter sua independncia. Mesmo que vendesse todas as peas 
de seu fino guarda-roupa e penhorasse suas jias, no teria o bastante para se manter por muitos meses. O salrio de uma vendedora de loja jamais seria capaz de 
sustent-la.
      Kitty no conseguia se ver ensinando boas maneiras para meninas ou tentando controlar as investidas selvagens de garotos. Talvez as funes de dama de companhia 
fossem mais agradveis. Em ambas as situaes, seria uma empregada com tarefas a realizar, mas teria um lugar para viver. O mais importante era ser dona de seu nariz 
e poder escolher o que lhe fosse mais conveniente.
      Depois do Natal, iria para Bath ou Londres  procura de uma ocupao, e nesse meio tempo economizaria cada centavo.
      - Gostaria de saber que tipo de sociedade encontraremos em Charsley. - Lady Dunmark enxugara a ltima lgrima derramada ao deixar a propriedade que no mais 
ocuparia; para l, recm-casada, fora levada por seu marido um quarto de sculo atrs.
      - Por estar to prxima da capital, acredito que a parte norte de Kent deva ser bastante populosa, e muitas famlias finas devem estar estabelecidas ali.
      - Com filhos casadoiros, espero. Kitty respirou fundo antes de responder:
      - Se a senhora se refere a possveis partidos para sua filha mais velha, saiba que no tenho intenes de me casar to cedo.
      Nem to cedo, nem nunca, pensou.
      - Mas voc dizia que jamais amara o duque!
      - A senhora sabe bem que eu nunca fui apaixonada por ele, embora estivesse preparada para despos-lo para que pudesse cuidar de mim mesma, da senhora e de 
Beatrice. O duque  um homem abastado e de uma famlia tradicional. Foi uma grande decepo para mim quando ele fugiu com Bea, e agora no pretendo me deixar machucar 
por ningum mais!
      - No h de desejar se tornar uma solteirona, Catherine.
      - Escute, mame, a senhora e Bea tero todos os cuidados daqui para a frente. Quanto a mim, creio que posso me dar ao luxo de fazer o que preferir.
      - Voc logo esquecer essas idias tolas, querida. Nos primeiros dias, a vida perto de Char poder parecer estranha, mas tenho certeza de que ele  muitssimo 
devotado a Beatrice. Afinal, com um beb a caminho... e talvez um herdeiro, se ela tiver bastante sorte de dar  luz um filho homem!
      - Sim, mame. No tenho dvida de que o casamento deles ser perfeito.
      Kitty se recostou nas almofadas macias. Lembrava-se de como no inverno anterior Beatrice e Char passavam longas tardes juntos. Char insistia em recitar algumas 
linhas de poemas inexpressivos, e o fazia por horas a fio. Naqueles momentos, assistindo quelas cenas, Kitty tentava se imaginar vivendo ao lado de um marido desinteressante 
e a quem no amava.
      Ao contrrio de Kitty, Bea parecia apreciar tudo aquilo. Algumas vezes, Char lhe ensinava jogos de baralhos, e suas sonoras risadas causavam arrepios em Kitty. 
Talvez se houvesse prestado mais ateno quelas palestras particulares de surpresa, quando ambos fugiram para se casar, tivesse sido menor.
      Aps o trauma inicial com o casamento dos dois, Kitty ficou aliviada por saber que o problema de sua me e de Bea no era mais de sua conta.
      Como se enganara!
      
      Os olhos escuros da me do duque, a viva duquesa de Charsley, brilharam em desaprovao.
      - Devo ser franca consigo, lady Dunmark. No aprovo sua vinda. Tenho tido suficientes dissabores e no desejo mais nenhum.
      Kitty e a me congelaram na entrada da vasta manso, com seu piso de pedras geometricamente dispostas. As paredes cobertas de lanas, setas e mosquetes mostravam 
um arsenal suficiente para suprir as necessidades de uma milcia. Na grande lareira, nem um nico carvo aceso amenizava o ar frio de abril.
      A viva, colocando considervel distncia entre elas, continuou, em tom rude:
      - Mantenho regras severas nesta residncia. A primeira  que todos os criados devero se reportar a mim, e s a mim, incluindo sua criada. Retiro-me agora 
para meus aposentos e no desejo ser perturbada. O jantar  servido s cinco horas. - E saiu por uma porta sob a escada de mrmore, lembrando com suas roupas de 
luto uma velha gralha se recolhendo ao ninho.
      - Sempre ouvi Char dizer que a duquesa parecia um drago. Contudo, conhecendo-a agora, acho que a descrio  leve demais, e mais parece um elogio.
      - Sem dvida uma criatura desagradvel! E por que deve ela dar ordens aos criados? A responsabilidade  de Bea! - Lady Dunmark meneou a cabea, inconformada.
      
      Kitty no se surpreendeu. Com apenas dezoito anos de idade e recm-sada da escola, como poderia Bea enfrentar a austeridade e experincia da sogra, alm de 
no contar com o apoio do marido?
      O mordomo, vestindo roupas engomadas e impecveis, surgiu acompanhado da governanta.
      - Esta  a sra. Wells, que lhes mostrar seus aposentos. - E as deixou com uma leve reverncia.
      A sra. Wells indicou-lhes as escadas e subiu  frente delas.
      - Seus aposentos so por aqui - falou, denunciando na voz a mesma entonao arrogante de sua patroa. - Se precisarem de algo, um criado estar sempre por perto.
      - Obrigada. - Lady Dunmark colocou a ncessaire sobre a mesa e se ps a observar o quarto austero.
      A porta se fechou atrs da sra. Wells.
      - Bea contou em uma de suas cartas que ns ocuparamos as dependncias que costumam ser reservadas, na poca de Natal, para o irmo da viva e sua mulher, 
pois do contrrio teriam de abrir uma ala inteira. - Kitty suspirou.
      - Decerto a inteno foi de nos mostrar nosso devido lugar.
      A riqueza de Char era imensa. Com certeza o duque contava com recursos suficientes para prover acomodaes mais confortveis para as duas hspedes do que aqueles 
quartos inspitos.
      Pobre Beatrice... O que no haveria a pobre moa de suportar?
      
      - Mame! Kitty! - Envolta em uma nuvem de perfume, Beatrice, a nova duquesa de Charsley, apareceu de repente e as abraou, soltando gritinhos de excitao. 
- Estou to feliz em v-las! Demoraram tanto a chegar que adormeci, e ningum me acordou para vir ter com vocs.
      Beatrice usava um vestido rosa, e os cabelos enrolados em pequenos anis deixavam-na ainda mais jovem. Bea jogou-se nos braos da me e irrompeu em lgrimas 
de alegria.
      Kitty olhava para a cena com satisfao ao ver que sua me tambm sucumbia  emoo. Ambas eram muito semelhantes, no s na aparncia como tambm na sensibilidade. 
Choravam e riam com facilidade e perdiam a pacincia num piscar de olhos. Kitty se considerava diferente; menos emotiva e talvez mais crtica por natureza.
      Quando os soluos diminuram, Kitty deu um abrao em Bea.
      - Voc est feliz, minha pequena?
      - Sim... No... No sei! - O pranto surgiu de novo, e mais uma vez lady Dunmark envolveu a filha caula junto a si.
      - Bem, o que todas ns precisamos agora  de uma boa xcara de ch. Posso chamar algum, Bea?
      - Oh, no! A viva deu instrues rgidas a toda a criadagem para seguirem apenas suas ordens. O criado do lado de fora no faz nada que lhe peo.
      Por um momento, Kitty pensou que sua me fosse se levantar e abrir a porta, mas a viu respirar fundo, controlar-se e tomar as mos da filha nas suas.
      - No se preocupe, meu anjo. Imagino que voc e o duque estejam se dando muito bem.
      - Muito, mame. Estamos muito felizes com o beb que esperamos. Apenas... se a viva no fosse to intratvel!
      Kitty prendeu a respirao. Naquele momento, tentar mostrar a Bea que parte daquela situao era devida  omisso de Char no lhe faria nenhum bem.
      - O jardim em frente  maravilhoso, Bea.
      A jovem se mostrou um pouco mais animada.
      - No fosse a presena desagradvel da viva, Charsley Hall seria um lugar perfeito para se viver, embora eu ainda no conhea metade da propriedade. So centenas 
de hectares, Char comentou. Ou teria dito milhares? No sei ao certo. H muitas fazendas arrendadas, e algumas vezes Char conversa com  capataz, muito a contragosto 
da me, que tenta administrar tudo sozinha. Mas, devemos ter cuidado com o que dizemos, porque tudo chega aos ouvidos da sra. Wells.
      - Uma situao abominvel, sem dvida - lady Dunmark comentou, exasperada. - Faz meu sangue ferver!
      Kitty bateu de leve nos joelhos da me.
      - No se aborrea, mame. Ajudaremos Bea, na medida do possvel. No devemos desafiar a duquesa a todo momento.
      Lady Dunmark olhou a filha, tentando se conformar.
      - Conte-nos sobre sua viagem de npcias e sua chegada aqui, a Charsley, minha doce Bea.
      Kitty relaxou quando a me mudou de assunto. Teriam que agir com muita sutileza se quisessem facilitar as coisas para Beatrice, que naquele momento tagarelava 
como se nada no mundo a preocupasse.
      - ...e ento escalamos cada runa do castelo, e Char colheu um buqu de rosas silvestres. Ele  to romntico! Gostaria de ter mais rosas plantadas no jardim, 
mas a viva diz... Oh, mame, ela  insuportvel!
      - Talvez a duquesa ainda no tenha se recuperado da surpresa de seu matrimnio - Kitty se esforava por confortar a irm.
      - Mas isso foi h meses, Kitty. Voc e mame logo se acostumaram com a idia.
      Kitty mordeu o lbio, engolindo um comentrio mordaz. Bea no tinha a mnima idia do que seu escandaloso casamento significara para ambas e como fora difcil 
manter a cabea erguida em meio  sociedade londrina. Bea no passava de uma criana pouco acostumada a ter considerao pelos demais.
      - Com certeza, a duquesa precisa de mais tempo. Voc ter seu beb para se ocupar, Bea.
      - Mas ela diz que tomar conta disso tambm; arrumar o quarto e contratar enfermeiras.
      - Jesus! - a voz de Lady Dunmark era quase inaudvel. Bea ficou triste.
      - E ainda h o primo de Char, Jack Whitaker. No comeo, a viva reclamava que ele estava longe, no Exrcito, mas quando Jack se feriu gravemente e retornou 
a Charsley, a duquesa cuidou dele com um esmero incrvel, tratando-o com mais considerao do que trataria seu prprio filho. Ento, h menos de um ms Jack voltou 
para Londres, e s o que ela faz agora  se afligir por ele.
      - Quer dizer que o sr. Whitaker mora em Londres agora? - Kitty indagou, interessada.
      - Sim,  dono da propriedade vizinha, Nether Acker, mas a casa est fechada h anos, por isso assim sempre se hospeda aqui. No sei quando retornar da capital, 
mas eu gostaria que a viva mostrasse um mnimo de interesse por Char, que afinal passa todo o seu tempo aqui.
      Kitty abraou a irm, com ternura.
      - No sabemos ainda como faz-lo, Bea, mas mame e eu tentaremos amenizar essa situao para voc. Poder demorar um pouco, mas no deixe que ningum estrague 
sua vida.
      - Esteja certa de que ns faremos tudo a nosso alcance, filhinha. Voc deve guardar suas energias e se concentrar apenas em voc e no beb.
      - Mame, voc e Kitty ficaro, no ? No consigo sequer imaginar ter meu filho com minha sogra por perto, eu... - e mais uma vez as lgrimas brotaram nos 
olhos dela.
      - No pense nisso, Beatrice. Voc ainda tem muitos meses pela frente. Agora, quero que saiba que trouxemos algumas de suas coisas do solar. Sua escrivaninha 
e o restante de suas roupas, seus leques e a linda boneca que papai lhe trouxe de Paris.
      Bea sorria e chorava.
      - Quero tanto guard-la para dar a minhas prprias filhas! Mesmo sabendo que Char deseja um herdeiro, antes.
      Kitty testemunhou de novo a tristeza de sua irmzinha.
      - Mas esperem! - Bea exclamou. - Isso significa que o solar foi fechado! Est tudo acabado, inclusive os dias maravilhosos que l passamos?
      - Nada acabou, minha querida. - Lady Dunmark tentou disfarar o tremor dos lbios com o leno rendado.
      - Bea, tudo foi guardado. Alugamos a residncia para uma tima famlia, e todos os criados continuam l. Poderemos voltar um dia, se assim quisermos. - Kitty 
tinha conscincia de que suas palavras eram por demais otimistas, mas isso no importava naquele momento.
      - Como sinto falta do querido solar! Gostaria se Char e eu pudssemos viver l, longe de sua me... ter nosso beb... cuidar dele... com voc e Kitty,  claro.
      Kitty se levantou, fazendo um sinal para a me.
      - Lembrei-me de que tenho de verificar onde minha harpa ser colocada.
      Bea se animou de imediato.
      - Oh, Kitty! Que timo que voc trouxe a harpa! Poderemos praticar nossos duetos e tocar juntas, como sempre fizemos!
      Kitty estremeceu s de imaginar isso. Por mais que Beatrice se esforasse, sua atuao ao piano deixava muito a desejar, e as tentativas de tocarem juntas 
quase sempre acabavam com a jovem em prantos. E isso, por certo, no seria um bom modo de atrair a admirao da duquesa, ou mesmo tolerncia para com a esposa de 
seu filho.
      
      
      
    Captulo II
      
      
      O major Jack Whitaker, que antes servia no vigsimo segundo batalho, aceitou a taa de clarete que seu velho amigo, o coronel Townsend, lhe ofereceu.
      - Obrigado, Ken. Espero que minha visita no esteja afastando voc de suas responsabilidades.
      Os dois homens se encontravam na sala do comandante do regimento, conversando e tendo  frente duas garrafas e um par de canecas sobre a mesa de carvalho.
      - Ah, noto um tom irnico em sua voz, Jack... Como bem sabe, temos muito menos deveres do que seria esperado de um regimento localizado no corao da cidade. 
 muito desagradvel quando preciso tirar meus homens dos sales de jogos, muitas vezes completamente embriagados.
      Jack soltou uma boa gargalhada.
      - Fique tranqilo, pois no incluirei esses detalhes em meu prximo relatrio para sir Arthur Wellesley. - Jack se mexeu na cadeira, tentando aliviar a presso 
sobre os quadris e as coxas. - Recebi uma carta de sir Arthur ontem, cheia de reclamaes sobre seus soldados, a falta de suprimentos e os difceis oficiais ingleses. 
E sobretudo sobre a falta de apoio por parte de nosso governo.
      -  pattico! - Townsend passou os dedos em torno da caneca de vinho. - Todos esperam notcias de vitria da pennsula sem mandar mais homens ou mais dinheiro.
      Jack concordou. Caso estivesse completamente curado, teria ido encontrar Wellesley, para auxiliar o comandante das foras expedicionrias inglesas em Portugal. 
Estaria se preparando para a batalha, em vez de permanecer em Londres tentando influenciar os influenciveis.
      Antes de embarcar para Portugal pela segunda vez, Wellesley escrevera a Jack dando-lhe ordens especficas:
      - Encontre-se com os membros da Cmara dos Comuns e da Cmara dos Lordes. Converse com os lderes polticos, whigs e tories, e mantenha seus contatos, Whitaker 
- foram as instrues de sir Arthur.
      Embora preferisse estar em ao nos campos de batalha, Jack entendia que, pelo fato de ser neto de um duque, relacionava-se com os membros da nobreza, e sem 
falsa modstia sua figura elegante lhe permitia ser sempre o centro das atenes nos sales de Mayfair.
      Teria, porm, conseguido algum resultado at o momento? Jack afastou tal pensamento.
      - Com a chegada do vero, a maioria das pessoas se prepara para mudar para o campo. Acho que em breve irei para a casa de meu primo, em Kent. Espero que me 
mantenha informado sobre a situao aqui.
      - Certamente. - Townsend sorriu-lhe. - Espero que me retribua o favor quando conversar com sir Arthur.
      - Tenha certeza disso.
      - Algumas vezes invejo seus servios em Portugal, Jack. H quase dois anos no vejo um campo de batalha. Mas acredito que ainda levar algum tempo para que 
voc se cure de vez.
      - Sim, estes ferimentos me aborrecem no s pela dor, mas tambm porque me detm em Londres. Fui ferido na noite do primeiro dia. Muito pouca sorte, no acha?
      - Em Vimeiro, no foi?
      - Isso. Os franceses batiam em retirada, sem espao para se reagrupar. Restava-lhes apenas um canho, que logo foi destrudo pela exploso que tambm matou 
trs dos nossos homens, alm de meu cavalo.
      Fragmentos de metal penetraram todo o lado esquerdo do corpo de Jack.
      - Naquela noite, voc mostrou a eles do que  feito o Exrcito ingls. Mas como conseguiu salvar essa perna, Jack? Por muito menos os cirurgies amputam membros 
de nossos soldados.
      - Sabia muito bem disso. - Jack meneou a cabea. - Esperei at o dia seguinte  batalha e fui  procura de um mdico que pudesse extrair os estilhaos. Se 
tivesse ido ao hospital de campo imediatamente, teria perdido a perna, e creio que tambm o brao.
      - Mas poderia ter sangrado at a morte.
      - Dessa vez minha teimosia foi a vencedora, Ken.
      - Confesso que, ainda assim, trocaria sua experincia pela minha. Montanhas de papis se acumulam em minha mesa todas as semanas, meus homens reclamam e se 
embebedam, e minha mulher insiste em ir danar todas as noites at de madrugada. E agora ela deseja se mudar para Brighton. - O coronel suspirou, desanimado.
      - Ambos desejamos estar no front. De minha parte cheguei a implorar a sir Arthur que me levasse com ele para Portugal no inverno passado, mas sir Arthur riu 
de meu pedido.
      Jack se lembrava das exatas palavras de Wellesley: No necessito de um meio homem. Aqui em Londres voc me ser muito mais til.
      O coronel Townsend bebeu seu ltimo gole.
      - Quando escrever de novo a ele, diga a Wellesley que ainda aguardamos nossas instrues.
      - Farei isso. - Jack ficou de p. - Eu lhe escreverei. Se acaso mudar para Brighton, avise-me.
      O coronel Townsend riu muito e indicou-lhe a sada com um gesto.
      De volta  carruagem, Jack no conteve um sorriso irnico ao pensar no dilema do coronel. Esposas podiam mesmo ser um problema e tanto!
      Como a noite estava muito agradvel, Jack decidiu parar no clube, onde se juntou a um grupo de homens que compartilhavam um ltimo drinque, e logo um velho 
amigo, o capito Foster, se sentou a seu lado.
      - Jack! - Ergueu o copo saudando-o. - A sua sade!
      - A nossa, Foster.
      - Como tem passado?
      - Melhorando. Devagar e sempre.
      - Pelo menos participou de alguma ao, Whitaker.
       Foster, como o prprio Jack, vinha de uma famlia tradicional e possua uma renda substancial que lhe permitia se trajar nos melhores alfaiates, usar as melhores 
botas, criar os melhores cavalos puros-sangues. Entretanto, no caso de Foster o dinheiro era tambm utilizado para garantir suas dvidas de jogo.
      - Minha experincia na Dinamarca s serviu para atiar mais minha vontade pela luta armada - confessou o amigo. - Foi apenas uma pequena dose, mas o suficiente 
para me deixar ansioso por mais.
      - Entendo. Contudo, no queira muito mais, Foster. Uma batalha prolongada  muito diferente, voc mesmo sabe. Ter o prprio cavalo abatido a seu lado e precisar 
esperar um dia e meio por um cirurgio para ser operado tira todo o romantismo da situao.
      - Alguns rapazes tm se esforado para serem convocados e enviados de volta. Eu mesmo gostaria de voltar.
      - Sei que estou desperdiando minhas palavras, pois na realidade eu tambm gostaria de estar l - Jack comentou, inconformado. 
      - Em breve voc retornar, meu caro - Foster o consolou. Jack no estava to certo, pois uma total recuperao parecia distante.
      Cansado de falar sobre a guerra e poder fazer to pouco, despediu-se do amigo. Sentia que necessitava de um perodo de descanso. Vinha lutando contra os freqentes 
tremores e as dores de cabea que o assaltavam, e poderia continuarmos exerccios dirios para melhorar a perna e o brao na propriedade de seu primo, em Charsley 
Hall. Se fosse necessrio livrar-se dos exagerados cuidados da duquesa, reabriria sua prpria casa em Nether Acker. Havia quase cinco anos no abria a propriedade, 
que na certa estaria tomada pela sujeira e toda sorte de insetos.
      Em Charley Hall no teria de preocupar-se com o restante da famlia. Na realidade, os problemas de seus parentes no eram de sua conta.
      Por um momento concentrou-se na lista de pertences que pediria a seu criado para embalar.
      
      No dia seguinte a sua chegada a Charsley Hall, Kitty procurou sua harpa pelos diversos sales. Os lindos aposentos haviam sido elegantemente decorados pelo 
famoso Robert Adam ou por um de seus seguidores.
      Ao se dar conta de que a busca era intil, resolveu ir falar com a governanta ou o mordomo. 
      No caminho para a cozinha, encontrou a sra. Wells.
      - Posso saber onde minha harpa foi colocada?
      - Sua Graa no deseja ouvir msica na casa, exceto aps o jantar. - A mulher a encarou com incrvel hostilidade.
      - Mas minha irm...
      - Sua Graa, a duquesa, quero dizer! A harpa foi guardada, mas no saberia informar onde os criados a colocaram.
      Kitty agradeceu de forma muito mais polida do que era necessrio. Tudo aquilo era culpa da duquesa, que permitia que uma simples governanta se dirigisse daquela 
forma a um hspede.
      Por algum tempo, Kitty temeu seu reencontro com Char mas naquele instante ansiava por v-lo e falar-lhe. Recordou que certa vez, logo no incio de seu relacionamento, 
ele contara que possua um lugar s seu, uma espcie de retiro, onde podia ler e escrever poesia.
      Deixando a manso, Kitty percorreu os jardins  procura daquele santurio e, aps alguns minutos, avistou o cunhado conversando com dois empregados que seguravam 
uma gua de plo castanho pela rdeas.
      De estatura mdia, Char possua feies agradveis. Observando-o, de certa distncia, se tornava difcil para Kitty acreditar que um dia pensara em tornar-se 
sua esposa. Jamais o considerara um homem de fortes convices, e podia compreender a razo agora.
      Esperou at que Char dispensasse os criados e viesse cumpriment-la.
      - Como sempre, a sua disposio, srta. Stone.
      - Bom dia, Vossa Graa. - Kitty fez uma pequena e respeitosa reverncia.
      - Pode me chamar de Char, como voc sempre fez. Espero que tenham empreendido uma boa viagem.
      - Sim, obrigada. A situao no  usual, Char, mas pelo bem de Bea deveremos suport-la.
      - H algo que eu possa fazer para ajud-la a se sentir melhor?
      - Sim, h. Como sabe, no voltaremos ao solar por alguns anos. Assim, no quis deixar minha harpa, e trouxe-a comigo. Acontece que no sei onde o instrumento 
foi colocado. As cordas so muito sensveis  variao de temperatura e umidade.
      - No consigo imaginar onde possa estar, mas tomarei providncias sobre isso. Agora, venha comigo ver o estbulo onde mandei colocar seu cavalo.
      Ao som da voz de sua dona, a gua castanha chegou  porta da baia.
      - Estou aqui com voc, querida! - Kitty sussurrou, acariciando o pescoo do lindo animal.
      
      A caminho de casa, Jack relembrava o encontro que tivera com lorde Pearson em sua manso em Grovesnor Square alguns dias atrs e as preocupaes que afligiam 
o idoso lorde.
      - No podemos falhar na pennsula. Nenhuma resistncia efetiva de outras naes a Napoleo pode ser percebida! - o ancio exclamara, elevando as mos trmulas 
no ar. - Necessitamos de mais apoio por parte de nossos governantes. Acredito que algumas novas vozes entre nossos representantes no Parlamento seriam bem recebidas.
      - Mas onde encontraremos esses novos homens capazes de convencer nosso governo da necessidade de encarar essa guerra com mais seriedade, e mesmo enviar mais 
auxlio a nossas tropas?
      - Estou pensando nos lordes, Jack. Seu primo, o duque de Charsley, no costuma participar das reunies, e discursou apenas uma vez. Com sua ajuda espero poder 
contar com ele.
      Jack tentara protestar, mas lorde Pearson no permitiu que o interrompesse.
      -  seu dever para com o rei e a Inglaterra, major Whitaker. No falo apenas por mim, mas por muitas pessoas que se mostram tambm preocupadssimas. Considere-se 
a partir de agora responsvel pela participao de seu primo nessa luta.
      Conhecendo seu primo, Jack imaginou como seria difcil realizar tal misso. Entretanto, lorde Pearson ainda no terminara:
      - Mais uma coisa, Jack. Seu primo Char controla dois assentos na Cmara dos Comuns, como  de seu conhecimento. Aquele sujeito de Bluestone deve estar perto 
da aposentadoria, e voc dever substitu-lo. Desejo contar com um orador eloqente na Cmara.
      Quando deu por si, Jack j havia chegado a sua residncia. Baldwin, seu empregado e cocheiro, o aguardava  porta, demonstrando extremo nervosismo.
      - O que faz aqui fora, Win?
      - So aqueles trs homens que dizem que iro para Kent com o senhor. No sabia o que fazer quando eles chegaram. Simplesmente entraram e se instalaram... - 
Win parou de falar quando uma gargalhada ruidosa veio do interior da casa.
      - Droga! Esperava que eles tivessem esquecido! - Balanando a cabea, Jack entrou.
      Os trs - e nenhum deles muito limpo -, trajados com velhas e gastas roupas de cetim, espalhavam-se pela sala. Dois deles, com copos de vinho nas mos, observavam 
o terceiro homem, que tentava, com os dentes, arrancar a rolha de uma garrafa.
      Ao notarem a chegada de Jack, todos se puseram de p ao mesmo tempo e correram para abra-lo.
      - Major Whitaker, estamos esperando pelo senhor!
      -  o que vejo, Bart. Fiquem sentados - Jack falou com autoridade, tirando a garrafa da mo de Tommy e entregando-a para Win. -  melhor abrir. Pressinto que 
logo eles estaro estirados no cho, com ou sem essa nova garrafa.
      Jack se censurou pela prpria imprudncia. Tudo tivera incio enquanto navegavam de volta para a Inglaterra. Um tolo impulso levou-o a oferecer um teto para 
aqueles trs homens, que, como ele, se recuperavam de graves ferimentos. Desse modo, ao que tudo indicava, teria de honrar sua promessa.
      
      Deixando sua me dando os ltimos retoques no elaborado penteado, Kitty aproveitou a meia hora que precedia o jantar para verificar com mais ateno os lindos 
sales por onde passara pela manh, quando procurava sua harpa. Na noite anterior, o jantar fora servido no quarto, porm a viva enviara instrues para que jantassem 
no salo vermelho dessa vez.
      A decorao dos sales era mesmo digna de apreciao, com suas esculturas em mrmore representando antigos deuses e deusas, atletas e guerreiros, e os delicados 
tapetes coloridos que mostravam as mesmas cenas de slfides e ninfas pintadas no teto.
      Ao percorrer os elegantes aposentos, Kitty ouviu um riso infantil vindo de um de no muito longe. Seria uma criana ou de alguma jovem criada?
      Kitty se dirigiu em silncio em direo ao salo vermelho e foi surpreendida pela viso de uma menina sentada ao lado da viva, no sof. Quem poderia ser aquela 
garota?
      Ao chegar mais perto, pde ver uma mulher vestida de cinza, provavelmente a preceptora, de p, atrs de uma das cadeiras. Sem querer assust-las, Kitty tossiu 
de leve.
      - Boa noite, duquesa.
      Lady Charsley a fitou de relance. A expresso em seu rosto demonstrou, como de hbito, desaprovao.
      - Voc est muito adiantada para a refeio, srta. Stone.
      - Sim, mas no quis deixar passar a oportunidade de admirar a decorao de to lindos aposentos.
      - Srta. Stone, deixe-me apresentar-lhe Mary Reynolds, minha protegida. - A duquesa empurrou de leve a menina em direo a Kitty.
      - Muito prazer em conhec-la, srta. Reynolds.
      - Fale mais alto, Mary. - A voz da duquesa soou mais spera do que seria adequado ao se dirigir a uma criana daquela idade.
      - Estou feliz em conhec-la - Mary se expressou com clareza, mas mantendo os olhos baixos.
      - Pode lev-la para cima agora, srta. Munstead - a duquesa ordenou.
      Demonstrando curiosidade, Kitty ficou a olh-las se afastar. Lady Charsley pareceu ler seus pensamentos.
      - Tento no ver Mary como um fardo, mas  difcil educar uma criana em um ambiente onde no existem outras de sua idade. Trata-se de uma menina voluntariosa, 
para minha tristeza.
      Para Kitty, a garota pareceu exatamente o oposto: linda, quieta e tmida.
      - Mary sabe cavalgar? Seria um prazer para mim se ela pudesse me acompanhar em meus passeios matinais. A propsito, desejo agradecer a gentileza de Vossa Graa 
em permitir que minha gua fique em seus estbulos.
      - Mary tem um pnei, mas no lhe dei permisso para que se afaste muito. No tem experincia suficiente para aventurar-se para mais longe.
      - Entendo. - Mas Kitty insistiu: - Talvez pudssemos levar conosco dois empregados.
      - Prefiro que no interfira com o programa de instruo da menina, srta. Stone. Mary e a srta. Munstead no devem ser perturbadas. Se insistir em visit-las, 
darei ordens expressas ao mordomo para que tranque a ala da casa onde se encontram.
      Kitty se calou, impressionada pela crueldade da duquesa, e retornou a seu passeio pelos sales.
      
      O jantar pareceu interminvel. No se conseguia falar de um tpico que agradasse  viva.
      Ao final, quando a me se levantou, Char instruiu o mordomo para levar uma garrafa de vinho do Porto  sala de msica.
      Estando todos acomodados no salo rosa, a duquesa se dirigiu ao filho dizendo-lhe para guardar suas poesias para outra ocasio, pois desejava ouvir um pouco 
de msica.
      - Toque piano, srta. Stone. Sua irm mostra pouca habilidade nesse instrumento. Talvez com sua influncia ela possa melhorar um pouco.
      Kitty estava prestes a retrucar  altura, mas controlou-se.
      - Em minha opinio, Beatrice toca mais ou menos bem, mas acredito que ela se saia melhor cantando. Quer me acompanhar, Bea?
      Suas vozes soaram como as de anjos. Ao final de cada cano, o duque e lady Dunmark aplaudiam com entusiasmo. Kitty nem se deu ao trabalho de olhar para a 
duquesa, pois era bvio que ouvira apenas aplausos de duas pessoas.
      Mais tarde, contudo, quando pediu o ch, a expresso da duquesa no mais mostrava sinais de desdm.
      Meia hora depois, lady Dunmark fechava a porta de seus aposentos com violncia. Kitty sabia o que estava por vir.
      - O modo como a duquesa trata Beatrice  imperdovel! Ela est fazendo sua irm se sentir mais insegura a cada momento. S o que faz  critic-la. No se dignou 
a fazer um elogio s canes entoadas por vocs duas, mas foi prdiga em palavras elogiosas para a cozinheira! At mesmo reclamou que Char no vem cumprindo com 
suas responsabilidades e que a propriedade necessita de uma superviso mais efetiva!
      Lady Dunmark quase no conseguia respirar, dada a raiva que a acometia.
      Nesse momento, Kitty decidiu intervir:
      - Talvez seja uma estratgia proposital para reforar sua autoridade.
      - Concordo, minha filha. Acredito que voc esteja certa... - e continuou enumerando outras maldades da duquesa seguidas de exclamaes de desagrado.
      Kitty comeava a entender por que Char se tornara o homem que era. Fora manipulado pela me durante anos, depois do falecimento do pai. Acostumara-se e ser 
dependente dessa dominao. O problema era que, se aceitasse se dedicar a administrar a propriedade, teria muito menos tempo para sua poesia.
      - Logo encontraremos um modo de ajudar Bea. No se preocupe mame.
      
      
      
      
      
    Captulo III
      
      
      Na manh seguinte, aps seu passeio a cavalo, Kitty se sentou em frente  penteadeira, para que Neil lhe arrumasse o penteado.
      - O que eles lhe pediram para fazer, Neil?
      - A sra. Wells deseja que eu conte tudo o que as senhoras fazem. Digo que costuram roupas para o beb. Sei que no aprova mexericos de criados, senhorita, 
mas tento manter meus ouvidos abertos para saber o que est acontecendo.
      - A situao aqui  especial, e eu gostaria de conhecer sua opinio sobre o que acontece nesta casa.
      Neil colocou a escova sobre a penteadeira.
      - A maldosa governanta, sra. Wells,  fiel  duquesa, ao contrrio de algumas das criadas e da cozinheira, a sra. James, que fica revoltada quando v a duquesa 
destratando o duque. Quase todos acham que a sra. Beatrice, ou melhor, Sua Graa, deveria tomar as rdeas da administrao do lar.
      - O que descobriu a respeito da preceptora, a srta. Munstead?
      - Trata-se de pessoa bastante reservada e dizem que ela faz suas refeies com a garota ou sozinha.
      - Obrigada, Neil. Voc sabe como mame e eu apreciamos seus servios, mesmo que agora tenha de receber ordens da sra. Wells.
      - No se preocupe comigo, srta. Stone.
      Lady Dunmark entrou no quarto com expresso preocupada.
      - Kitty, voc notou os diamantes que a duquesa usava ontem  noite? Sem dvida, a maior parte deles deveria estar com Bea, no acha?
      - No consigo imaginar o duque pedindo  duquesa que entregue as jias para Beatrice, mame.
      - Se a duquesa seguisse o protocolo, teria entregado todas as jias  esposa do filho logo aps o casamento. - Lady Dunmark, ento, se virou para Neil. - Obrigada. 
Acho melhor voc ir agora e seguir as ordens da governanta. No queremos lhe criar dificuldades. Agradeo os seus servios.
      Quando a criada se foi, Lady Dunmark tornou a se dirigir  filha.
      - No sei o que fazer, Kitty, nem mesmo por onde comear. Kitty colocou os braos nos ombros da me.
      - Proponho que comecemos com algo bem simples, para testar o terreno.
      - O que, por exemplo?
      - Bea diz que Char no pode contar com o mordomo, nem tampouco com os criados da casa, mas tem a confiana dos cavalarios. Os jardineiros tambm podem ser 
seus aliados. Poderamos tentar traz-los para o lado do duque...
      - Voc  sempre to esperta, minha filha!
      
      Kitty amarrou as rdeas de seu cavalo ao lado da montaria de Char, no topo de uma colina. O parque, com seu lago e as rvores frondosas, se estendia abaixo 
deles. Um pouco alm, via-se a manso, cuja fachada austera contrastava com o verde-esmeralda do gramado e o azul do cu. A beleza da cena era indiscutvel, mas 
sob a superfcie idlica profundos problemas se escondiam.
      - Vossa Graa deve ter muito orgulho de Charsley Hall.
      - Oh, sim!  um lugar antigo que est com a famlia h sculos - o duque respondeu, distrado, parecendo surpreso em v-la to prxima. - Para o norte, alm 
da manso,  possvel se avistar o rio Acker. A propriedade de meu primo Jack comea nesse ponto e se estende para o norte e oeste. Para o sul, como vemos daqui, 
ficam minhas terras.
      -  incrvel. Pense em quantas pessoas vivem na dependncia dos Charsley!
      Durante mais de uma hora, eles cavalgaram pelas terras de Charsley Hall, encontrando dezenas de trabalhadores nos campos, que cumprimentavam o duque com uma 
pequena reverncia  medida que passavam. O duque, por sua vez, cumprimentava-os efusivamente, porm demonstrava no saber seus nomes. Kitty estranhou, pois lembrava-se 
de que sua me e seu pai conheciam cada detalhe da vida de seus arrendatrios.
      De volta, a caminho do estbulo, Kitty visualizou um pequeno chal quase escondido pelos arbustos e rvores, e decidiu que aps entregar a montaria aos cavalarios 
retornaria sozinha para averiguar que tipo de lugar seria.
      E foi o que fez.
      O chal localizava-se longe da estrada, e o mato tomava conta do caminho que conduzia at ele. Chegando mais perto, ela notou que havia um certo charme envolvendo 
o recanto, cujo jardim estava repleto de roseiras prontas a desabrochar. Como ambas as portas, a da frente e a dos fundos, estavam trancadas, Kitty sentou-se nos 
degraus de pedra. Sentia-se feliz, cheia de otimismo pelo futuro. Entendia ter encontrado um retiro perfeito para si, um local simples onde poderia colocar sua harpa. 
No seria difcil transformar o chal em lugar habitvel.
      Quanto  idia de conseguir que Bea e Char comeassem a assumir as responsabilidades pertinentes a um duque e uma duquesa, imaginou que uma comemorao para 
toda a vizinhana seria a soluo ideal. Um festival de vero! Claro, teria de fazer com que Char pensasse que fora dele a idia e depois deixar que Bea e o marido 
organizassem o evento, com sua ajuda e de lady Dunmark.
      Entretanto, o melhor de tudo isso, sem dvida, seria observar a reao da antiptica duquesa!
      
      Jack tentava imaginar um meio de levar aqueles trs sujeitos para Nether Acker. Baldwin j se recusara a viajar com eles, alegando que eram sujeitos barulhentos 
e malcheirosos, cujo comportamento era inadequado e absurdo. Jack no pde deixar de achar graa ao relembrar como Win, seu companheiro de batalha em Copenhagen 
e Vimeiro, em to pouco tempo se tornara todo engomadinho e formal.
      Assim, Win viajaria com ele no coche. Por isso, Jack teve de providenciar um outro tipo de transporte para os trs. Yates, um camarada sempre risonho, fora 
criado nos subrbios de Londres no meio de ruelas escuras e esgotos infectos. Tommy, um bonacho de North Yorkshire, trabalhara durante algum tempo como aprendiz 
de sapateiro. A me de Bart, como ele sempre contava, se apaixonara por um irlands, da seus cabelos avermelhados, e jamais dera nenhuma outra informao sobre 
sua vida.
      - Mais cinco minutos e ns teramos partido sem voc, seu cabea-de-vento! - Jack se dirigia a Yates, que desaparecera bem na hora da partida.
      - Fui me despedir de meus amigos, major. No  certo no desejar boa sorte para eles. - Em seguida, Yates subiu no carro, onde os dois amigos o esperavam.
      Sem dizer mais nada, Jack embarcou e acenou para que o cocheiro no outro veculo iniciasse a marcha. Tentou ignorar a dor e a nusea que o acometiam durante 
o percurso pelas ruas que os levavam para fora da cidade. Mais desconfortvel do que a dor, porm, era a preocupao em no saber como e onde alojaria aqueles trs.
      No entanto, no podia se esquecer de que se eles no o tivessem tirado de sob seu cavalo depois da exploso, arrastado para um abrigo e estancado seus ferimentos, 
teria sangrado at a morte.
      Se Yates, o que se ferira com menos gravidade, no houvesse surrupiado a comida dos oficiais e tambm uma pilha de cobertores, talvez todos eles tivessem perecido 
de fome ou congelados.
      Todos decidiram esperar para o dia seguinte at poderem ir a um hospital. Assim, Jack lhes devia no s a vida, mas tambm a felicidade de contar ainda com 
seus braos e suas pernas.
      Quando voltara para visit-los no hospital de Londres, os trs lhe confessaram que no tinham lugar para morar. Jack, sem pesar as conseqncias, de imediato 
lhes oferecera emprego em sua propriedade.
      Naquele momento, percebia que apenas gratido no solucionaria os problemas. Nenhum deles dava a impresso de ter alguma qualificao que fosse para o trabalho. 
Pior ainda: como iriam se comportar com os habitantes locais? As mulheres talvez at gostassem de ver novos homens com quem poderiam flertar, mas nenhuma delas estaria 
segura como antes!
      - Por que no levei em considerao todas essas questes antes de lhes oferecer abrigo? - Jack murmurou, desconsolado.
      
      Carregando uma cesta que continha a touca que vinha bordando para o beb, Kitty juntou-se  me no quarto de Bea. Nem sua me, nem tampouco Bea eram habilidosas 
com trabalhos de agulha, e provavelmente logo teriam de contratar uma costureira da vizinhana para ajud-las. Depois de passarem mais de um quarto de hora procurando 
novos padres nas pginas de um livro de bordados, Kitty resolveu tocar no assunto do festival:
      - Esta manh, enquanto cavalgvamos, o duque me contou um pouco da histria da propriedade.
      - Ah, sim... A famlia vive neste lugar h sculos. - Bea admirava uma pea de renda.
      - Imagino que haja muitas comemoraes e festivais durante o ano.
      Bea sorriu.
      - No sei de muitos eventos por aqui, mas eu adoraria um festival mais do que qualquer outra coisa no mundo!
      - Penso que o duque tem algo em mente. Talvez voc possa lhe perguntar durante o almoo - Kitty sugeriu  irm, tentando pr em prtica o plano que elaborara.
      Como a refeio acontecia sempre sem a presena da duquesa, seria mais fcil abordar o tema.
      Mais tarde,  mesa, Bea pediu a Char, se ele no se importasse, que recitasse seus novos versos em uma outra ocasio, para, em vez disso, conversarem sobre 
o festival que ele mencionara naquela manh para sua irm.
      - Mencionei algum festival? No me lembro disso... - o duque a fitou, surpreso.
      - Char, como seria maravilhoso! - Bea bateu palmas. -  como se os velhos tempos voltassem. As pessoas da vizinhana apreciariam muito, tenho certeza!
      - Sim, de fato anos atrs costumvamos ter muitas comemoraes religiosas e festivais tambm. Certa ocasio, recebemos a visita de uma trupe, e com ela o homem 
engolidor de fogo. Em outra oportunidade houve uma celebrao religiosa para abenoar os animais.
      - Engolir fogo? Isso deve ser perigoso! - Bea arregalou os olhos, incrdula.
      - Na realidade era um bom truque, querida. Suponho que meu administrador, o sr. Edgerton, e minha me mantenham um registro de todos esses acontecimentos... 
Minha me! Tinha esquecido! O que ela achar de tudo isso?
      Kitty o interrompeu:
      - Sugiro que no fale nada ainda at que tenha algo elaborado, Char. Assim ser mais fcil convenc-la de que restabelecer uma antiga tradio ser muito saudvel.
      Bea segurou a mo do marido.
      - Querido, a duquesa vive reclamando de que voc deveria se envolver mais nos negcios da propriedade. Sua me deseja que voc faa mais!
      O duque balanava a cabea e franzia as sobrancelhas, demonstrando preocupao.
      Dali para a frente, s restava s irms rezar para que ele levasse adiante a idia, e que a oposio da duquesa viva pudesse ser contornada.
      
      
      
    Captulo IV
      
      
      - Vossa Graa... - Kitty se inclinou numa pequena reverncia, segurando o vaso de flores com cuidado para no derramar gua no tapete.
      Olhando a sua volta, ela reparou em uma poltrona com um livro aberto sobre ela. Os quadros eram, na maioria, de paisagens. Um deles, muito agradvel, mostrava 
uma imagem diferente daquela - to severa - que a duquesa insistia em mostrar para o mundo. Uma pessoa real vivia ali.
      Vrias mesinhas com tampo de vidro continham as miniaturas colecionadas pela duquesa. Char dizia que a me possua uma das mais finas colees, incluindo peas 
do perodo elizabetano, porm apenas especialistas londrinos tinham permisso para v-la. A viva recebeu Kitty com um leve movimento de cabea.
      - A duquesa minha irm e eu cortamos algumas flores esta manh, e tomei a liberdade de lhe trazer estas rosas. - Kitty colocou o vaso em uma mesa prxima a 
lady Charsley.
      - No gosto de rosas. O perfume  adocicado demais e enjoativo.
      Kitty mordeu o lbio para no rir. O aroma era, sem dvida, adocicado demais para uma personalidade to amarga.
      - Talvez possa apreciar a beleza das flores de certa distncia sem que a fragrncia chegue at Vossa Graa. - Kitty ps o arranjo sobre um pequeno pilar, alguns 
passos adiante. - Gostaria de cumpriment-la pelos maravilhosos jardins. O sr. Henry me disse que a senhora  responsvel pelos intrincados arabescos e pela disposio 
das plantas.
      - Ah, isso foi muitos anos atrs... No tenho mais tempo para isso agora. Estou surpresa por ver que o jardineiro permitiu que cortassem flores.
      - Sim, ele no podia negar esse prazer  jovem duquesa. Em Dunmark Manor, costumvamos colher e secar uma variedade de ptalas e fazer um potpourri. Ficaramos 
muito felizes se autorizasse o uso de um cantinho da copa para continuar esse trabalho.
      - A copa  usada pela sra. Wells, e no desejo mudar seus hbitos. Se vocs pretendem preservar flores, devem voltar para sua casa. Esse no  assunto meu.
      Foi essa a resposta que Kitty imaginara que obteria. A duquesa no se dobrava com facilidade. Toda pacincia seria pouca...
      
      - No sabia que meu administrador havia contratado uma jardineira!
      A voz de bartono interrompeu o leve cantarolar de Kitty, que aparava a roseira que crescia escondendo a janela do chal.
      - Est se dirigindo a mim?
      - Dirijo-me  pessoa que resolveu cortar flores em minha propriedade! - O homem desceu da charrete sem conseguir disfarar o espasmo de dor que lhe crispou 
a face.
      Era magro, de porte elegante. Vestia um casaco azul-escuro de corte impecvel, cala de montaria e botas de couro muito bem engraxadas.
      - Tenho permisso do duque de Charsley para...
      - De fato! Esqueci que  tpico de meu primo considerar que toda a vizinhana lhe pertence. Essa pequena edificao se encontra em minhas terras!
      - Seu primo! Ento o senhor deve ser Jack Whitaker! Deveria ter logo imaginado. Se este chal se encontra em sua propriedade, peo-lhe perdo por mim e pelo 
duque tambm. - Kitty estendeu o galho com botezinhos cor-de-rosa em direo ao major.
      - Ei! Est cheio de espinhos! - Jack reclamou ao segurar a planta.
      - Perdoe-me. No era minha inteno confiscar seus pertences. - Kitty tentou reprimir um sorriso divertido. - Sou Kitty Stone, irm da duquesa.
      - Oh, entendo...
      Pela entonao dele, Kitty percebeu que o major estava a par de toda a histria de como o duque a abandonara para se casar com sua irm.
      - Visto que se trata de invaso de propriedade, no devo continuar minhas atividades por aqui, senhor. - Kitty tirou as grossas luvas, colocando-as no parapeito 
da janela.
      - E o que pretende fazer, srta. Stone? Tem algum projeto especial? Este lugar se situa no limite de minhas terras, e como pode ver, nunca  usado. Estou pronto 
a ouvir sua proposta. - Jack Whitaker parecia divertir-se com ela.
      - Pretendia transform-lo em uma sala de msica, onde poderia praticar minha harpa sem ser ouvida pela duquesa, me do duque.
      Jack tornou a rir.
      - Claro, a duquesa e suas famosas esquisitices...
      - No estou reclamando - Kitty tentou amenizar o comentrio, lembrando-se de que o major contava com a simpatia de lady Charsley.
      - No  necessrio que seja to discreta a esse respeito. Sinta-se  vontade para critic-la, srta. Stone. Todos o fazem.
      - Mas quem sou eu para fazer tal comentrio a respeito da duquesa?
      - Esse comportamento  corts demais, no concorda?
      - Para ser franca, penso que "esquisitice"  uma palavra muito leve para descrev-la. Acho-a autoritria e rude.
      - Srta. Stone, tem toda a razo.  lgico que entendo o que quer dizer.
      - Bem, no desejo eu mesma ser uma pessoa rude. Talvez no devesse externar minha opinio. Na verdade, sinto que no  justo ter de remover minha harpa da 
casa quando sei muito bem que o som no a importunaria de nenhuma forma. Charsley Hall  imensa. Como poderia o som tocado na sala de msica ser ouvido em uma ala 
oposta?
      - Diria que no se trata do som em si, mas uma forma de manter seu domnio. Milady no permite que atividade alguma acontea sem que esteja sob seu controle. 
 por isso que a senhorita foi enviada para c?
      Kitty apanhou um boto de rosa e inalou seu perfume.
      - O duque sugeriu que eu encontrasse um lugar, e quando vi este pequeno chal pensei que seria o recanto perfeito. Char me disse que posso fazer o que quiser 
dele. O jardineiro e algumas empregadas viriam amanh para comear a arrumao, mas uma vez que a propriedade lhe pertence cancelarei os planos.
      - O que iria fazer aqui? Praticar seus agudos? - O major a fitava, sem dvida curioso.
      - No tenho agudos, sir, pois tenho voz de contralto. Como no h um piano, tive a idia de trazer minha harpa. Mas encontrarei um outro canto. - Kitty juntou 
as tesouras e luvas, preparando-se para voltar  manso.
      - Srta. Stone, estou disposto a deix-la usar o chal... por um pequeno preo.
      - Como? - Kitty se esforou para que sua expresso e seu modo de falar no mostrassem o assombro que aquelas palavras lhe causaram.
      - Me permitiria vir de vez em quando para escut-la tocar. 
      Kitty o encarou, tentando manter a calma. Considerando os comentrios sarcsticos feitos antes, perguntou-se se o major de fato estaria interessado na msica 
tocada por uma amadora.
      - Meu talento musical no vai alm de algumas msicas familiares, mas estou disposta a tocar para o senhor, se essa  a sua condio.
      - Muito bom! Pea a Char para cancelar o jardineiro e as empregadas. Tenho alguns homens que precisam de trabalho, embora no tenham experincia nessas tarefas. 
O que mais alm do corte das plantas e da limpeza dos vidros  necessrio fazer?
      - Dei uma espiada pela janela e vi que a moblia foi toda empurrada para o meio da sala. Quem morava aqui?
      - H mais de doze anos que estou fora, estudando, e depois servindo o Exrcito. No saberia dizer quando e por quem o chal foi habitado. Acredito que Char 
deve ter a chave. Trarei meus homens amanh cedo.
      - Pensei que estivesse morando em Londres, major - Kitty falou olhando-o direto nos olhos. - O duque me disse que o senhor tem negcios l.
      - Londres est ficando vazia, agora que o vero se aproxima. Assim, decidi que algumas semanas no campo seriam agradveis.
      - Est hospedado em Charsley Hall? - Kitty imaginava que um bom descanso talvez pudesse amenizar a expresso de sofrimento que Jack Whitaker mostrava em seu 
semblante.
      - Sim, estava a caminho. Deixei meus homens na hospedaria Cross e Bell. Esses sujeitos pertenciam a meu regimento e no tinham onde ficar, na capital.
      Kitty estava prestes a pedir mais informaes, mas logo resolveu no faz-lo. O que Jack Whitaker fazia no era de sua conta, e no desejava tomar seu tempo 
com perguntas inteis.
      - Espero v-la ao jantar, srta. Stone.
      - Certamente que sim, major.
      Ao se virar para Kitty, aps subir na charrete, a fisionomia no mostrou tanta dor como quando chegara.
      - Adeus, srta. Stone.
      - At o jantar, major.
      
      As portas de Charsley Hall se abriram antes mesmo que a carruagem de Jack parasse por completo. O mordomo desceu a escadaria seguido por dois criados.
      Jack contraiu o rosto  medida que se curvava para descer do veculo, causando um ar de aflio na face enrugada do idoso servial.
      - Major, deixe que os criados o ajudem! Jack dispensou-os com um gesto.
      - No  necessrio, Randall. Estou apenas com os msculos um pouco endurecidos por ter ficado sentado tanto tempo.
      Com grande esforo, Jack manteve uma postura ereta ao subir as escadas atrs de Randall, mas to logo a porta do quarto se fechou atrs dele, deixou-se cair 
exausto numa cadeira. O quadril esquerdo estava em brasas, e a dor irradiava pela perna e pelas costas. Sabia que mais fragmentos de metal pouco a pouco vinham  
superfcie de sua pele. Teria de chamar o mdico, mesmo contra a vontade, para retirar os estilhaos antes que o sofrimento se tornasse insuportvel.
      Ali no campo, ele contava com o dr. Lanark, antigo mdico da famlia que tratara do duque, pai de Char, e de muitos outros parentes. Embora de avanada idade, 
o dr. Lanark era ainda muito competente. E o mais importante, Jack pensou, era que no o foraria a permanecer em repouso na cama por semanas a fio.
      Jack alcanou a garrafa de conhaque que Randall, sempre muito atencioso, colocara na mesa e encheu o copo. Tomou um gole e sentiu o lquido quente e macio 
escorregar por sua garganta. Em poucos minutos, a dor pareceu arrefecer um pouco, dando-lhe um certo alvio.
      Recostando-se no espaldar, deixou os pensamentos vagarem. Por menos que desejasse admitir, a viagem de Londres at Charsley Hall fora bastante cansativa e 
dificultosa, e colocar os trs na estalagem havia sido mais complicado do que esperara.
      A conversa com a srta. Stone tomara o resto de seu tempo livre, no lhe deixando quase nada para um bom repouso. Logo teria de se banhar e se vestir para visitar 
Mary e cumprimentar a tia, antes que o jantar fosse servido.
      Esperava que a duquesa viva houvesse diminudo a implicncia com seu primo, Char. Talvez a chegada da srta. Stone pudesse trazer alguma mudana na atmosfera 
da manso.
      No entanto, o que aquela jovem fazia ali? Depois que Char a trocara pela irm mais nova, por que teria vindo viver em Charsley Hall? Jack achava difcil crer 
que algum homem pudesse trocar Kitty Stone por uma garota to imatura e inconseqente como Beatrice.
      A srta. Stone parecia ser uma pessoa inteligente, alm de uma mulher atraente de fato. Jack duvidava que algum dia ela tivera verdadeiro interesse por Char. 
Entretanto, o fato de Char possuir um ttulo de nobreza e ser riqussimo tornava-o irresistvel a certas jovens, e Kitty Stone poderia ser uma delas.
      Cerrou as plpebras tentando relaxar. Por isso nem percebeu quando Win entrou com uma bacia de gua quente para ajud-lo a se barbear e se vestir para o jantar.
      - Win, pretendo visitar Mary e no precisarei mais de voc. Tire o resto da noite para descansar. Sem dvida, um descanso merecido. E garanto que sua namorada 
j sabe de sua volta e espera sua visita.
      Embaraado, Win corou e comeou a gaguejar.
      - Obrigado, major. Mas no quero abusar. Estarei de volta antes das onze horas.
      - Faa o que estou mandando, homem! Volte s amanh cedo.  uma ordem. E divirta-se muito!
      - Sim, major. Farei o possvel.
      Sorrindo consigo mesmo, Jack se dirigiu aos aposentos de Mary, que o recebeu com abraos e beijos.
      - Tem estudado bastante, menininha?
      - Sim! Sou capaz de dizer os nomes de todos os reis e rainhas desde Henrique VIII. A rainha Elizabeth  a de que mais gosto!
      - Eu tambm, Mary. Ela foi uma grande soberana. Puseram-se a falar sobre as atividades da garota, e a srta. Munstead no poupou elogios a Mary.
      A conversa foi interrompida pela chegada da refeio, trazida por dois empregados. Mary no conseguiu esconder seu desapontamento por ter de interromper a 
conversao.
      - Bem, minha querida, voc deve se alimentar agora. Amanh irei v-la cavalgar. To logo consiga permanecer sentado em uma sela por mais de quinze minutos, 
passearemos juntos. Atravessaremos a ponte para que conhea Nether Acker, lugar onde nasci e passei a minha infncia e juventude.
      - Oh, sim, major! Adoraria ir com o senhor!
      Jack lhe beijou a testa e despediu-se da srta. Munstead.
      Saindo da sala, consultou o relgio. Havia tempo suficiente para visitar sua tia e acompanh-la  sala de jantar. A duquesa apreciava tomar um clice de licor 
em sua companhia antes de descer, e Jack tentava abordar assuntos que no a contrariassem. Muitas vezes ele se perguntou o que levava sua tia a ser to desagradvel 
com todos, exceto com ele e com Mary.
      Elegantemente vestida e usando uma tiara de diamantes nos cabelos grisalhos, a duquesa o aguardava.
      - Meu querido Jack, est com tima aparncia!
      - Tia Adelina, meus respeitos. - Jack fez uma reverncia e levou a mo da senhora aos lbios. - Espero encontr-la bem.
      - To bem quanto  possvel nestas circunstncias. Devo comunicar-lhe que a me e a irm da esposa de Charsley esto vivendo nesta residncia. Char insistiu 
para que viessem, apesar da fragilidade de minha sade.
      Sua tia lhe parecia muitssimo bem e, quando sorria, sua expresso se tornava at agradvel.
      - Char est alheio a tudo, a no ser  felicidade daquela ridcula criana que desposou. Uma jovem que no mostra o mnimo de senso comum, e alm do mais est 
sempre adoentada! Sua gravidez j comea a aparecer, e qualquer desconforto  motivo de grande movimentao por parte de todos por aqui, e de Char em especial.
      - E, imagino, ningum se importa com seus sentimentos, no , minha tia?
      - Ah, Jack, como  bom saber que posso contar com sua compreenso, meu querido sobrinho...
      - Sem dvida. E agora posso lhe oferecer meu brao e lev-la at o salo?
      - Nada melhor poderia desejar neste momento!
      A duquesa fez sua entrada triunfal na sala de jantar, percebendo com satisfao que todos se mantinham de p aguardando que ela se sentasse.
      Assim que Jack cumprimentou a jovem duquesa, Char se dirigiu  senhora de cabelos castanhos sentada ao lado de sua esposa:
      - Lady Dunmark, desejo apresentar-lhe meu primo, Jack Whitaker. Jack, lady Dunmark  a me de Beatrice.
      Jack se inclinou e desejou-lhe boas-vindas a Kent.
      - E esta  Kitty Stone, irm de Bea.
      Antes que Kitty pudesse responder, a duquesa o chamou para que se acomodasse a seu lado.
      - Jack  um grande heri de guerra, e no ano passado foi gravemente ferido na batalha de Vimeiro, em Portugal.
      -  um grande prazer estar na companhia de quatro damas deslumbrantes. - Jack tomou assento ao lado da duquesa Adelina.
      - Deslumbrante! - Char exclamou, apalpando os bolsos  procura de um pedao de papel. - Era dessa palavra que necessitava para a ltima linha de minha ode!
      A voz spera da duquesa cortou o entusiasmo de Char:
      - No h razo para tanta alegria apenas por ter encontrado uma nova palavra!
      O jantar transcorreu com a duquesa enaltecendo os feitos de Jack e desconsiderando o prprio filho. As trs senhoras se sentiam to desconfortveis que no 
conseguiam proferir uma slaba sequer.
      Jack no tinha idia de como impedir que sua tia continuasse a fazer comparaes entre ele e seu primo.
      Char lhe pedira vrias vezes que no interferisse nas crticas que a me lhe fazia e ignorasse o que dizia.
      Seria uma situao difcil de ser resolvida dali para a frente. A no ser que Jack voltasse para Londres ou se mudasse de Charsley Hall. Talvez pudesse tornar 
a velha manso de Nether Acker habitvel outra vez. Se o pequeno chal fora reaberto, por que a antiga casa em sua propriedade no poderia ser tambm? Com certeza, 
seu administrador teria arejado e inspecionado o imvel de tempos em tempos, e cuidado para que ratos e insetos no invadissem a residncia.
      Pelo menos, se ele deixar Charsley Hall, a tia no se valeria de seus feitos nas batalhas para humilhar seu primo. Sim, a melhor soluo seria mudar-se para 
Nether Acker.
      Quanto  misso de convencer Char a dedicar-se um pouco que fosse  poltica, tentando convencer os membros da Cmara dos Lordes a dar mais apoio  guerra, 
teria de ser adiada.
      
      Kitty mal conseguia engolir a comida. Que tipo de me zombaria do prprio filho durante horas na frente de verdadeiros estranhos? Teve mpetos de dirigir-se 
 duquesa no mesmo tom rude, mas concluiu que trat-la com desrespeito s pioraria ainda mais a situao.
      Olhando de soslaio para o major Whitaker, tentou lembrar-se de como ele descrevera as atitudes da duquesa. Esquisitices, fora o termo que usara. Porm essa 
descrio nem de longe mostrava a maldade expressa nas aes de lady Charsley.
      Durante o jantar, Kitty notou a expresso tensa do major. No saberia dizer se significava desaprovao ao comportamento da tia ou se era motivada pela dor 
que experimentava. De qualquer modo, suas modestas idias para a organizao de um festival de vero e a permisso para usarem a copa pareciam totalmente inadequadas 
para aquele momento.
      Se pelo menos houvesse um meio de afastar a duquesa de Charsley Hall... Seria bem mais fcil colocar seu plano em ao.
      A continuar como as coisas iam, teriam de agir muito devagar. S com muita pacincia seria capaz de tornar tudo um pouco melhor para Char e Bea, fazendo valer 
seus direitos e privilgios.
      Alguns dias antes, lady Dunmark tivera uma conversa muito sria com Bea a respeito de seus deveres como senhora de uma grande propriedade.
      - So obrigaes que voc deve assumir, Beatrice. Como duquesa de Charsley,  responsvel pela vida e prosperidade de centenas de pessoas. No importam as 
dificuldades que sua sogra interponha em seu caminho. Tem de ter uma atitude mais positiva em nome de seus futuros filhos, minha menina!
      Kitty desejava que aquele jantar terminasse logo. Concordava com sua me sobre o comportamento de Bea, mas naquele instante compreendia que seria quase impossvel 
tirar o controle da propriedade que era mantido pela viva com mos de ao.
      Sua ateno voltou-se para a duquesa-me, que perguntava a Jack sobre suas atividades em Londres.
      - Receio que acharo meus relatos muito entediantes. - Jack encarou Char. - Como  de seu conhecimento, meu primo, sir Wellesley foi absolvido na conveno 
de Cintra das acusaes imputadas a ele pelos generais que o sucederam. Lady Dunmark e srta. Stone, desculpem-me por repetir o que j sabem, mas podero entender 
melhor aps um breve histrico.
      - Sim, continue - Lady Dunmark concordou.
      - Wellesley, assim como todos ns, devo dizer, estava ansioso para perseguir os franceses e for-los a sair de uma vez por todas. Mas os novos generais se 
recusaram a se aproveitar de nossa vantagem, e o inimigo teve tempo mais do que suficiente para se reagrupar.
      - Velhos tolos,  o que so! - Char retrucou com veemncia.
      - E voc j se encontrava muitssimo ferido, Jack - a duquesa comentou.
      Jack tornou a falar antes que a viva fizesse algum outro comentrio:
      - Na realidade, eu tinha conhecimento do que vinha acontecendo. Embora nossa marinha, com sua bravura, tenha forado o Exrcito francs a retornar a seu pas, 
os soldados voltaram fortalecidos para cumprir os desejos daquele louco, cuja inteno  conquistar o continente inteiro. Aps isso, Wellesley passou a planejar 
seu retorno para Portugal. Entretanto, disse-me que gostaria que eu permanecesse na Inglaterra em vez de acompanh-lo de volta. Pediu que entrasse em contato com 
homens do governo e outras pessoas de influncia com o intuito de obter apoio para suas manobras. Wellesley acredita que um Exrcito, para ser eficiente, deve ser 
bem suprido com equipamentos e comida.
      Todos o ouviam com muita ateno.
      - Acontece que, to logo as foras expedicionrias desaparecem no horizonte, muitos de nossos governantes julgaram mais conveniente esquecer sua existncia. 
Minha tarefa, como a de muitos outros,  de lembr-los a todo momento das necessidades de nossas foras.
      - Como j disse, Jack, voc  um verdadeiro heri, ocupando-se de tudo isso mesmo antes de estar completamente curado. - A duquesa largou a colher e apontou 
em sua direo.
      Jack meneou a cabea.
      - O trabalho no  nada herico comparado ao que os homens fazem nas batalhas. Neste momento, minha tarefa consiste apenas em conversar com polticos e homens 
influentes, mas to logo consiga me sustentar em cima de um cavalo, retornarei a Portugal.
      - Oh, no! - lady Dunmark exclamou. - No deve se arriscar de novo, major!
      Kitty o olhou fixo. Como poderia ele sequer pensar em tornar a lutar?!
      - Creio que falei demais, senhoras. Sinto muito ter me estendido tanto em meus comentrios!
      Char se levantou.
      - Se voc no se importar, Jack, acompanharemos as senhoras. Tenho o costume de juntar-me a elas na sala de msica aps a refeio.
      - Como desejar. - Jack tambm ficou de p.
       Kitty seguiu os demais, pensando nas palavras do major. O que poderia levar um homem a desejar enfrentar as armas dos inimigos aps ter chegado to perto 
da morte?
      Todos se acomodaram, e a duquesa sugeriu que tocassem um pouco de msica.
      - Jack tem uma voz excelente, e far com que o dueto de vocs tenha uma sonoridade muito melhor - Adelina afirmou, dirigindo-se s duas irms.
      Kitty teve mpetos de pegar um enfeite de porcelana da mesinha prxima e atir-lo na duquesa, mas se conteve a custo e sentou-se ao piano, seguida por Jack. 
Sem demora, Bea e Char se aproximaram tambm.
      - Vamos cantar as mesmas canes de ontem  noite - Bea sussurrou, mostrando irritao. - Com certeza, a duquesa nem perceber.
      Kitty foi forada a reconhecer que Jack tinha de fato uma boa voz, mas em momento algum a usou para se sobrepor aos demais.
      Ao terminarem a primeira cano, Jack se colocou entre as irms, segurando uma partitura que pegara de uma pilha que se encontrava na mesinha lateral.
      - Olhem, acho que todos conhecem esta aqui.
      - Sim, desde que tinha cinco anos de idade. - Bea sorriu-lhe.
      - Um dia, quando eu tiver bebido uma taa de vinho alm de meu limite usual, recitarei para vocs a letra que ns, no Exrcito, cantamos para essa melodia. 
Mas imagino que a duquesa arrancaria minhas orelhas se tentasse faz-lo hoje! - Jack segredou-lhes, divertido.
      Bea deu uma gargalhada, e Kitty teve de admitir que sua irm simpatizava com Jack, apesar da predileo de sua sogra por ele, e no por seu marido.
      Sim, de alguma forma Kitty teria de envolv-lo nos planos para melhorar a situao naquele lar.
      Terminada a segunda cano, Bea pediu licena para se retirar, alegando estar muito fatigada. Kitty e sua me tambm se levantaram para acompanhar a jovem 
duquesa.
      Ao chegarem ao quarto, Bea se deixou cair numa poltrona.
      - Jack, Jack, Jack! Vocs no tm idia de como eu gostaria que ele no tivesse voltado! - A jovem estava desconsolada. - Estranho, mas ao mesmo tempo, gosto 
dele. Ele  bom para Char e para mim.
      - Jack mostra certa tolerncia com a viva, mas acredito que sabe o que est fazendo. Notei uma expresso de desaprovao em seu rosto quando ouvia as crticas 
da duquesa feitas a Char.
      - Ele j estava aqui quando voc e Char vieram morar em Charsley Hall, Bea?
      - Sim, Kitty, a duquesa cuidava dele. Acho que Jack chegou no outono.
      - Como se feriu?
      Bea dirigiu-se ao espelho e fez uma careta para a imagem ali refletida.
      - No entendi muito bem, mas Jack diz que esteve no meio de uma exploso, e estilhaos penetraram todo o seu corpo. Penso que ainda sofre muito, mas logo depois 
que chegamos partiu para Londres.
      - Qual ser a razo da preferncia da duquesa pelo sobrinho em detrimento do prprio filho?
      - Char me contou que a me de Jack morreu quando ele ainda era pequeno. O pai, lorde John Whitaker, passou a negligenciar o filho depois da morte da esposa. 
Jack era muito bom em tudo o que fazia: jogos, equitao e at mesmo natao.
      Lady Dunmark chegou perto de Bea, meneando a cabea.
      - No faa caretas, Beatrice. O que houve com lorde John?
      - Tanto ele como o pai de Char morreram ainda mais ou menos jovens. - Bea torceu o nariz.
      - Voc vai ficar cheia de rugas, Bea! - Lady Dunmark censurou a filha. - Aqui, deixe-me passar esta loo dinamarquesa em suas faces.
      Kitty nem sequer ouviu os conselhos de beleza de lady Dunmark para a filha mais jovem, pois mantinha os pensamentos em Jack.
      Ele parecia gostar de Char, e de Bea tambm. No entanto, no pronunciara uma nica palavra em defesa do primo.
      Kitty teria de adicionar mais um item a sua lista de tarefas: convencer Jack a se juntar a ela para mudar tudo em Charsley Hall.
      
      
      
    Captulo V
      
      
      Jack acordou banhado de suor ao som de seus prprios gemidos. Era como se centenas de facas penetrassem sua perna, e podia sentir o corao pulsando em seus 
ouvidos.
      Um ponto de luz surgiu na escurido, e ele mordeu o lbio, tentando no gritar ao ouvir o som das devastadoras exploses e lamentos de dor.
      Tinha de voltar  batalha e salvar seus homens. Onde estariam? Perdidos na escurido e chamando por ele aos gritos. Mas, estava preso embaixo de seu cavalo... 
esvaindo-se em sangue...
      - Major, beba isto.
      Jack agarrou o lenol com firmeza, tentando controlar-se e abriu os olhos.
      Deparou com Win segurando um copo junto a sua boca.
      - No. Apenas gua. Sem isso...
      - Apenas algumas gotas, major.
      - No quero pio. Traga-me gua. Ou melhor ainda: conhaque. Fora apenas um sonho. Um pesadelo que lhe aparecia quando a dor era muito forte.
      - Lanark vir logo? - Win quis saber.
      - Sim. - Jack tocou o quadril e, com toda a cautela, desceu a mo pela coxa. - Posso sentir um punhado de estilhaos bem aqui.
      - O senhor teve outro daqueles pesadelos.
      - E voc deveria voltar s pela manh! - Jack retrucou, tentando parecer enrgico.
      - J  de manh, major. Ouvi o relgio bater cinco vezes um pouco antes de o senhor despertar.
      - Ah! Ento a noite foi agradvel?
      - Bem, aqui no  um confessionrio. No sei de onde o senhor tirou a idia de que existe uma mulher. - Win enxugou a testa de Jack com uma toalha.
      - Olhe-se no espelho, Win. Sua expresso  a de quem viu um passarinho verde!
      
      Kitty esperou perto dos estbulos at que Mary e a preceptora chegassem para a aula de equitao matinal da garota. To logo o cavalario ajudou Mary a montar 
e se afastou, puxando o cavalo pela rdea, a srta. Munstead, dirigiu-se a um recanto prximo e ps-se a ler um livro.
      Kitty hesitou por um momento, mas acabou se aproximando dela, sorrindo. A srta. Munstead no disfarou a contrariedade ao v-la ali.
      - Lindo dia, no  mesmo, srta. Munstead?
      - Sim, muito agradvel - ela respondeu, desviando o olhar do livro por alguns segundos.
      - Apreciando alguns momentos de tranqilidade?
      - De certa forma. Mary est tendo suas aula de equitao, e eu fico aqui, esperando por ela.
      - No as tenho visto ultimamente. Leva Mary para visitar Sua Graa todas as tardes?
      - No. A duquesa manda um recado quando deseja nos ver. Seus nervos so delicados, e ela  propensa a ter espasmos.  tudo o que posso lhe dizer, srta. Stone. 
Desculpe-me.
      - Entendo. Sua Graa necessita de muita considerao por parte de todos ns. - Kitty mal podia acreditar que era ela mesma quem pronunciava aquela frase. - 
Estou certa de que sua vida deve ser muito difcil!
      Suspeitava que a srta. Munstead no lhe daria mais nenhuma informao sobre a vida da duquesa. Afinal, seu emprego dependia da boa vontade de sua patroa.
      - Cuida de Mary h muito tempo?
      - Desde seus trs anos de idade.
      - O que houve com os pais dela?
      - No sei dizer. Ouvi comentrios de que morreram em um trgico acidente de carruagem. Mary foi a nica sobrevivente.  claro que ela no se lembra de nada. 
Oh! Acho que falei demais!
      - Fique tranqila. No comentarei nada com ningum.
      A preceptora ficou de p e, fazendo uma leve reverncia, se afastou.
      De perto, a srta. Munstead parecia muito mais jovem, Kitty concluiu ao caminhar de volta aos estbulos. E estava bastante assustada.
      Naquele momento, a memria de Kitty trouxe-lhe lembranas da infncia. Antes de freqentarem a escola da srta. Kirk em Bath, ela e Bea haviam tido uma preceptora, 
a srta. Sterling, que lhes ensinara francs e geografia, alm de ministrar aulas de piano e trabalhos com agulha. Sempre teve a impresso de que, ao contrrio do 
que presenciava em Charsley Hall, a srta. Sterling era considerada como um membro da famlia. Ou seria apenas uma impresso de criana?
      O que poderia ter acontecido com ela? Sem dvida era muito mais jovem do que Kitty pensara na poca. Afinal, quando se tem apenas dez anos de idade, qualquer 
pessoa com vinte e cinco parece quase idosa. Sentiu dificuldade em imaginar-se na posio de uma ou de outra.
      Voltando  realidade, Kitty tornou a pensar em Mary. Por que a menina permanecia reclusa? Nem Char ou Bea chegaram a mencionar a existncia da garota. Entretanto, 
a duquesa se preocupava com a educao dela. Quem sabe, a srta. Munstead no poderia lev-la ao chal para ter algumas lies de harpa?
      
      - Vocs so trs inteis, seus miserveis imprestveis! Saiam da e preparem-se para trabalhar como nunca trabalharam em suas vidas! - Jack gritou da porta 
da estalagem.
      Sem perda de tempo, Bart, Tommy e Yates largaram as mulheres que abraavam e se puseram de p, tentando compor as roupas. As moas riram e esconderam o rosto. 
Jack calculou que, por questo de minutos, teria encontrado todos em situao mais comprometedora.
      - Escute, major, estamos apenas nos divertindo um pouco, sem prejuzo para ningum.
      - Haver prejuzo para vocs, sem dvida, se eu no ficar satisfeito com o resultado do servio que tenho para os senhores!
      - O que tem em mente, senhor?
      - Quero que peguem vassouras, panos e baldes e coloquem na carroa. Tragam sabo e cera tambm. Digam  sra. Talbot que reporei seu estoque amanh.
      - Mas no somos muito bons em faxina, senhor.
      - Nesse caso, tero de aprender. Carreguem tudo at o chal que fica na alameda que conduz aos estbulos de Charsley Hall. Estarei a sua espera nesse local 
dentro de meia hora. E nem ousem voltar e terminar o que vinham fazendo l dentro!
      Subindo na charrete, Jack viu Win olhando-o com ar divertido.
      - Fique quieto, Win. No estou interessado em escutar o seu "eu no lhe disse?".
      Jack dirigiu mais rpido do que deveria, e seu ombro e quadril protestaram.
      Prximo ao chal, avistou a srta. Stone, que se aproximava. Usava um vestido leve de musselina sob um avental bege e um pequeno chapu de palha. Tal qual na 
noite anterior, sua aparncia era adorvel, e ao v-la Jack sentiu-se reanimar.
      Quando o veculo diminuiu a marcha, Win pulou dele, oferecendo a Kitty um lugar no veculo.
      - No, obrigada, Baldwin. Se no se importa, major, continuarei andando. A distncia daqui at o chal  bem pequena.
      - Caminharei com a senhorita, ento. Win levar os cavalos. - Ao descer, o rosto de Jack se contorceu, tamanha a pontada que sentiu.
      - Trouxe algumas chaves para ver se serviam. O sr. Edgerton no soube dizer se alguma delas era a certa. - Kitty entregou o molho para Jack.
      Ao alcanarem a porta da frente, Jack experimentou as trs primeiras chaves, mas sem sucesso. A quarta virou com dificuldade, rangendo na fechadura, mas por 
fim destravou a lingeta.
      Jack se afastou, dando passagem a Kitty.
      - Um lugar agradvel. Haver bastante luminosidade to logo as janelas sejam limpas. Vejo que tem espao suficiente para minha harpa e para os mveis empilhados 
no centro da sala.
      - No precisar de um piano tambm?
      - No ousaria pedir um, major. Penso que causaria muitos problemas a Char.
      - Acho que existe um em Nether Acker. Tnhamos um excelente instrumento quando eu era criana, e no vejo razo para que no esteja l ainda.
      - Se no for inconveniente, um piano seria maravilhoso! Olhando em torno, Jack puxou seu bloco de notas.
      - Devemos fazer uma lista das tarefas a serem realizadas. Varrer e tirar o p, consertar as portas e janelas... Ah, sim, azeitar as dobradias!
      Assentindo, Kitty completou:
      - Lavar as janelas por dentro e por fora e talvez uma limpeza da chamin.
      Jack tomou nota e seguiu-a ao andar de cima, onde encontraram colches enrolados sobre as camas.
      - Penso que podemos nos desfazer destes. E nem precisaro ser repostos, uma vez que ningum dormir aqui.
      Ao ouvirem vozes do lado de fora do chal, retornaram ao trreo. Assim que abriu a porta, Jack deparou com Bart e Tommy puxando a cabea do burrico que tentava 
se alimentar da grama em frente. Yates dirigia a carroa e procurava controlar o animal, movimentando as rdeas de um lado para outro.
      Aps meia hora, conseguiram descarregar a carroa. Jack leu para os trs homens os itens da lista de trabalhos. Tommy e Yates pareciam desanimados, mas Bart 
olhava para Kitty com uma expresso de adorao, como se estivesse vendo um anjo diante de si.
      Yates torceu o nariz ao escutar as instrues.
      - Desculpe-me dizer, major, mas no somos muito bons neste tipo de coisa.
      - Vamos l, Yates! - Bart deu-lhe um tapa no ombro. - Se a srta. Stone deseja que este lugar seja limpo, digo que limparemos tudo muito bem.
      Jack olhou ao redor e em seguida se virou para eles.
      - Em um dia ou dois, o cirurgio vir remover alguns dos fragmentos de minha perna. Por isso, ficarei imobilizado por alguns dias. Espero que sigam  risca 
as indicaes da srta. Stone, pois ela se reportar sempre que achar necessrio. Ah! Devem saber que mandarei o jardineiro para que lhes ensine algumas tcnicas 
de como aparar e cortar esses arbustos e plantas. Agora, entrem e mostrem do que so capazes! Voltarei em no mximo uma hora, para conferir tudo.
      J do lado de fora, Kitty comentou, rindo:
      - No se preocupe. Eles faro um bom trabalho, major. - E colocando o chapu deu incio a sua caminhada em direo a Charsley Hall.
      - Posso acompanh-la at a casa?
      - Esse esforo no ir lhe provocar mais dores? .
      - No, se andarmos devagar. - Jack sorriu. 
      Atravessaram os jardins, que comeavam a florescer, e de repente Jack parou e se voltou para Kitty. Segurando seu brao, fez com ela se pusesse de frente para 
ele.
      - A senhorita de fato me surpreende. Se me permite o comentrio, em minha opinio  uma pessoa muito sensata para ter um dia imaginado sequer se casar com 
meu primo.
      Talvez a paz e a beleza do lugar tenham provocado em Kitty a necessidade de confidenciar suas aflies a algum, pois comeou a falar sem nenhuma reserva:
      - Espero que esta conversa fique apenas entre ns, major, mas eu no estava certa se deveria me casar com Char, porque no o amava - sussurrou. - Jamais confessei 
isso a ningum, mas para mim foi um alvio quando o duque e minha irm decidiram se casar. Havia apenas duas razes importantes para minha unio com Char. Primeiro, 
o fato de ele ser um homem muito rico; e tambm porque minha me e irm estariam amparadas de vez.
      - Quer dizer que havia interesses financeiros?
      - Bem, de certa forma, sim. No  mais segredo que quando meu pai morreu, trs anos atrs, ficamos com muito pouca reserva e muitas dvidas. Se no tivssemos 
sido convidadas para morar aqui em Charsley, minha me teria sido obrigada a pedir dinheiro emprestado a Char para manter a casa.
      - Lady Dunmark no possui nenhum rendimento?
      - Menos do que cinqenta libras por ano. E, para ser honesta, eu mesma nada possuo. Um guarda-roupa cheio de lindos vestidos e sapatos, algumas jias, mas 
nem um centavo no bolso. Mas, creio que tudo se resolver com um pouco de pacincia.
      - No me diga! - Jack parecia espantadssimo.
      - E a realidade. Sei de muitas jovens que desejam fazer fortuna atravs do matrimnio, assim como muitos homens procuram uma herdeira para se casar.
      - Sempre me senti feliz por me manter longe da vida da cidade. Passei quase todo o tempo no Exrcito. A nica razo que me leva a Londres agora so minhas 
reunies com os membros do Parlamento. S freqento eventos sociais quando tenho de me encontrar com gente que no encontraria em outro lugar.
      - No freqenta bailes, major? Jack riu com ironia.
      - Apenas alguns, srta. Stone, mas muito poucos. Um bando de criaturas frvolas  s o que vejo nessas ocasies. Podemos continuar caminhando?
      - Se est se sentindo bem...
      - Srta. Stone, devo expressar-lhe minha gratido por seu interesse na felicidade de meu primo Char e de sua irm, e pela boa vontade com meus homens.
      Jack se aproximou mais e, pegando as mos de Kitty nas suas, beijou-as.
      - No tenha receio, srta. Stone. Devo-lhe todo o respeito. 
      Kitty deu um passo atrs, impondo distncia dele. A aba do chapu escondia-lhe as feies, ocultando a emoo que aquelas palavras haviam despertado nela.
      - Entendo, major, e aprecio sua considerao. Espero que possamos ser aliados e melhorar as condies de vida do duque e da duquesa.
      Jack olhava-a fixo, tentando se manter controlado. Um sentimento forte crescia dentro dele, porm, mascarando a dor, provocando-lhe impulsos que no sentia 
fazia muitos anos. Gostaria de poder segur-la em seus braos e sentir o calor de seu corpo. Desejava, tocar sua face e beij-la!
      Em vez disso, entretanto, tirou o leno e enxugou uma lgrima que corria pela face de Kitty.
      - Para ser sincera, no tenho motivo para chorar. S desejo tornar as coisas melhores para Bea.
      -  claro que sim. De minha parte, farei tudo o que for possvel para colaborar.
      Uma semana se passara desde a chegada de Kitty e lady Dunmark a Charsley Hall, e curiosamente nenhum visitante viera  manso. Ao perguntarem a Bea a razo 
de no receber visitas das senhoras da vizinhana, a jovem duquesa admitiu que apenas uma parente de Char aparecera.
      Naquela manh, Kitty e sua me, Grace, bordavam nos aposentos de Beatrice.
      - Nenhuma outra pessoa a visitou nesses trs meses, Bea? - Kitty desviou por um instante a ateno do bordado.
      - Ningum a no ser lady Euphemia, tia-av de Char, e sua filha, a srta. Fanny Courtney.
      - Que estranho... - lady Dunmark arqueou uma sobrancelha. - Imaginei que voc receberia muitas pessoas que viessem lhe dar boas-vindas.
      - Lady Euphemia e a duquesa so muito ntimas? - Kitty quis saber.
      - No me pareceu, pois trataram-se com bastante frieza. Acho que eu at poderia me relacionar bem com lady Euphemia e Fanny, se tivesse mais contato com elas.
      - Acredita que a viva proibiu visitas aqui em Charsley Hall, minha irm?
      Lady Dunmark engasgou.
      - No posso nem imaginar tal possibilidade, Kitty!
      - Suponho que foi isso mesmo o que aconteceu, mame. - Bea colocou o trabalho de lado. - Para ser honesta, isso ainda no havia me ocorrido. O que estaro 
pensando de mim as senhoras da vizinhana? Gostaria de esclarecer essa situao. Pedirei a Char que mande preparar uma charrete para esta tarde e que envie um recado 
para lady Euphemia. Terei de perguntar-lhe o que de fato aconteceu.
      - Excelente idia, minha filhinha.
      Pouco depois, Kitty pedia licena para retirar-se. Desejava caminhar at o chal e ver como andavam os trabalhos. Mas, ao descer as escadas, foi chamada pela 
sra. Wells.
      - Srta. Stone, a duquesa deseja v-la.
      - Estou de sada, mas devo retornar dentro de uma hora.
      - A duquesa quer v-la agora mesmo, srta. Stone.
      Por um segundo, Kitty sentiu-se tentada a ignorar a ordem, mas achou que seria mais conveniente ceder s exigncias da viva.
      Assim que a sra. Wells entrou com Kitty, a duquesa ergueu o olhar das miniaturas que limpava.
      - Bom dia, Vossa Graa. A sra. Wells disse-me que deseja falar comigo.
      - Srta. Stone - no havia o menor sinal de simpatia em sua maneira de falar -, irei direto ao ponto. Voc deseja usar aquele chal abandonado como sala de 
msica?
      - Sim, aquele cercado de rosas, situado na alameda que leva aos estbulos.
      - Eu a probo. No permitirei que o faa!
      - O qu? - Kitty a encarou, surpresa.
      - Disse que no permitirei que o faa. Deve encontrar um outro lugar.
      - Mas, Vossa Graa, acredito que o chal pertena ao major Whitaker, e no  senhora. Ele me deu seu consentimento.
      - Jack fez o qu?
      - O major deu-me permisso para usar o local, e chegou at a me oferecer um antigo piano que conserva em sua velha manso.
      A viva apanhou o leno e enxugou o suor que brotou em sua testa.
      - Impossvel! Preciso falar com ele. No deixarei que isso acontea!
      Kitty permaneceu calada, fitando as prateleiras em torno, repletas de miniaturas colecionadas por Adelina. Em outra ocasio teria sido agradvel examinar cada 
uma delas, uma por uma.
      Aos poucos, a duquesa foi se acalmando.
      - Voc entende, srta. Stone? No posso permitir que o chal seja reaberto!
      - Receio que o chal j tenha sido reaberto e totalmente limpo. No entanto, claro, o major Whitaker dar a palavra final.
      - Srta. Stone, voc tem remexido em muitas coisas por aqui. Desejo que pare com isso. Agora!
      - Minha me e eu apreciamos a hospitalidade do duque. Ele tem sido muito bondoso conosco.
      - Est dispensada, srta. Stone! Kitty fez uma pequena reverncia.
      - A senhora tem uma sala adorvel, Vossa Graa.
      - V! - a duquesa quase gritou, apontando para a porta.
      Kitty correu para o quarto. Seu corao batia forte. Teve mpetos de mandar a velha duquesa s favas, mas Jack gostava dela, e talvez cedesse a seus desejos 
de fechar o chal de rosas.
      Seria uma pena e uma grande decepo para Kitty. Naquele momento, no iria procur-lo, nem diria nada do ocorrido a Bea e a sua me.
      
      Ao subir na charrete, e durante todo o caminho para a casa de lady Euphemia, Bea mostrava-se furiosa.
      - Preparar uma charrete para um passeio de cinco minutos parecia uma tarefa quase impossvel at que Char deu ordens para que meu pedido fosse atendido. A 
duquesa no queria concordar e s o fez quando Char lhe garantiu que ele mesmo iria atrelar os cavalos. Ento, Randall mandou que preparassem a charrete. Ah, como 
eu gostaria de despedir esse mordomo sem dar-lhe referncia alguma!
      - Cuidado com as palavras, Bea. A duquesa tem conhecimento de tudo o que se passa, por meio de seus criados - Kitty sussurrou para a irm.
      - Sei bem disso, mas fico muito aborrecida. No teramos de empreender essa viagem se lady Euphemia e Fanny se sentissem  vontade para visitar-nos em Charsley 
Hall. Como pode a duquesa ser to hostil com uma parente de seu marido?!
      - Esse  o tipo de considerao que uma verdadeira duquesa deve ter com outras pessoas - lady Grace afirmou.
      A manso de dois andares se erguia, imponente, no meio de uma grande rea verde. O mordomo as recebeu com uma reverncia.
      - Lady Euphemia e a srta. Fanny se encontram no andar superior,  espera das senhoras.
      Vestida de violeta e preto, lady Euphemia, irm do av de Char, segurava um cachorrinho no colo.
      - Aproxime-se, querida - dirigiu-se a Kitty, estendendo-lhe a mo. E, como se falasse consigo mesma, comentou: - Uma excelente namorada para Jack, sem dvida.
      Sem prembulos, virou-se para lady Dunmark.
      -  claro, lady Dunmark, que no est apreciando a hospitalidade de Adelina... ou melhor, da duquesa. E j deve ter percebido que se trata de uma pessoa de 
difcil convvio, porm  necessrio que auxilie sua filha a se integrar na famlia de seu marido. Fanny e eu a consideramos adorvel.
      Kitty ficou imaginando se ouvira direito. Teria lady Euphemia dito "uma excelente namorada para Jack"? Nada lhe parecia mais fora de propsito, e acreditava 
que o major seria da mesma opinio.
      Grace e Bea foram conhecer os sales da manso, acompanhadas de Fanny. Assim, Kitty decidiu aproveitar a oportunidade de estar a ss com lady Euphemia para 
lhe pedir um favor.
      - Milady, seria possvel usar sua copa de vez em quando at que me seja possvel utilizar a de Charsley Hall?
      - Hum... Ento Adelina a proibiu, ?
      Kitty assentiu com um movimento da cabea.
      -  lgico que pode, meu anjo. Embora nossa copa seja pequena, darei ordens para que esteja sempre aberta para voc.
      - Obrigada.  muita gentileza de sua parte.
      - E o que voc pretende nela, criana?
      - Um ch especial preparado com casca de salgueiro, para o major Whitaker.
      - Jack ainda sofre com os ferimentos?
      - O major diz que ainda tem estilhaos de metal sob a pele, e o dr. Lanark vir amanh para remover alguns.
      - Ah, sim! Conheo bem o problema. Meu marido tinha ferimentos como os de Jack. Acredita que o ch de salgueiro poder ajudar?
      - Estou certa de que sim, lady Euphemia.
      - Concordo com voc. Foi isso mesmo o que curou Roderick. Vrias xcaras durante o dia.
      - Obrigada, milady. Seguirei seus conselhos.
      - Bem, minha querida, voc me parece uma jovem prtica. Eu pretendia conversar com sua me a respeito, mas acho que ser melhor falar-lhe diretamente. Gosto 
de sua irm, pois  uma dama muito gentil, mas uma garota ainda. Juro que no sei o que deu em Char para fazer uma tolice como essa... - parou por um momento e tossiu 
- ...Desculpe-me, querida, eu no devia...
      - No se preocupe, lady Euphemia. Estou contente por Char ter se apaixonado por Bea, porque ela o adora. Contudo, a oposio da duquesa torna tudo muito difcil.
      - Vejo que sim. Mas suspeito que Char nunca conquistou seu corao, no  mesmo?
      Kitty fez que no.
      - Compreendo. Para mim est bvio, a despeito do que os outros possam imaginar. Char  muito parecido com meu irmo, que tambm se dedicava  poesia e passava 
a vida deixando que outros fizessem o trabalho por ele.
      - Acredito que Char seja um homem de grande potencial. S que a forma como sua me o trata...
      - Pois . Adelina sabe como a falta de dedicao e a acomodao podem prejudicar a administrao de uma propriedade e como  complicado recuperar o que foi 
perdido. Mesmo assim, meu irmo era adorado pelos arrendatrios.
      - Char  muito querido tambm entre seu pessoal. Creio que ele necessita apenas de uma chance para mostrar sua capacidade.
      - Deixe-me dar-lhe mais um conselho, antes que as trs retornem. Se necessitar de ajuda na manso, recorra ao major Whitaker, pois a duquesa jamais lhe recusa 
pedido algum.
      Entrando na sala, seguida de Bea e de lady Dunmark, Fanny dirigiu-se  me parecendo bastante animada:
      - Tive uma idia, mame! Que tal se organizssemos pequenas reunies informais com as senhoras da vizinhana para apresentar a jovem duquesa? Bea bateu palmas:
      - Seria maravilhoso! Ficaria eternamente grata s senhoras. - Bea continuou, entusiasmada: - Kitty e eu temos algo em mente tambm, mas Char mostra-se um pouco 
hesitante em coloc-la em prtica. Gostaramos de fazer um festival de vero, com a presena de todos os vizinhos.
      - Isso seria estupendo! Lembro-me de que, quando era menina, costumvamos ter uma festa religiosa em julho, mas h anos no temos mais nenhum tipo de festividade 
por aqui. Qual seria a razo da indeciso de Char? Ser que teme alguma desavena com a duquesa?
      - Quem poderia culp-lo? - Bea meneou a cabea.
      - Bem, assim sendo, sugiro que peam a interveno de Jack. - Lady Euphemia, se levantando, olhou para a filha. - Fanny querida, por favor, mostre nossa copa 
 srta. Stone. Ela deseja preparar uma poo.
      Prximo  cozinha, o cmodo tinha uma das paredes repleta de prateleiras com compotas de frutas, e armrios nas outras paredes.
      - Do que necessita, srta. Stone?
      - Gostaria de preparar um ch de casca de salgueiro para o major Whitaker.
      Fanny abriu um armrio e analisou os vidros por instantes.
      - Recolhi alguns pedaos de casca, alguns dias atrs, pois algumas vezes preparo este ch para mame, quando ela se queixa de dor nas juntas. Sim, aqui esto. 
Bem secas e prontas para ferver.
      - Obrigada, srta. Courtney. Acredito que o major precisar de vrios potes depois que o mdico vier fazer as incises para a retirada dos fragmentos em seu 
corpo.
      - Por favor, me chame de Fanny e a chamarei de Kitty. Quanto a Jack, j sabamos que o dr. Lanark viria em breve. Os criados tm um modo muito eficiente de 
trocar informaes. No h nada que acontea em Charsley Hall que no fiquemos sabendo.
      - Quanto a ns, estamos isoladas e no ouvimos nada dos empregados, pois todos eles so controlados pela sra. Wells, que por sinal  uma pessoa bastante antiptica 
e autoritria.
      - A sra. Wells  to tirana quanto a duquesa - Fanny comentou. - Veio para Charsley Hall como sua empregada pessoal e passou toda a vida cuidando dos interesses 
da patroa.
      - Sem dvida aprendeu muito com a duquesa, que por sua vez faz questo de se mostrar intolerante e intratvel com todos, com exceo do major Whitaker. Muitas 
vezes me pergunto quais as razes que a levam a ser to indelicada, acima de tudo com o prprio filho.
      Fanny apanhou as cascas e se dirigiu  cozinha.
      - Colocaremos um pouco de gua para ferver, e enquanto esperamos lhe contarei toda a histria.
      - Estou ansiosa para ouvir. - Kitty se sentou  mesa.
      - Adelina e eu temos a mesma idade, quase cinqenta anos. Na realidade, foi por meu intermdio que ela conheceu meu primo, o duque. ramos amigas e, desde 
que eles se casaram, passei a consider-la como uma irm. Acredito que Adelina sentia o mesmo afeto por mim. Mas, com o passar dos anos, Adelina mudou da gua para 
o vinho. Antes do nascimento de Char, ela perdeu um filho, que morreu ao nascer. Com o nascimento de uma criana sadia como Char, a felicidade do casal se tornou 
completa. Mas Adelina protegia aquela criana com absurdo exagero. Tudo se tornou pior quando engravidou de novo, mas no conseguiu levar a gestao a termo.
      - Deve ter sido horrvel para ela - Kitty murmurou.
      - Receio que todas essas perdas afetaram-na sobremaneira, tornando-a uma mulher de convivncia difcil, e o duque comeou a procurar diverso fora de casa. 
Quanto mais amantes ele tinha, mais desequilibrada Adelina ficava. Char cresceu nesse ambiente. Tornou-se um jovem fraco, que no mostrava nenhum interesse pela 
caa ou por esportes. O duque acusou Adelina de ter estragado o garoto com seus mimos, e de certa forma ele estava correto.
      Kitty fitou a chaleira no fogo.
      - Acho que entendo melhor agora. Mas ser que a duquesa no percebe o que est fazendo ao filho?
      - Mame e eu tentamos mostrar-lhe como est errada, mas a duquesa no aceita crticas. Da no sermos bem-vindas a Charsley Hall.
      - E como o major Whitaker entra nessa histria?
      - Quando Char era menino, Adelina fazia de tudo para manter os primos separados. No entanto, Char adorava Jack e tentava imit-lo. Depois, Jack foi embora 
para servir o Exrcito. A partir da, sempre que ele retornava, Adelina no perdia uma nica oportunidade de fazer comparaes entre eles, mas sempre com a inteno 
de desmerecer o filho.
      - Sem dvida, a duquesa mostra uma forte preferncia pelo sobrinho.
      - Por isso mesmo, Kitty, tente fazer de Jack seu aliado em tudo o que precisar de Adelina. Mantenha-o do seu lado. Bem, a gua est fervendo e j podemos preparar 
nosso ch.
      
      Jack atendeu de pronto ao convite feito pela duquesa. Afinal, no era comum ser chamado a visit-la no perodo da tarde.
      - Jack, estou muito aborrecida por saber que voc deu permisso  srta. Stone para abrir o chal e fazer dele uma sala de msica!
      - Perdoe-me, Vossa Graa, mas a srta. Stone de fato possui um talento excepcional, como a senhora mesma teve a oportunidade de constatar.
      - Bobagem! Aquela moa nada tem de extraordinrio. Mas no importa. A questo  que no aprovo a abertura do chal, uma vez que ele no oferece segurana alguma.
      - Meus homens e eu inspecionamos o local com todo o cuidado e no encontramos nada que pudesse colocar o imvel em risco. Esteja certa de que a srta. Stone 
no o danificar. L ela poder tocar sua harpa  vontade, longe de seus ouvidos.
      - Mas eu no a quero l. Encontre outro lugar para sua estpida harpa!
      - Por que, tia Adelina? D-me uma boa razo.
      - O lugar  perigoso.
      - Asseguro-lhe de que no . A senhora jamais passa por aquela alameda perto dos estbulos. Como pode saber?
      - Estou muito desapontada, Jack. Esperava mais compreenso de parte do meu sobrinho favorito. Assim sendo, suponho que no temos mais nada a dizer.
      - Est sendo injusta, minha querida tia. No vejo como a presena da srta. Stone no chal possa deix-la to contrariada. No gostaria que um pequeno desentendimento 
como esse afetasse o respeito e a admirao que nutrimos um pelo outro.
      A duquesa no respondeu. Desse modo, com uma mesura respeitosa, Jack deixou o recinto.
      
      Sozinha em seu quarto, Kitty apreciava a escurido noturna. Nuvens cobriam a lua, e apenas algumas estrelas brilhavam.
      Jack Whitaker era, ao mesmo tempo, problema e soluo. Nada sabia sobre ele. O major no fazia segredo de seu desejo de voltar a participar da guerra, mas 
mesmo que retornasse aos campos de batalha no dia seguinte, Kitty duvidava que a atitude da duquesa em relao a Char mudasse.
      Ponderou sobre o que lady Euphemia dissera. Embora seu corao tivesse batido mais forte quando ele lhe beijara as mos durante o passeio, no desejava se 
envolver em nenhum romance. Muito menos com um homem que logo se ausentaria para travar batalhas em pases distantes e que talvez jamais retornasse.
      Kitty procurou colocar a figura do major Jack Whitaker no lugar devido: ele era uma pessoa com quem poderia entabular uma boa conversa e resolver alguns problemas.
      Nada mais do que isso!
      
      No quarto bem iluminado, Jack mordeu com fora a tira de couro, lutando para manter-se imvel. Banhado pelo suor, se esforava por se concentrar na cano 
que Win entoava com voz montona, para no pensar no estilete que penetrava sua carne.
      - Segurem-no firme, homens! - o dr. Lanark falava com os dois criados, que o ajudavam. - Agente mais um pouco, major. Logo tudo estar terminado.
      Jack sentiu a ponta do estilete a cort-lo, e, nocauteado pela dor, desmaiou.
      No sabia dizer se horas ou apenas alguns minutos haviam passado at recuperar a conscincia. Sua garganta estava seca, e a cabea latejava. Um pano frio foi 
colocado em sua testa, e ele abriu os olhos.
      - Acordado, Jack? O dr. Lanark est l embaixo, com Char. O doutor nos disse que voc foi muito corajoso - a duquesa murmurava, inclinada sobre ele.
      Jack sentia muita dor para que conseguisse falar ou se mover. Assim, tornou a fechar os olhos.
      Ao despertar, notou que Adelina se fora, mas Win de imediato lhe ofereceu um gole de conhaque.
      - Beba, major. O senhor passou por um verdadeiro suplcio. O dr. Lanark lhe deixou de presente uma linda coleo de estilhaos que foram retirados de seu corpo.
      - Vou valorizar cada um deles. O doutor j se foi?
      - Sim. Examinou o sangramento uma hora atrs e disse que em breve o senhor estar completamente recuperado.
      Antes que Win se sentasse de novo ao lado do major, os dois escutaram uma batida na porta. Win foi abrir, e Jack pde escutar a voz de srta. Stone. Em seguida, 
apenas alguns sussurros.
      - Parem de cochichar parados a! Entre, srta. Stone e veja por si mesma que no estou imprestvel.
      - No desejo perturb-lo, mas trouxe-lhe algo que talvez possa ajudar. Trata-se de um ch de casca de salgueiro que tem excelentes propriedades analgsicas.
      - Aceitarei qualquer coisa que possa me aliviar o sofrimento, senhorita, mas esse brandy tambm tem tais qualidades.
      - Sim, mas mais tarde o senhor sentir os efeitos da bebida, enquanto o ch  s um pouco amargo na hora de beber. Trouxe limo e mel para amenizar o gosto 
forte.
      - No. Deixe-me experiment-lo puro mesmo. Kitty encheu uma xcara e a entregou a ele.
      - Nossa!  amargo mesmo! - Jack bebeu e estendeu a xcara para mais uma dose. - Se uma poro faz bem, duas devem fazer milagres!
      - Descanse agora, major. Estou ansiosa para ver se a poo far com que se sinta melhor.
      - Muito bem, srta. Stone. Mas, aproveitando sua presena, quem sabe poder ler o jornal para mim? Win pretendia ler as notcias do jornal de ontem, mas creio 
que prefiro sua voz  dele.
      Kitty assentiu, apanhou o peridico e se ps a ler. Cerrando as plpebras, Jack descansou a cabea no travesseiro, apenas ouvindo, sem se preocupar com o sentido 
das palavras. A entonao de Kitty era to melodiosa!
      Uma sensao boa o envolveu. Com certeza, devido  combinao do brandy, do ch e da diminuio da dor. Apenas isso.
      
      Kitty leu durante alguns minutos. Ao observar o major, concluiu que adormecera. O ch surtira efeito. Sua respirao estava normal, e seu peito se movimentava 
para cima e para baixo em um ritmo regular. Era um homem bonito, assim repousando. Teve vontade de tocar seus cabelos escuros.
      No pde deixar de sorrir. Que tola era, atrada por aquele soldado endurecido pela guerra, que ansiava poder voltar ao front na certa para ser ferido como 
j fora antes, e talvez at morrer.
      Como se escutasse seus pensamentos, o major acordou.
      - Sinto-me muito melhor, srta. Stone. Acredito que sua poo funcionou muito bem. Encontro-me em dbito com a senhorita.
      -  bom saber que o senhor pensa que me deve algo, major. Tenho algumas idias para discutir consigo, mas ser melhor deixarmos para mais tarde, quando estiver 
em melhores condies. - Kitty fez meno de se levantar.
      - Espere! Sente-se! Estou me sentindo muito melhor. Podemos conversar agora.
      - Como queira, mas aviso que se trata de assunto de pequena importncia, se comparado a seus problemas.
      Jack fez um gesto para que prosseguisse.
      - Como sabe, major, a duquesa exerce controle total da administrao da propriedade... Bem, irei direto ao assunto. Char e Bea gostariam de reavivar uma velha 
tradio: realizar um festival de vero em Charsley Hall!
      - Ah, entendo...
      - Char anda tenso, pois pensa que sua me no concordar.
      - Ele tem toda a razo. Titia no h de apreciar essa iniciativa.
      - Sabemos que milady no poupa crticas ao filho por no assumir seus deveres e no se esforar nem um pouco nesse sentido. Essa seria uma forma de mostrar 
seu interesse pelos assuntos da propriedade, no acha? Muitas vezes me pergunto por que a duquesa  to dura com Char.
      Jack se mexeu na cama, procurando uma posio mais confortvel.
      - E algo que sempre me preocupou, senhorita. Minha impresso  de que minha tia deseja que Char continue dependente dela. Titia tem conscincia de que no momento 
em que meu primo for capaz de administrar a propriedade por si s, ela se tornar dispensvel e no ter outra razo para continuar a viver.
      - Que terrvel para Char e para Bea!  injusto e vingativo! Jack assentiu.
      - Char tem de assumir sua vida e ignorar a me. Ele jamais a contentar enquanto lady Adelina se sentir ameaada pelo filho.
      - Quer dizer que acredita que minha sugesto de encoraj-lo a organizar o festa vai seja intil?
      - De jeito nenhum! A idia  muito boa, mas no tenha esperana de que tudo ir mudar depois disso.
      - Pretendo apenas colaborar com meu cunhado e minha irm, mas agora, ouvindo sua opinio,  provvel que esteja piorando tudo. 
      - Vale a pena tentar. O que poderei fazer, de minha parte?
      - Convena a duquesa a concordar com o filho.
      - Farei tudo o que estiver em minhas mos, embora no possa garantir total sucesso.
      - Muito obrigada, major! - Sorrindo, Kitty se levantou.
      - S de v-la sorrindo j me sinto recompensado. A propsito, srta. Stone, a duquesa no ficou nada contente em saber o que a senhorita quer fazer com o chal.
      O corao de Kitty bateu forte.
      - Ento estou sendo acusada agora!
      - Sossegue. No foi fcil, mas consegui acalm-la.
      - Nesse caso, devo-lhe mais ainda. Irei agora mesmo preparar mais ch. Vejo que lhe  muito salutar!
      Kitty dirigiu-se  sada. Ao virar-se, sorriu mais largo.
      - Obrigada, major.
      Fechando os olhos, Jack deixou a imagem da adorvel srta. Stone tomar conta de seu ntimo. Sabia que ao incentivar o primo a se dedicar  organizao do festival 
estaria afastando-o da poltica e da chance de faz-lo comparecer  Cmara dos Lordes, vindo a ter, assim, uma participao mais ativa no destino do pas. Ao mesmo 
tempo, a idia de Kitty era interessante, pois o obrigaria a se envolver mais com os assuntos da propriedade.
      A srta. Stone tinha razo ao afirmar que a duquesa era um empecilho para a felicidade de Beatrice. Mantendo Char em sua total dependncia, Adelina fazia com 
que o filho cada vez mais se afastasse de seus deveres e se refugiasse, na poesia e em temas fteis.
      
      Kitty limpou as tesouras com um pano e as guardou no bolso do avental. Enchera quatro cestos com botes de rosas e um quinto cesto com ptalas.
      Na vspera, tivera uma conversa com a sra. James para que pudessem usar o espao adjacente  copa para pendurar as flores e deix-las secar, porm tudo dependia 
do consentimento da sra. Wells. Caso ela se opusesse, no haveria nada que a cozinheira pudesse fazer.
      Apanhando dois cestos, Kitty foi para a cozinha, seguida pela me e pela irm.
      - Espero que a duquesa no venha a saber disso. - Bea se mostrava apreensiva.
      - Minha querida, temos de comear de algum ponto se quisermos que voc venha a ter voz ativa no comando da manso. - Lady Dunmark encarou a filha caula com 
redobrada energia. Ao entrarem na cozinha carregando os cestos repletos de flores, trs arrumadeiras e dois empregados tomavam caf, sentados  mesa. Ao v-las, 
todos se levantaram e se inclinaram numa reverncia.
      Lady Dunmark dirigiu-lhes um sorriso cordial.
      - Bom dia. A duquesa, a srta. Stone e eu precisamos de um lugar para pendurar as flores que acabamos de colher.
      - Sim, senhora. Acharemos um local. - A sra. James trocou um olhar de cumplicidade com Kitty, abriu uma gaveta e entregou um molho de chaves a um dos empregados, 
junto com um rolo de fio. - Davey estender o fio de um lado a outro da copa para que possam pendurar as flores.
      - Excelente! Era disso que precisvamos. - Lady Dunmark sorriu para Kitty.
      Quando a maior parte dos botes j haviam sido pendurados, a sra. Wells irrompeu no pequeno cmodo, de cenho franzido.
      - Bom dia, sra. Wells - Kitty a cumprimentou, sorridente.
      - A duquesa, minha me e eu colhemos estas rosas para secar, e acreditamos que este lugar  o ideal para executarmos nosso trabalho.
      - Saibam que aqui armazenamos compotas, frutas e legumes. Duvido que haja espao para pendurar flores.
      - Mas, como pode ver, a duquesa deseja usar um pequeno espao para secar suas flores, e as prateleiras podem ser alcanadas sem problemas, pois os ramos esto 
bastante altos.
      Sacudindo de leve o brao da irm, Kitty sussurrou-lhe:
      - Fale agora, Bea!
      - Sra. Wells, pegue este cesto e providencie para que coloquem flores no quarto de minha me e no meu, por favor.
      Como todos a olhavam curiosos aguardando uma reao, a sra. Wells no teve alternativa a no ser obedecer.
      Kitty apertou de leve a mo de Bea, cumprimentando-a.
      
      A jovem duquesa esperou que o empregado que servia o caf em seus aposentos se retirasse.
      - Pela primeira vez, consegui fazer com que essa governanta maldosa acatasse minhas ordens! Acho que fizemos grande progresso!
      - A no ser que a duquesa-me tenha algo a dizer a respeito. - Lady Dunmark no escondia a preocupao.
      - Tenho a impresso de que a sra. Wells nem mencionar o ocorrido  duquesa. Foi um incidente de pouca importncia, mas ela jamais ir admitir que no teve 
competncia para controlar.
      
      
      
    Captulo VI
      
      
      Nos ltimos dois dias, Kitty se manteve muito ocupada e no foi ao chal verificar como andavam os trabalhos por l. Naquele momento, esperava poder relatar 
a Jack que os trs homens executaram bem a maior parte dos servios que lhes foram designados.
      Ao se aproximar, viu Bart esfregando os vidros da janela da frente com um pano bastante encardido.
      - Bom dia! - ela o cumprimentou.
      - Srta. Stone! - Ele se virou, estabanado, e acabou por derrubar o pano no cho. - Estas vidraas no vem gua h muitos anos.
      - Bem, agradeo-lhe o esforo. Estou certa de que voc as deixar como novas.
      Ao entrar, Kitty encontrou Yates e Tommy discutindo na cozinha, e decidiu se dirigir  sala de msica, como j a chamava.
      O tapete estava esticado, e a lareira fora limpa. A moblia, distribuda em torno do recinto, que estava quase pronto para receber sua harpa. Trs lindas cadeiras, 
uma mesa grande e um mvel de madeira entalhada com figuras de frutas compunham a decorao. Peas bastante finas para um chal como aquele.
      A casa ainda no estava limpa como gostaria, mas considerou que uma ou duas empregadas poderiam lustrar a moblia e repassar a limpeza dos vidros. O rapazes 
fizeram o possvel, considerando que no tinham o costume de trabalhar com faxina domstica.
      Como, porm, o major dissera, seria melhor que acreditassem estar participando de uma reforma e no fazendo a mera limpeza de um imvel.
      Saindo do chal, Kitty dirigiu-se ao jardim e se sentou no banco de madeira. Dali, o chal parecia o retrato de uma paisagem rural, cercado por arbustos floridos 
e, sobretudo, por um grande nmero de roseiras, que naquela poca do ano comeavam a florir.
      Kitty enviara um bule de ch fresco para o quarto do major, naquela manh, esperando que continuasse a lhe aliviar a dor. Jack, muito teimoso, garantira que 
estaria fora do leito no dia seguinte, o que poderia retardar seu completo restabelecimento.
      Depois que verificasse a secagem das flores na copa, Kitty iria visit-lo. Gostava de ficar a seu lado e constatar que as dores no eram mais to freqentes.
      S de lembrar como haviam ficado prximos quando ela lhe enxugou.a testa, sua pulsao acelerou.
      Que tolice de sua parte se deixar envolver por um sorriso ou pelo charme de um homem que apenas estava sendo bom e cordial com ela!
      A ltima coisa que desejava era se interessar por algum que nutria o desejo de voltar logo aos campos de batalha, colocando em risco a prpria vida. Como 
seria o futuro de uma mulher junto de uma pessoa assim?
      
      Ao final da tarde, Kitty bateu na porta de Jack. Win fez um sinal para que entrasse e se curvou numa pequena reverncia.
      - Seu ch provou ser soberbo! - Win comentou. De sua cama, Jack gritou:
      - Win, seu pretensioso! Soberbo! Onde achou essa palavra? 
      O criado apenas ergueu as sobrancelhas e foi para o quarto de vestir sem dizer uma nica palavra. 
      Jack caiu na risada.
      - Entre, srta. Stone, e sente-se, por favor. Presumo que Baldwin descobriu o dicionrio. Ningum diria que o homem veio de uma fazenda onde se criavam porcos, 
em Bedforshire. Est desenvolvendo seu vocabulrio e refinando sua linguagem a tal ponto que acho que ir se candidatar a uma vaga para trabalhar com o prncipe 
de Wales. Estou certo, Win?
      A resposta veio sem tardana:
      - Indubitavelmente, senhor.
      Jack ergueu as duas mos no ar e encolheu os ombros.
      - V?! Eu lhe ensinei tudo o que sabe, e agora ele tornou-se bom demais para mim!
      Ambos aguardaram o que Win diria, mas ele nada disse.
      - Tenho muita sorte. Ningum tem um empregado como ele! - Jack sussurrou.
      -  o que parece. - Kitty piscou-lhe. - Vim trazer-lhe mais ch e saber como se sente.
      - Muito melhor. Estarei de p amanh, se a duquesa no me impedir. Ela deseja que eu permanea inerte por muitas semanas. Mas no consigo.
      - Deve ter cuidado, major. No deseja que...
      - Oh, eu sei, eu sei! Devo me manter atento para no abrir os pontos. A propsito, srta. Stone, no consegui ainda realizar nenhuma das tarefas que me pediu. 
Quando me encontrar com minha tia e vocs para jantar, penso que Char deveria propor a realizao do festival, e eu endossarei seus planos antes que titia tenha 
oportunidade de discordar. O que acha?
      - Excelente, major! Todos ns apreciaremos seu auxlio.
      - Talvez amanh  noite...
      - Se est mesmo decidido a se pr de p to cedo...
      - Esperava comparecer ao treino da milcia amanh, na vila, mas ser impossvel. Deixarei para a prxima.
      - Tenho notcias sobre o chal. Seus homens fizeram um bom trabalho. No est perfeito, mas muito melhor do que eu esperava.
      - Que bom saber! Eles j terminaram?
      - No ainda, mas devem terminar amanh ou depois. Sabe que eu estava trabalhando na moblia e fiquei espantada com o que vi?
      - Como?
      - As peas so de muito boa qualidade. H cmodas e consolos que podem ser usados aqui na manso. A sala de msica tem uma escrivaninha de madeira rosa, e 
as cadeiras so excelentes para um modesto chal como aquele. Quem morava l?
      - Nem imagino. Quando eu era garoto, uma senhora viveu l por algum tempo, mas depois nunca mais vi ningum.
      - Quando os lenis que cobriam a moblia foram retirados, acreditei que encontraria bancos rsticos e mesas simples, mas fui surpreendida, de fato.
      - No tenho idia de onde esses mveis possam ter vindo.
      -  um mistrio... A propsito, a sra. Wells me disse que posso usar a copa, mas apenas para preparar seu ch. - Kitty j contava com a cooperao da cozinheira 
e podia prepar-lo na cozinha, mas no deixava de ser um passo dado adiante.
      - Quando tia Adelina descobriu que o ch fazia com que eu me sentisse muito melhor, fiz com que visse como no estava sendo nada hospitaleira com a senhorita 
e sua me. Claro que ela colocou a culpa na sra. Wells, mas decidiu tomar alguma providncia.
      Kitty lhe serviu mais da bebida. O major fazia caretas enquanto engolia.
      - Poderia colocar um pouco de limo e mel... Jack levou a mo  boca.
      - Oh, desculpe-me, major! No pretendia faz-lo engasgar.
      - Fique tranqila, srta. Stone. No foi sua culpa. Ao contrrio, s tenho a lhe agradecer. A senhorita  muito especial.
      Por muitas horas, naquela noite, as palavras do major ecoaram nos ouvidos de Kitty.
      
      - Qualquer um poderia achar que se trata do desfile da famlia real: o rei, a rainha e todas as princesas em uma revista s tropas no Hyde Park - Bea sussurrava 
para Kitty.
      Sentadas em uma carruagem aberta, Bea, Kitty e lady Dunmark observavam Char, que ajudava sua me a se instalar em um veculo maior. Nele j se encontravam 
a empregada pessoal da duquesa, carregando um xale extra, para o caso de a brisa se tornar muito fria, a srta. Munstead e a pequena Mary, vestida como uma boneca.
      - Pobre criana! Parece sempre to deslocada... - lady Dunmark lamentou.
      Assegurando-se de que a me estava bem acomodada no veculo, Char montou em seu cavalo, e o grupo iniciou sua marcha.
      O treino da milcia, Bea explicou, acontecia uma vez ao ms. Char, como patrocinador, sempre participava, acompanhado da duquesa, a patronesse do grupo.
      Kitty achou o evento bastante interessante, pois nunca imaginara que seu cunhado tivesse algum conhecimento de assuntos militares. Char, em sua casaca cor 
de vinho adornada com botes dourados, parecia muito bem ali.
      Uma pequena multido se sentava na grama ou nos bancos, e algumas carruagens da elite local alinhavam-se ao longo do caminho para a praa.
      A duquesa cumprimentou alguns com um movimento de cabea, mas, como Kitty observou, ningum teve a coragem de se aproximar dela. Mesmo lady Euphemia e Fanny 
se mantiveram distantes.
      O capito Peck, como Bea o identificou, veio at Char e conversou com ele brevemente. Logo, ouviu-se o rufo dos tambores, e os soldados comearam a marchar.
      Embora mais da metade dos homens no usassem uniformes e carregassem rplicas de armas feitas de madeira, todos tentavam manter a formao. Sob as ordens do 
capito, simulavam as aes de uma batalha, como preparar armas, apontar, atirar e recarregar.
      Depois, ao som dos tambores, marcharam em direo  ponte e se dispersaram.
      Evidente que Kitty j assistira a paradas militares mais bem treinadas, mas em nenhuma pde ouvir os aplausos entusisticos dos meninos por seus pais, e das 
mulheres por seus maridos ou parentes. Ao juntarem-se mais uma vez s famlias, os cavalheiros mostravam nos semblantes expresses de felicidade, e uma sensao 
de comemorao pairava na atmosfera.
      Muitos homens comearam a se juntar em uma roda e, para surpresa de Kitty, o centro de interesse era o sr. Yates.
      A viva e Char estavam se retirando, mas Kitty pediu  me e Bea que esperassem alguns minutos.
      Kitty desceu da carruagem e se aproximou do grupo, de onde podia observar o sr. Yates mostrando uma garrafa fechada com uma pequena rolha.
      - Aqui dentro temos a pura areia de Portugal, retirada do solo que nossas tropas pisaram e onde venceram gloriosas batalhas. Temos apenas alguns destes valiosos 
e raros tesouros. - Yates percorreu o olhar pela audincia e, ao deparar com a srta. Stone, mostrou-se totalmente desconcertado.
      Kitty deu um passo  frente.
      - Sr. Yates, gostou da apresentao da milcia? Ele tirou o chapu e se inclinou.
      - Sim, madame. Vi tropas melhores, claro, mas acho at que eles poderiam dar combate a alguns soldadinhos franceses!
      Ao ver que a srta. Stone no iria comprar nenhuma areia, as pessoas comearam a se afastar. Kitty encarou Yates.
      - O major sabe sobre essa areia, sr. Yates?
      - Bem... acho que no.
      - Sendo assim, sugiro que guarde essas garrafas. No direi nada ao major. Espero no tornar a v-lo vendendo isso. - Kitty, enrgica, se virou para Bart e 
Tommy, que se mantinham a pouca distncia dali. - E tampouco vocs.
      - Sim, senhorita, e obrigado por no levar ao conhecimento do major.
      - Eu os vejo no chal amanh. Darei suas lembranas ao major! - Kitty se afastou, tentando no rir na frente dos trs.
      O que um fazendeiro em Kent faria com uma garrafa de areia? Areia de Portugal! Pois sim!
      
      Jack conseguiu descer para o jantar. Teve de admitir que fora difcil vestir-se devido aos cortes, que no tinham cicatrizado por completo.
      - Estou cansado daquela cama, e no desejo receber duquesas e senhoras em minhas roupas de dormir - Jack comentou, tentando no parecer to srio.
      Assim que o jantar foi servido, Char comeou a falar do assunto do dia: os exerccios da milcia.
      - O capito Peck ficou desapontado por no v-lo esta tarde, Jack. Ele bem que apreciaria seu auxlio, caso voc dispusesse de algum tempo.
      - Por favor, Charsley! Voc no deveria deixar que o capito Peck incomodasse Jack com problemas locais. - A duquesa meneou a cabea, mantendo a expresso 
desagradvel de sempre.
      - Ah, mas eu ficaria contente em poder ajud-lo, tia Adelina. - Jack esboou para a tia seu melhor sorriso.
      A refeio chegava quase ao fim, e Kitty temeu que o cunhado no teria coragem de se referir ao festival. Para seu espanto, porm, logo em seguida, Char pousou 
seu copo de vinho na mesa, pigarreou e encarou a me.
      - Mame, estive pensando que deveramos trazer de volta as festividades de vero que a senhora costumava patrocinar, alguns anos atrs.
      - Que idia fantstica! - Jack se adiantou, antes que a duquesa pudesse esboar uma reao. - Tia Adelina, a senhora sempre fez daquelas festas o ponto alto 
do ano para todos na comunidade.
      Kitty estudava a duquesa, cujo olhar ia do filho para Jack.
      Do outro lado da mesa, Kitty podia ver Bea prendendo a respirao, os olhos muito abertos aguardando o que a sogra diria.
      Char comeou a falar de novo, mas a duquesa ergueu a mo, pedindo silncio.
      - Eu mesma creio que poderamos fazer algo deste tipo, mas no to cedo.
      - Algumas semanas me parecem suficientes - Jack retrucou.
      - Se voc ajudar, Jack, tenho certeza...
      - Comearei a pensar na organizao do evento hoje mesmo, mame.
      Para alvio de Char e de Bea, a duquesa no disse mais nada. Em seus aposentos, enfim, Kitty e lady Dunrnark abraaram Bea, congratulando-a pela primeira vitria.
      - Agora precisamos fazer de tudo para que a festa seja um sucesso completo. Para a felicidade de Char. E a minha tambm!
      
      - Compreendo que voc esteja ansiosa por esse encontro, mas precisa ter muito cuidado - lady Dunrnark falava com a filha com autoridade.
      Em apenas alguns dias, lady Euphemia e Fanny organizaram o ch para que a jovem duquesa de Charsley fosse apresentada s damas suas vizinhas. Na opinio de 
Kitty, se Bea seguisse as instrues da me, sem dvida causaria a melhor das impresses nas senhoras.
      - Por que devo ter cuidado, mame? A despeito do que minha sogra possa dizer, eu sou a duquesa de Charsley.
      - Exatamente por essa razo. Voc, como duquesa de Charsley, estabelecer os padres para esta propriedade e comunidade. No momento, todos parecem muito confusos, 
uma vez que lady Adelina no cumpre seus deveres sociais.
      - Mas o que devo fazer? - a voz de Bea soou splice.
      - Minha querida, comporte-se como seu pai e eu sempre lhe ensinamos. Seja gentil e trate todos com respeito. Pense que esto curiosos e desejosos de conhec-la. 
Tenho a impresso de que todos vo adorar por voc substituir a duquesa. Essas pessoas se sentem ofendidas por serem tratadas com tanta desconsiderao e indiferena.
      Kitty observava as emoes refletidas no semblante da irm. Bea tinha apenas dezoito anos e sabia muito pouco da vida.
      - Nada receie, Bea querida. Seja voc mesma e sorria.
      -  fcil falar, Kitty. Voc pode fazer e dizer tudo o que quiser sem ser observada!
      Kitty fechou os olhos e contou at dez. Bea nem sequer imaginava como fora difcil para sua irm conviver na sociedade londrina sob a vigilncia constante 
de gente curiosa aps o casamento dela com o duque.
      Bea usava uma capinha azul-clara e um chapu da mesma cor, adornado com flores brancas. Uma mecha de seus cabelos dourados caa-lhe sobre a testa, contrastando 
com seus olhos azuis. Era uma jovem de beleza admirvel.
      - Como estou? Bem apresentvel como me de uma duquesa? - lady Dunrnark perguntou, refazendo o lao do chapu.
      - Jovem e bonita demais para ter uma filha em uma posio to importante. - Kitty sorriu-lhe.
      
      Na festa, Kitty aceitou uma xcara de ch e se manteve de lado. Para seu alvio, ningum ali parecia ter ouvido falar de sua ligao anterior com o duque. 
Sabiam apenas que ele se casara muito rpido, o que aumentava a curiosidade a respeito de Beatrice. De certa forma, era bom no ser o centro das atenes.
      Sua me mantinha-se junto de Bea, como se quisesse proteg-la. Evidente que as senhoras naquele lugar no eram to perigosas como as que conheciam em Londres, 
mas era importante manter Bea ciente de que sempre haveria algum que poderia causar-lhe algum dano.
      -  um prazer conhec-la, srta. Stone! Sou Helen Driver. - Uma senhora simptica, vestida de preto, sorria para ela.
      - O prazer  todo meu.
      Kitty estava surpresa. A deduzir pelo sobrenome, Helen Driver devia ser a mulher do pastor. Porm, quando Kitty o viu na igreja, teve a impresso de que ele 
era muito novo para ter uma esposa daquela idade.
      - Sua irm  muito bem-vinda a Charsley Hall e Ackerbridge. As duas parquias esto sob os cuidados do sr. Driver.
      - No sabia. O pastor deve ser um homem bastante ocupado.
      Outras trs senhoras, cujos nomes Kitty logo esqueceu, aproximaram-se, e a conversa prosseguiu, versando sobre assuntos locais, travessuras das crianas, moda 
e o clima. De fato, bastante diferente dos temas londrinos, mas no chegava a ser uma conversa desagradvel.
      A maioria das senhoras j havia partido quando Fanny Courtney puxou Kitty pelo brao, levando-a para um canto da sala.
      - O sr. Driver veio buscar a me, mas antes quero apresent-lo a voc - Fanny sussurrou, cmplice.
      Kitty disfarou um sorriso. Pelo visto, a senhora que pensara ser a esposa era a me do reverendo.
      - O sr. Driver  vivo, Kitty.  muito gentil, e estou certa de que voc apreciar sua companhia.
      Embora constrangida, Kitty acompanhou Fanny. Era estranho, pensou Kitty, que uma mulher solteirona, colaborasse para um relacionamento entre ela e o pastor.
      - Prazer em conhec-la, srta. Stone - o reverendo a cumprimentou e se virou para Fanny. - Em que posso lhe ser til, srta. Courtney?
      - A srta. Stone expressou seu desejo de conhecer o tmulo da famlia, perto da igreja. Achei que talvez pudesse lhe mostrar os arredores, enquanto sua me 
termina seu ch.
      O sr. Driver assentiu e deu o brao a Kitty.
      - Costumo acompanhar a duquesa em sua visita ao tmulo de seus entes queridos. Terei prazer em contar-lhe a histria dos ancestrais de seu cunhado, senhorita.
      - Obrigada.
      Fanny a colocara em pssima situao, e agora Kitty no via como se desvencilhar. Um passeio pelo cemitrio no era de modo algum uma forma interessante de 
se terminar uma tarde agradvel.
      O sr. Driver mostrou-lhe vrios jazigos pertencentes s famlias locais. Nada diferente do cemitrio localizado atrs da igreja de Dunmark Manor.
      Para sua alegria, aps quinze minutos de explicaes detalhadas sobre cada um dos habitantes locais, o sr. Driver consultou as horas.
      - Lamento, senhorita, mas no posso prosseguir com a narrativa neste momento. Prometi me encontrar com alguns paroquianos depois de deixar minha me em casa.
      - Est muito bem, sr. Driver. Pretendo ler um pouco mais a respeito dos Charsley na biblioteca de Charsley Hall. Se tiver alguma dvida, no hesitarei em recorrer 
a seus conhecimentos.
      
      Relutante, Jack subiu na carruagem e seguiu para a vila, para verificar o que seus trs amigos andavam fazendo. Gostaria de poder ir cavalgando, mas era ainda 
muito cedo para sentar-se em uma sela. Seus msculos, alm de continuarem bastante doloridos, pareciam ter perdido toda a fora.
      Mas no desejava desperdiar mais tempo deitado em uma cama, e alm do mais era necessrio ter certeza de que Bart, Yates e Tommy vinham se comportando de 
maneira adequada.
      A estrada passava perto da igreja e contornava a vila. O lugar costumava estar quieto e deserto, mas naquela tarde Jack visualizou uma sombrinha cor-de-rosa, 
e num gesto instintivo puxou as rdeas, fazendo com que os cavalos diminussem a marcha.
      Sim, ela via agora que se tratava da srta. Stone... acompanhada de um homem vestido de preto!
      A princpio, Jack no reconheceu o indivduo, mas ao chegar mais perto pde constatar que se tratava do pastor Driver, e no pde deixar de se lembrar dos 
tolos e infantis sermes que era obrigado a escutar todos os domingos na igreja.
      O que estaria ele fazendo ali com a srta. Stone, e como teriam se conhecido?
      Era bem sabido na vila que o reverendo Driver procurava uma esposa. Algum que pudesse cuidar de seus filhos e substitusse sua me nessa tarefa. Mas que tipo 
de criatura comearia a cortejar uma dama em um lugar como um cemitrio?
      Jack ficou tentado a abord-los e livrar Kitty da presena do sacerdote, mas concluiu que, aps meia hora de conversa, ela seria capaz de notar que se tratava 
de uma pessoa pretensiosa e superficial.
      Com certeza a srta. Stone, uma dama de bom gosto e cultura, no se deixaria impressionar com facilidade.
      
      Naquele momento, em seu retorno para a manso, Kitty tentava se livrar da sensao de ter sido to hipcrita. Mentira para Fanny quando dissera que apreciara 
o passeio pelo cemitrio, e tambm quando dissera  me e  irm que desejava sair e tomar um pouco de ar fresco. Sua inteno era mesmo caminhar e ficar sozinha 
por instantes. Necessitava esquecer as atenes exageradas e pegajosas do pastor Driver.
      Podia entender a preocupao de Fanny em querer apresentar-lhe algum que considerava um bom partido.
      Cada vez mais, Kitty se convencia de que o melhor era deixar Charsley Hall o mais breve possvel.
      
      No dia seguinte, Kitty decidiu que passaria boa parte do tempo no chal, dando os ltimos retoques na arrumao.
      O ambiente da sala de msica se tornou mesmo muito agradvel. O rgo antigo, que Jack lhe mandara de surpresa, era decorado com pinturas em tons pastel mostrando 
cenas de lagos italianos e pastagens tranqilas. O piano, um autntico Broadwood, era um fino instrumento, e foi colocado em um canto junto da janela. E, por fim, 
a imponncia de sua harpa brilhando sob os raios de sol que penetravam no ambiente dava o toque decisivo.
      Kitty esperava que Jack aparecesse aquela tarde para ver como o chal se transformara. Dois dias atrs, ela agradecera a Yates, Bart e Tommy e os dispensara. 
Em apenas algumas horas, duas empregadas deram uma polida final na moblia, completando o trabalho.
      Apanhou uma partitura de uma pilha e sentou-se em frente ao rgo. Adorava aquele instrumento e a combinao do som leve da harpa e da fora do piano. Dedilhou 
algumas notas, pensando que talvez tivesse de encomendar algumas novas partituras em Londres que mais se adaptassem ao rgo. Mas era a harpa que lhe era mais cara 
ao corao. 
      Fechou os olhos e deixou que seus dedos falassem por si, permitindo-se envolver-se pela melodia.
      Quando tornou a erguer as plpebras, encontrou o olhar de Jack, que, encostado no batente, a observava.
      - No quero perturb-la, srta. Stone. Ainda bem que no fiz barulho ao me aproximar, e consegui v-la tocar. De certa forma, sua presena torna a msica mais... 
completa.
      - Que exagero, major. - Kitty enrubesceu. - Comeo a achar que o senhor se assemelha queles conquistadores londrinos.
      - Estou apenas falando a verdade!
      Kitty fez um gesto, convidando o major a se acomodar.
      - Como se sente hoje?
      Jack foi at uma cadeira, mancando de leve.
      - Muito melhor. Tenho bebido litros de seu ch e me sinto quase pronto para danar uma valsa. Mas, deixando de lado as dores que me afligem, devo dizer que 
a senhorita transformou este lugar em uma casinha adorvel, e confortvel tambm.
      - Como lhe disse, a moblia  de excelente qualidade. Devo agradecer-lhe mais uma vez por enviar os instrumentos.
      - Foi muito bom ter achado o rgo. Tinha me esquecido de que minha me tocava de vez em quando. O piano estava quase novo quando ela morreu. Recordo-me bem, 
pois depois de sua morte estudei nele por muitos anos. Meu pai insistia para que aprendesse, mas receio no me lembrar de mais nada.
      - Duvido. O que foi aprendido volta logo que se comea a dedilhar.
      - Ser?
      - Podemos tentar.
      - Sim, mas primeiro gostaria de visitar o chal.
      No trreo, do lado oposto  sala, havia um espao com uma mesa e alguns utenslios de cozinha.
      - Aqui serve muito bem para se preparar um ch ou uma pequena refeio - Kitty explicou-lhe.
      - Onde encontrou esta loua? - Jack apontava para as jarras de leite, alinhadas sobre a lareira.
      - No so interessantes? Eu as achei embrulhadas dentro de uma caixa.
      Jack se deteve em frente  lareira observando cada pea at que, ao se virar para ela, seus olhares se encontraram. Kitty sentiu o corao bater mais forte 
e procurou se desviar.
      - Gostaria de visitar o andar superior, major?
      - Sim.
      O hall estreito separava os dois dormitrios, sendo o maior localizado bem em cima da sala de msica.
      - Como lhe disse, fiquei surpresa por encontrar uma moblia to fina, embora digam que os chals estejam bastante em moda hoje em dia.
      - Suponho ento que isto a torne uma "lanadora de moda"! - Jack chegou mais perto dela, segurou seus dedos e levou-os aos lbios. - Sem dvida, uma lanadora 
de moda adorvel!
      O toque daqueles lbios macios causou um intenso .calor em Kitty, que se irradiou por seu corpo. Entretanto, usando de todo o autocontrole possvel, sugeriu 
que voltassem  sala de msica.
      Jack se sentou e olhou em torno mais uma vez.
      - Diria que tem um grande dom para decorao, srta. Stone. Aceitaria vir at minha casa em Nether Acker? Pretendo reabri-la, embora meu pai sempre tenha dito 
que seria melhor demoli-la toda e comear tudo outra vez.
      - Sim, gostaria de v-la, pois adoro residncias antigas.
      - Nesse caso, talvez dentro dos prximos dias possamos ir. Desejo voltar a cavalgar em breve, e prometi a Mary que sairamos a passeio um dia desses. Ela cavalga 
muito bem seu pnei.
      - Adoraria que o senhor trouxesse Mary aqui, para que eu lhe ensine a tocar piano, major.
      - Creio que ela gostar muito, e sei que poderei fazer a duquesa concordar.
      - Bem, e agora? Pronto para experimentar sua habilidade nas teclas?
      - Falando com franqueza, seria prefervel enfrentar uma batalha com os franceses! Ser preciso que se sente perto de mim, senhorita, para me conferir mais 
confiana.
      Uma vez ao lado dele, Kitty sentiu a proximidade do ombro de Jack, mas tentou se concentrar na partitura.
      - Olhe as notas com ateno. Lembra-se de onde elas ficam localizadas no piano, no?
      Kitty podia sentir os olhos de Jack voltados para ela, e no para a msica. Sorrindo, encarou-o.
      Tarde demais, reconheceu seu erro. Em um instante, Jack segurou-lhe o queixo, inclinou-se e a beijou com ternura.
      Era isso o que temia! E o que mais desejava!
      
      Uma lembrana a ser guardada para sempre! Se ela jamais tornasse a ser beijada, se terminasse seus dias como uma governanta solteirona, ainda assim teria sempre 
na memria o calor dos lbios de Jack Whitaker nos seus.
      Sonhando acordada, Kitty contemplava sua imagem refletida no espelho do quarto. Maravilhoso momento e ao mesmo tempo to embaraoso!
      Kitty j havia sido beijada em outras ocasies, mas pela primeira vez desejou retribuir, e no apenas receber.
      Jack murmurara doces palavras em seus ouvidos, chamando-a de "querida", e ela apenas o fitara, incapaz de verbalizar o que quer que fosse.
      Sentia-se em transe desde o momento em que entrou em seus aposentos e se acomodou diante da penteadeira. A jovem ali refletida estava radiante.
      Entretanto, sabia que no deveria se envolver com o major... com Jack. Dali para a frente, iriam se encontrar muitas vezes. J haviam at feito planos para 
novos compromissos, aos quais no poderia faltar, mesmo que quisesse.
      Em breve, Jack Whitaker partiria para Londres e voltaria para a guerra. E Kitty, mais dia menos dia, deixaria Charsley Hall para viver sua prpria vida. No 
existia futuro para os dois.
      No lhe restava nada alm de seguir seu caminho de decepes, portanto, e fingir que nada acontecera.
      Aquela doce lembrana ficaria bem guardada em seu corao.
      
      Para Jack, os dias que se seguiram foram de completa frustrao. Kitty nunca ficava s no chal. Sempre Bea ou Neil lhe faziam companhia. Na manso, ela o 
ignorava, como se no se lembrasse dos beijos que trocaram.
      Sua recuperao se dava com mais lentido do que esperava e ao cavalgar a dor ficava insuportvel.
      A duquesa exigia sua presena cada vez que as atividades da nora ameaavam sua autoridade. Em segredo, Jack admirava a ttica da jovem duquesa, de sua irm 
e de sua me. As trs se integraram com as senhoras locais e tinham at visitado a fazenda de um dos maiores arrendatrios da propriedade.
      Entretanto, apesar de tudo, Jack alcanou algum resultado positivo: conseguiu trazer Mary para tomar aulas de piano com Kitty. Adelina, a princpio relutante, 
acabara concordando quando ele argumentou que a menina se sentia muito s e desejava muito aprender a tocar. Meses atrs, quando veio para a manso para recuperar-se 
dos ferimentos, Jack encontrou Mary mais solitria do que ele fora quando menino. A garota era rf de pai e me. Tinha apenas a duquesa como sua guardi e a preceptora, 
que era uma pessoa severa e rgida.
      Jack, com a idade de Mary, vivera uma situao semelhante, mas no de tamanha solido. Embora o pai fosse frio e autoritrio, podia contar com sua presena 
e tambm com o primo Char, seu companheiro de aventuras e de brincadeiras com as crianas da vila. Mesmo assim, sentira-se muito s. Como deveria ser difcil para 
Mary no ter parentes e levar uma vida reclusa, sem contato com outros de sua idade!
      Mary era muito tmida, mas ao conversar com ela, Jack constatou que era bastante inteligente, versada em geografia e histria, falava um pouco de francs e 
era excelente desenhista. Jack reservara para ela um lugar especial em seu corao, e esperava que Kitty pudesse fazer o mesmo.
      Ah, Kitty! Como Jack gostaria de esquecer que um dia teria de voltar a Portugal! Ela o fazia negligenciar seus deveres e suas aspiraes.
      Pela primeira vez na vida, seu sentimento por uma mulher era mais do que atrao ou companheirismo. Kitty Stone o fazia querer compartilhar mais do que momentos 
de prazer: uma vida em comum tambm. At mesmo com crianas. Por causa dela, Jack vinha querendo coisas que jamais desejara antes.
      Mas em vez de se permitir sonhar acordado preferiu voltar  realidade. Tinha de mostrar Nether Acker a Kitty, e quem sabe abrindo a manso e iniciando as obras 
de remodelao deixaria de lado parte dos problemas que o afligiam...
      Interrompendo suas conjecturas, Randall se aproximou com uma carta que fora entregue por um mensageiro, minutos atrs.
      - O rapaz aguardar a resposta - Randall comunicou-lhe.
      A missiva era de lorde Pearson. Devido  importncia dos combates nas ilhas do mar do Norte, lorde Pearson iria reunir alguns cavalheiros em seu iate, dentro 
de alguns dias. Os homens a bordo conversariam sobre a situao poltica atual e discutiriam opes. 
      Na mensagem, Lorde Pearson perguntava se poderia contar com o major e do primo de Jack, Char.
      Jack deixou a folha cair no cho. Com o festival a apenas algumas semanas, como poderia convencer Char a ir velejar com ele?
      
      Dirigindo a charrete e tendo Kitty a seu lado, Jack decidiu que S lhe devia uma explicao.
      - Sei que lhe prometi que cavalgaramos at Nether Acker, senhorita, mas pretendo comear a reforma da casa to logo possvel, e no me sinto ainda em condies 
de montar. Sem dvida, se subssemos as montanhas a cavalo, teramos uma viso fantstica da residncia.
      - Estou certa de que a vista ser bonita de qualquer ponto, major.
      - E muita gentileza sua, mas garanto que rir de mim quando vir a casa e constatar que desejo morar em um lugar to antigo. Comparada ao esplendor de Charsley 
Hall, Nether Acker parece insignificante, embora a arquitetura seja bastante incomum e a construo tenha mais de cem anos.
      - Jack, estou certa de que gostarei. Prefiro casas que mostrem algum estilo.
      Era a primeira vez que se encontrava a ss com Kitty depois do beijo alguns dias atrs. Quando no havia ningum por perto, os dois se tratavam pelo primeiro 
nome com naturalidade, o que no acontecia na presena de outras pessoas.
      - Meu pai sempre falava sobre a necessidade de se construir um novo imvel, mas isso nunca aconteceu. Agora me sinto constrangido em trazer uma dama de tanto 
bom gosto para visitar um lugar quase em runas.
      - Esteja certo de que serei sincera. Mas como j lhe disse, quanto mais antiga a casa, mais deverei apreciar.
       medida que chegavam perto, as pedras avermelhadas que cobriam as paredes brilhavam ao sol matinal. Uma hera lustrosa cobria parte da parede perto da entrada.
      Jack sentiu as muitas lembranas a envolv-lo quando entraram na manso. Mesmo aps doze anos ou mais, o cheiro continuava o mesmo. Como podia ser?
      Tentou afastar Kitty do velho hall - o corao da casa tempos atrs -, mas ela insistiu em v-lo.
      - Jack, isto  maravilhoso! To antigo e to bem preservado!
      - Papai achava que devia ser demolida...
      - De modo algum! Trata-se de um grande patrimnio. Imagine o poderoso senhor feudal sentado  cabeceira desta grande mesa entre os convivas de uma festa enorme!
      - Pelo que sei, esta manso  uma rplica, construda aps a Restaurao, quando algumas famlias precisavam simular serem descendentes dos bares da Normandia.
      - Voc no sabe a data exata de quando foi construda?
      - Havia Acker nesta regio na poca dos Tudor. No se sabe se o rio deu o nome  famlia ou o contrrio. Venha conhecer as demais salas, que mostram uma decorao 
um pouco mais recente.
      - Jack,  de tirar o flego!
      - Gosta mesmo dessas velharias?
      - Sim! Veja estes vitrais e o piso de madeira! No estou certa sobre a autenticidade do hall, mas este ambiente , decerto, do perodo Tudor.
      - Este era o cmodo preferido de minha me, se me recordo bem.
      - Que idade tinha quando ela morreu, Jack?
      - Nove. Quase dez.
      Kitty sorriu, correndo os dedos pelo revestimento da parede.
      - Ela deve ter sido muito bonita!
      - Ah, sim! Havia um retrato de mame em algum lugar, mas tudo foi guardado, exceto os mveis da sala de jantar.
      Jack entendeu o motivo no momento em que entraram na sala.
      A mesa e as cadeiras, agora cobertas por panos brancos, tinham dimenses gigantescas, o que tornava impossvel que fossem tiradas dali.
      - Diga-me, Kitty, acredita que vale a pena reabrir a manso?
      - Claro que sim, no tenho dvidas! Estas salas so belssimas, e garanto que a moblia guardada combina com o estilo. Ser que o telhado est em boas condies?
      - Meu capataz me assegurou de que esta ala se encontra intacta. H vrios quartos no andar superior. A ala do outro lado do hall, ao contrrio, tem problemas 
de infiltraes, mas meus trs amigos podero fazer os reparos necessrios.
      - Deve haver muita histria atrs destas paredes. Onde ficam guardados os registros da propriedade?
      - O administrador arquiva os papis de uso atual, e a velha biblioteca est repleta de volumes empoeirados. Talvez se possa encontrar neles alguma informao 
sobre a histria da famlia.
      - Acho que deveria encontrar esses documentos e descobrir tudo sobre esta casa. Deixe-me supervisionar seus amigos na limpeza desta ala. Deixaremos as salas 
em ordem. Afinal, eles no fizeram um trabalho to ruim no chal - Kitty comentou, animada.
      -Mas no quero que se afaste de sua harpa, agora que est to bem acomodada.
      - Deixe isso comigo, major.
      No caminho de volta para Charsley Hall, Kitty soltou um profundo suspiro.
      - Algo errado? - Jack quis saber.
      - Apenas preocupaes com minha irm... Bea no se convence de que j fez grande progresso em impedir que a duquesa continue a criticar o duque. E muito frustrante, 
sobretudo quando percebe que lady Adelina  muito parcial com relao a voc e o duque.
      - Em minha opinio, a viva duquesa est presa em um crculo vicioso. Quanto mais critica o filho, mais convence a si mesma e a Char de que  insubstituvel 
como administradora da propriedade.
      - Mas se ela desse autorizao para que ele tivesse reunies com seu administrador, encontrasse os principais arrendatrios sem sua interferncia... - Kitty 
parou no meio da frase.
      - No acredito que titia tenha essa viso, mas meu primo  um homem competente. J tentei sugerir algumas modificaes, mas ela no quis me escutar.
      - E se lady Adelina no deu ateno a suas idias, no ouvir mais ningum.
      - E justamente por este motivo que no insisti, pois no desejo colocar em risco minha influncia sobre ela.
      - Uma deciso acertada.
      - Na realidade, estou mais interessado em fazer com que Char se interesse por assuntos polticos alm do que acontece neste pequeno recanto de Kent.
      - O que quer dizer, major?
      - O duque tem de pensar no futuro de seu pas, e no apenas em seus campos e pomares. Se Napoleo conseguir seu intento, no haver muito o que produzir e 
colher em Charsley Hall.
      - Concordo, major, mas se Char no se sentir confiante em sua prpria casa, entre seus familiares e as pessoas que vivem em sua propriedade, jamais se sentir 
confortvel para discutir temas de tal relevncia.
      Jack meneou a cabea.
      - No se pode esperar que uma mulher entenda a importncia de tudo isso.
      -Entendi sua observao. Mas no percebe que, se mais homens se esforassem para que seus lares e seus familiares estivessem mais seguros e confortveis, eles 
seriam capazes de se envolver em assuntos polticos com muito mais confiana?
      - Vejo que tem bons argumentos, srta. Stone. Talvez devesse levar voc para Londres em vez de Char!
      Mais tarde, rememorando a troca de opinies, Jack se deu conta de que a atitude de Kitty o agradava muito. Ela era uma jovem resoluta e confiante em seu modo 
de raciocinar. O que ela diria, porm, quando soubesse que ele se ausentaria levando Char durante uma semana? No queria nem imaginar!
      
      Jack colocou o brao sobre os ombros do duque, e esperaram que as senhoras passassem para o salo.
      - Espere um momento, Char. Gostaria de discutir algo com voc. No levar mais do que um quarto de hora.
      Surpreso, Char olhou para o primo e dirigiu-se a Bea:
      - Estaremos com vocs em alguns minutos, querida.
      Jack conduziu Char para o terrao antes que a duquesa os impedisse. Um empregado seguiu-os com taas de vinho em uma bandeja.
      - Do que se trata, Jack?
      - Precisamos falar sobre alguns temas. Aprecio a idia do festival, primo. De certa forma, significar a passagem do controle da propriedade para voc e sua 
esposa.
      - No penso que mame...
      - Char, voc sabe como gosto de sua me, mesmo quando ela se mostra intolerante e autoritria. Devo a titia minha recuperao, no posso negar.
      - Sim, Jack,  verdade.
      - Mesmo assim, penso que ela assumiu muito mais do que devia.
      Char pareceu desanimado.
      - Sei que sou uma grande decepo para mame...
      - Voc no  nada disso! Posso ser franco, Char?
      - Sim,  claro.
      - Em muitas ocasies, voc me pediu que no interferisse, e acatei seu pedido, embora fosse obrigado a engolir o que pretendia dizer. Adoro tia Adelina, mas 
detesto as crticas constantes que lhe faz.
      - Jack...
      - Escute, Char. Sua me age desse modo por muitas razes. A duquesa receia perder o controle da propriedade para voc, pois perderia sua autoridade. Para ela, 
 muito conveniente que continue se ocupando de sua poesia e deixando que o intimide, pois assim continuar sendo a pessoa mais importante no ducado.
      - Jamais vi por esse ngulo. Voc pode estar certo.
      - Sobretudo depois que voc trouxe para casa uma esposa que no havia sido escolhida por ela!
      Char assentiu com expresso contrariada.
      - O que posso fazer, no entanto?
      - Gostaria de ter uma lista pronta para voc, mas no tenho. A festa j  um comeo, mas acredito que ter de ir alm dos assuntos caseiros e da vila, Char.
      - Explique melhor.
      - No sou a nica pessoa em Londres a desejar que assuma um lugar na Cmara dos Lordes, Char. Precisamos de sua ao efetiva para conseguir apoio para nossas 
tropas em Portugal.
      - No entendo a maioria das coisas que eles discutem. A primeira e nica vez em que estive presente  sesso, fiquei sentado durante horas e, ao final, mesmo 
que quisesse, no poderia repetir uma nica palavra do que foi dito.
      - Sim, a maior parte do trabalho  entediante. Mas necessitamos de seu apoio, primo. Os franceses, e em especial aquele louco corso, nos ameaam sem cessar. 
Nem os exrcitos austracos e russos foram capazes de enfrent-los. Acho que sir Arthur Wellesley, com quem servi,  a nica esperana, tanto para a Inglaterra como 
para a Europa.
      - No consigo entender. Se j tnhamos um Exrcito no campo de batalha... Percebe Jack, como sou ignorante nesses assuntos?
      - Tolice! Voc no  ignorante. Reage apenas como a maior parte dos membros da Cmara. Eles pensam que tropas, suprimentos e munio suficientes esto sendo 
enviadas, mas no  o que est acontecendo. Temos de exigir do governo uma ao mais efetiva nas batalhas da pennsula, como foi feito em Vimeiro.
      - Onde voc se feriu, no , Jack?
      - Sim. Quero que saiba, Char, que voc ser importantssimo na Cmara dos Lordes.
      - Sinto-me envaidecido, mas no posso me afastar de Bea.
      - Bem, ela tem a me e a irm. De qualquer forma, lorde Pearson nos convidou, junto com alguns outros, para velejar em seu iate na prxima semana. Ser uma 
boa oportunidade para que voc conhea melhor algumas pessoas influentes.
      Retornando ao salo, Jack sentiu sua insatisfao crescer. Teria de concentrar mais tempo convencendo o primo a fazer parte do grupo, no iate. Seria apenas 
um incio, mas ajudaria Char a se entrosar nos temas do governo.
      
      - Jack! - Kitty praticamente gritou. - Como ele pode pretender levar Char daqui em um momento to importante?!
      Bea soluava, deitada no div.
      - E to injusto!
      - Qual  o objetivo dessa viagem? - Lady Dunmark tamborilava os dedos sobre a mesa.
      - Um grupo de polticos sair em um iate para velejar durante alguns dias, para discutir assuntos de grande importncia. Justo quando temos de fazer todos 
os preparativos para a festa que acontecer dentro de trs semanas! - Bea explicou, levantando-se.
      Kitty se perguntou como Jack conseguira convencer Char. Lembrava-se de que o cunhado uma vez lhe dissera ter averso a viagens martimas.
      - Diga-me, Bea, o que Char lhe disse?
      - Ah, ando to distrada que no consigo me recordar... Vejamos... Que no compreendia por que eu estava to aborrecida, uma vez que tudo j est organizado.
      Kitty pediu licena e foi at o quarto de Jack. L chegando, bateu na porta com bastante fora. Win demonstrou espanto ao v-la.
      - Srta. Stone!
      Ouviu-se a voz de Jack vinda de dentro do aposento.
      - Por favor, entre, Kitty, e no repare por eu estar em mangas de camisa. Acredito que sei o motivo de voc ter vindo aqui.
      Ao entrar, Kitty o viu refletido no espelho arrumando o leno do pescoo, e pde ver tambm refletida sua prpria imagem. Parecia uma bruxa, com os cabelos 
despenteados, o rosto descomposto pela raiva.
      Jack sorriu-lhe.
      - Voc soube da...
      - Jack Whitaker! Como pode ser to egosta a ponto de levar Char para velejar?! Depois de tudo que fizemos para torn-lo mais responsvel, o senhor o afasta 
para uma viagem de lazer no pior momento possvel! E se vocs tiverem um perodo de calmaria no meio do canal ou se por acaso se perderem na neblina? No podemos 
adiar a festa. Embora pudssemos nos arranjar muitssimo bem sem sua presena, no podemos dispensar a do duque!
      - Terminou, srta. Stone?
      - No! - Kitty podia ver a figura de Jack e Win pelo espelho, tentando conter o riso. - No, ainda no terminei. S encerrarei este assunto quando vocs adiarem 
essa estupidez!
      Devagar, Jack se virou para olh-la.
      - Talvez lhe interesse saber que o intuito de lorde Pearson  usar esse momento para reunir algumas personalidades que possam apoiar nosso Exrcito e falar 
em nome de Wellesley. E  porque estou ajudando Char a aceitar suas responsabilidades que desejo que ele comparea.
      - Seria muito melhor para seu primo se deixasse a poltica para outros, por enquanto, major. Parece que o duque estar bastante ocupado administrando Charsley 
Hall e cuidando de sua famlia. Mas  bem prprio dos homens se afastar e fingir que tratam de pontos relevantes quando estaro apenas respirando o ar martimo e 
se ocupando em... beber, presumo.
      Jack a fitava com toda a calma, mas Kitty podia perceber uma expresso de exasperao comeando a surgir em seu semblante.
      - Srta. Stone, creio que algumas garrafas sero abertas a bordo do iate, de fato. Contudo, nosso objetivo  srio; talvez mais do que possa calcular. - Jack, 
agora zangado, se dirigiu a seu criado.
      - Meu casaco, Win!
      Kitty ficou olhando o empregado ajudar o patro a vesti-lo.
      - Se estamos falando de compreenso, garanto que vejo com absoluta clareza o que est errado por aqui, e que usar um passeio de iate como pretexto para fugir 
da responsabilidade no ajudar a resolver coisa alguma. Estou desapontadssima com suas atitudes, major! - Ao terminar seu discurso, Kitty saiu, batendo a porta 
atrs de si.
      
      - Preferia que eles no tivessem ido. Char deveria estar aqui, ocupando-se dos preparativos da festa. - Bea arrumava os cabelos com todo o esmero.
      - Neil disse que a duquesa proibiu os criados de nos ajudar - lady Dunmark comentou.
      - Mas podemos contar com lady Euphemia, Fanny e todas as demais vizinhas. A sra. James nos dar uma mo, contanto que os demais criados no saibam de nada. 
Ela est bastante entusiasmada por causa das ostras.
      - Oh, ostras... - Bea torceu o nariz.
      - O dia de So Jaime marca o incio da estao das ostras, minha irm, e  uma das razes pelas quais o festival acontece no final de julho. A sra. James me 
disse que as ostras Whitstable so famosas desde que Jlio Csar conquistou a Bretanha. Na realidade, muitas pessoas crem que essas delcias foram o motivo do interesse 
do imperador por nossa terra.
      Bea fez outra careta.
      - Talvez deva evit-las em seu estado, querida. - Lady Grace Dunmark sorriu, e olhou para Kitty.
      - Mas saiba, minha irm, que se trata de um prato refinado, muito em voga nos jantares londrinos.
      - Pensando melhor, talvez experimente uma.
      Kitty achou graa. Bea era dona de um humor que lhe seria til um dia. Tinha a impresso de que sua irm se tornaria uma influente duquesa, ditando a moda 
e estabelecendo padres nos crculos sociais e polticos.
      Pouco depois, no caminho para Nether Acker, Kitty no pde deixar de pensar que a oposio da duquesa estava sendo, afinal, um grande incentivo para Bea.
      Os trs amigos - Tobby, Yates e Bart - estavam prestes a terminar o servio do lado externo de uma das alas da manso de Jack.
      - Srta. Stone, veio andando de novo? - Tommy perguntou logo que a viu.
      - Oh, sim!  uma longa caminhada, mas aprecio o exerccio.
      - Senhorita, j consertamos o estbulo. As baias esto limpas e prontas, se desejar vir a cavalo.
      - Obrigada, Tommy. - Kitty sabia que poderia economizar muito tempo se viesse cavalgando Diamond.
      No interior da residncia, ela analisou com mincia as paredes. Lera vrios livros sobre a arquitetura Tudor na biblioteca de Charsley Hall, e estava determinada 
a tornar aqueles ambientes o mais autnticos possvel, mas sem se esquecer do conforto, que era imprescindvel, a seu ver.
      - Bem, agora todo o revestimento de madeira tem de ser encerado. A madeira ficar linda depois de limpa e polida. Acho que levar uns dois dias ainda para 
que possamos lavar as janelas, desenrolar os tapetes e tirar as capas da moblia.
       noitinha, quando Kitty trouxe-lhes queijo e po fresco da cozinha de Charsley Hall, os rapazes j haviam feito grande progresso.
      
      No terceiro dia a bordo, Char ainda no aparecera no deque por estar completamente mareado. O pobre rapaz comeara a se sentir enjoado uma hora aps a partida, 
e participara apenas da primeira conversa do grupo.
      - No sabia que Char tinha problemas de enjo no mar - Jack comentou com seu anfitrio, enquanto bebiam uma dose de conhaque no salo principal.
      - Teremos de tentar conversar com ele em uma outra ocasio.
      - Lorde Pearson meneou a cabea, resignado.
      Jack fitou o oceano escuro a sua frente. A vida era muito irnica. Encontrava-se ali, velejando no canal, enquanto sua vontade era estar ao lado de Wellesley 
em Portugal, ou na Espanha, que era onde o batalho deveria se encontrar naquele momento. Pior do que tentar fazer com que Char se levantasse da cama eram os sonhos 
com Kitty Stone que o atormentavam.
      A viso do sr. Driver e Kitty passeando juntos no o abandonavam. Seria possvel que ela aceitasse se tornar a me de quatro pequenos rfos substituindo a 
sra. Driver nessa tarefa? E talvez em ter seus prprios filhos com aquele beato tolo?!
      Tais pensamentos faziam seu estmago doer. No podia imaginar Kitty usando uma camisola e se deitando com outra pessoa que no fosse ele!
      Encontrava-se longe de casa, mas, mesmo se estivesse perto, o que teria a oferecer a ela? Poderia prometer que um dia, se sobrevivesse, voltaria da guerra 
para despos-la?
      
      Kitty esperava Mary para sua aula de harpa, enumerando mentalmente as brincadeiras que as senhoras haviam organizado. A corrida das trs pernas, uma das brincadeiras 
mais apreciadas, estava marcada para o incio da tarde.
      Ao tomar conhecimento da corrida, Kitty se perguntou se seria uma boa atividade para Mary participar; lembrou-se, porm, de que ela no teria par. A srta. 
Munstead certamente no entraria na competio, e assim, se Mary quisesse tomar parte da brincadeira, Kitty teria de ir com ela.
      - Gostaria de tentar correr comigo a corrida das trs pernas? - Kitty indagou.
      Mary estava sentada ao piano. A srta. Munstead fora at a cozinha para uma xcara de ch com Neil.
      - Sim, senhorita, mas no sei como .
      - Para ser honesta, eu tambm no. Acho que a ltima vez que tentei foi quando tinha sua idade. Quer experimentar?
      - Gostaria de tentar - a garota afirmou, solene. - Uma vez eu vi uma corrida dessas. Depois de alguns passos, a maioria das garotas caram, e a a angua de 
todas ficou  mostra!
      - Ento teremos de costurar uns enfeites de renda em nossas anguas, para o caso de cairmos.
      - Acha mesmo? Tenho certeza de que a srta. Munstead no vai deixar.
      - Nesse caso, traga uma angua e eu farei as costuras. Poderemos treinar mais tarde.
      - Creio que posso encontrar voc perto da cozinha, l pelas trs horas, porque a srta. Munstead faz sua sesta nesse horrio - Mary falou, animada.
      Como combinado, as duas se encontraram  tarde. Procuraram um lugar meio escondido no gramado do jardim e amarraram os tornozelos com um pedao de tecido que 
Kitty trouxera.
      Comearam a treinar devagar, colocando  frente primeiro a perna amarrada depois a perna livre. Aps algum tempo, j conseguiam caminhar e foram aumentando 
a velocidade at conseguirem correr.
      - Um, dois; um, dois... - Kitty aumentou o ritmo da contagem.
      Ambas corriam cada vez mais rpido, at que Kitty tropeou, e elas foram parar na grama, com as saias voando sobre suas cabeas.
      Mary gargalhava.
      - Isto  mais difcil do que parecia!
      Com dificuldade, puseram-se de joelhos e depois de p.
      - O que esto fazendo?! - Jack gritou, de uma certa distncia.
      - Praticando para a corrida das trs pernas. Que tal?
      Jack percorreu a distncia entre eles, mancando um pouco.
      -No momento em que as vi, parecia que estavam treinando para uma competio de luta livre!
      - Major Whitaker... Pensei que voltaria apenas depois de amanh.
      - Terminamos nosso cruzeiro um pouco mais cedo. Char foi acometido de mal de Mer praticamente durante toda a viagem.
      - O que  isso? - Mary arregalou os olhos, assustada.
      - Enjo por causa do mar. Mas logo que pisamos em terra firme o enjo desapareceu.
      - Jack, ser que pode nos ajudar? - Mary estendeu-lhe a mo. - Veja se h alguma maneira de melhorarmos.
      - Com prazer.
      As duas comearam de novo, mas dessa vez Kitty contou mais devagar, e conseguiram vencer uma boa distncia sem se desequilibrar.
      - Em minha opinio, vocs devem ir mais depressa e treinar mais para contornar o poste, pois quando estiverem correndo na certa cairo.
      Kitty e Mary praticaram por mais um quarto de hora antes de voltar para casa com o major. E prometeram repetir o treino no dia seguinte.
      
      
      
    Captulo VII
      
      
      Kitty parecia distrada na manh de segunda-feira, no chal. Na vspera, depois do culto, o pastor Driver se oferecera para contar-lhe como a igreja havia 
sido usada como refgio durante a guerra civil. Embora estivesse interessada na histria local, uma hora na companhia daquele homem poderia lev-la  loucura. Por 
sorte, conseguiu declinar dizendo que tinha afazeres urgentes na manso.
      Tomou o cuidado de avisar Bea e a me para que no dissessem nada sobre o chal ao pastor. Se ele soubesse que passava parte de seu dia ali, com certeza apareceria 
para visit-la. Tinha de encontrar uma maneira de desencoraj-lo de vez.
      Tocou algumas canes conhecidas, mas precisava de algo diferente para manter a mente ocupada. Talvez no armrio houvesse uma msica antiga que ela pudesse 
tocar.
      Abriu a porta do mvel e passou os dedos pela pilha de papis, tentando achar uma partitura sem ter de tirar todas as folhas. Nesse momento, notou entre as 
partituras, um pacote, que pegou e colocou em cima da mesa.
      Virando-o nas mos constatou que se tratava de cartas antigas, presas por uma fita amarela e um lao que poderia indicar o valor sentimental delas. Mas, de 
todo modo, no parecia correspondncia masculina.
      Kitty ficou curiosa do contedo e pensou em desfazer o lao para dar uma olhada nas missivas. Mas hesitou. Afinal que direito teria de l-las?
      Por fim, deixou o pacote em cima da mesa e retomou sua harpa, tocando as melodias que conhecia. Esquecera por completo do reverendo Driver.
      Ao ouvir uma batida na porta, Kitty parou de tocar.
      - Sim?
      Jack entrou na sala.
      - Com licena, Kitty. Sinto interromp-la, mas desejo saber se meus homens esto seguindo suas ordens a contento em Nether Acker.
      - Oh, sim, os trs tm sido muito teis! A falta de habilidade  compensada pela boa vontade.
      Jack deu risada.
      - Mudando de assunto apenas por um momento, gostaria de dizer que suas previses sobre a viagem com lorde Pearson se confirmaram. Nosso tempo no foi bem aproveitado.
      - Porque Char ficou enjoado?
      - Essa foi apenas parte do problema. Creio que pode ficar contente por ter acertado.
      - No me alegro, mas aprecio saber que levou em conta minhas opinies, embora tivessem sido proferidas em um momento de raiva.
      - Sim, sua reao foi surpreendente.
      Kitty no respondeu e, olhando em volta, lembrou-se do pacote de cartas.
      - Jack, h algo que desejo mostrar-lhe. Enquanto verificava as partituras no armrio, encontrei algo.
      - De que se trata?
      - Parecem-me mensagens, mas no sei o contedo. Devo admitir que fiquei bastante tentada a olhar, mas achei melhor esperar para falar com voc.
      - Comigo?
      - Bem, o chal lhe pertence, no?
      - Sim, eu sou o dono, mas nunca o vi habitado. - Jack apanhou as cartas e as analisou de um lado e de outro - Kitty, no vejo nenhum nome escrito.
      -  justamente isso o que torna tudo mais intrigante.
      - H uma forma bastante fcil de solucionar esse mistrio. - Jack desfez o lao. - Parecem ser cartas; cerca de quinze ou vinte.
      - So muito antigas?
      Jack apanhou uma missiva e leu as primeiras linhas.
      - Diz apenas "quinta-feira", sem nenhuma data. - Continuou a leitura. - Bem, temos aqui uma carta de amor de uma senhora. Por sinal, bastante apaixonada.
      - Que interessante! No seria maravilhoso imaginar que este chal foi o ninho para um amor proibido?
      - Talvez tenha sido. Terei que ler o resto para garantir, mas me parece que estas mensagens foram escritas pela... duquesa!
      - Pela duquesa?! E no eram dirigidas ao marido?
      - No parece. Tia Adelina escreve sobre a necessidade de manter sigilo.
      - Talvez fosse melhor coloc-las de volta onde as encontrei. - Kitty entendia que estavam penetrando na vida ntima de pessoas sem sua permisso.
      - E fingir que nunca as vimos? Veja, aqui ela diz que precisa partir por alguns meses.
      Kitty sentiu o corao bater mais forte.
      - Minhas suspeitas so de que...
      - Sim, estou achando o mesmo - Jack assentiu. - Qual a razo para uma mulher se afastar de seu ambiente por meses, e depois voltar com uma criana dizendo 
que a adotou? E contando uma histria sobre pessoas de quem jamais ningum ouviu falar e que haviam sido mortos em um acidente de carruagem deixando um beb desamparado!
      - Se seu raciocnio estiver correto, trata-se de uma histria complicada. Qual seria a melhor forma de agir? Devemos proteger Mary ou a duquesa? E aquele a 
quem as cartas estavam endereadas?
      - J que chegamos at aqui,  melhor lermos at o fim e confirmar nossas suspeitas. Depois tentaremos descobrir quem poderia ser o pai de Mary.
      - Acha que temos esse direito, Jack?
      - Como disse minutos atrs, tudo neste chal me pertence legalmente.
      - A duquesa no deve saber que sua correspondncia secreta est aqui.
      - Claro que no. Se ela soubesse, j teria vindo busc-la. Imagino que tenha sido seu amante que as colocou entre as partituras.
      - Isso pode explicar por que milady no freqenta a sociedade londrina. Preferiu fechar-se na manso e ver pouca gente alm do filho e de sua protegida.
      - Sim, existem muitas possibilidades. - Jack suspirou, pensativo. - Vou deix-la agora para ler as demais, Kitty. Aps o jantar, eu lhe contarei o que descobri.
      De novo a ss, Kitty se perguntava o que viria pela frente. Se a leitura das cartas confirmasse suas suspeitas, eles teriam meios de reduzir parte da autoridade 
da duquesa.
      Mas como fariam? Usar o que sabiam para chantage-la seria muito cruel.
      Ao mesmo tempo, se o relacionamento com a duquesa no melhorasse, Bea seria infeliz por toda a vida, assim como lady Dunmark. E ela, Kitty, seria chamada para 
resolver problemas e acalmar seus nimos at o fim de seus dias.
      Como poderiam usar as mensagens sem expor o segredo de lady Charsley? Por mais que desejasse v-la longe dali, Kitty no era to insensvel a ponto de querer 
destru-la.
      E o que poderia acontecer a Mary? A menina tinha o direito a uma existncia feliz sem o estigma de ser uma filha bastarda.
      Graas aos cus, no fora a primeira a ler as missivas. Jack teria mais condies de decidir o que fazer.
      
      Pelo visto, a nica coisa que a duquesa gostava mais alm de humilhar o filho e sua esposa era receber manifestaes de obedincia de seus vizinhos e arrendatrios, 
lady Dunmark observou.
      Sentadas em uma carruagem, Kitty e a me viam Adelina cumprimentar os habitantes da vila, acenando de um lado para outro e tendo nos lbios um leve sorriso.
      Recostando-se, Kitty suspirou. Alm dela e de Jack, ningum mais ali sabia do segredo da duquesa. Haviam combinado no falar nada por enquanto. Aps os festejos, 
Jack teria mais tempo para investigar sobre quem poderia ter sido o amante de Adelina. No momento, o clima era para comemoraes.
      Char ajudou a me a descer do veculo, e ambos se dirigiram  plataforma. Bea permaneceu na carruagem, embora ela tivesse argumentado que deveria acompanhar 
o marido tambm. Na vspera, lady Grace a aconselhou a deixar que lady Adelina e Char abrissem a festa, para evitar todo e qualquer tipo de provocao  viva.
      Kitty mal ouviu as palavras da duquesa. Char leu seus poemas, que por serem um tanto longos causaram certa impacincia na assistncia. Mas, ao final, todos 
aplaudiram com entusiasmo, considerando que era o duque quem lhes estava proporcionando um dia longe do trabalho e lhes oferecendo comida e bebida de graa.
      
      Terminada a corrida, na qual Kitty e Mary tiraram o terceiro lugar, Kitty decidiu caminhar, percorrendo as alamedas ladeadas por tendas, e verificar a movimentao.
      No conseguia afastar os pensamentos de o que fazer em relao  duquesa. A idia de que Adelina partisse de vez da manso para permitir que Bea e Char tivessem 
uma chance de felicidade era tentadora. Mas isso seria intimidao; e chantagem tambm.
      Em algumas ocasies, no entanto, algo dentro de Kitty lhe dizia que seria at justo. Adelina humilhara o filho durante anos. Por que no mant-la longe, deixando-o 
assim viver em paz com a esposa e o filho?
      Todavia, no podia se esquecer da caridade crist. Seria certo impor mais sofrimento a uma mulher que tivera seu corao partido por duas vezes? Mereceria 
a duquesa ser punida de novo?
      Uma outra possibilidade seria convencer a duquesa a sair de Charsley Hall sem escndalos. Ela poderia viver no muito distante dali, sem interferir na vida 
de Char.
      Kitty andava sem atentar para onde estava indo, entre as tendas espalhadas no gramado, remoendo os argumentos em seu ntimo.
      Nem mesmo sentia os aromas deliciosos das tortas, tampouco ouvia as vozes oriundas das barracas, que ofereciam especialidades e pratos regionais.
      Ao passar por uma das tendas, perto de onde muitas pessoas se encontravam para assistir ao esperado cabo-de-guerra, ouviu uma voz conhecida dizer:
      - Famoso por dar fora e agilidade. Torna seus msculos poderosos. Cura as tosses mais profundas. D energia, sade e vigor para todas as partes do corpo!
      Kitty no podia acreditar. L estava Yates, pondo em prtica alguma louca artimanha para extrair dinheiro dos habitantes locais. Foi na direo do grupo que 
o cercava. Bart espreitava a alguns passos.
      Kitty segurou o brao de Bart e o puxou.
      - Qual  sua participao nesta farsa?
      - Eu? No sei de nada! - Bart fingia surpresa.
      - Mentira! Voc est aqui para trazer compradores.
      - Bem, isso  o que Yates deseja que eu faa, mas me recusei.
      - Mesmo?
      - Srta. Stone, acho que aquele lquido no deve ser bebido por ningum.
      - Explique-se melhor.
      - Bem, os cachorros de Finnegan beberam um pouco e logo comearam a ter estranhas reaes.
      Kitty cerrou os lbios para conter a risada.
      - Quem preparou o lquido?
      - Yates. Misturou gim com algo que tinha um gosto horrvel. Era possvel escutar Yates de longe:
      - O famoso tnico de Peckover. Muito receitado na Esccia por mdicos famosos, em geral vendido em Londres por meros tostes. Vocs vo querer comprar mais 
de uma garrafa, meus amigos!
      Kitty analisava os homens e mulheres  volta dele.
      - Maiores quantidades tornam os olhos brilhantes e fazem os cabelos crescerem mais grossos e sedosos - Yates continuava.
      - No vejo ningum comprando...
      - No, ainda no, senhorita. Yates gastou mais dinheiro indo  cidade para imprimir os rtulos do que o major nos pagou pelo servio em Nether Acker.
      Kitty sorriu. Talvez no fosse necessrio se preocupar tanto com aqueles aldees jogando seu dinheiro fora.
      - Bart, diga a Yates e Tommy que o major ficar furioso se tiver conhecimento disso.
      - Sim, senhorita, farei o que me pede.
      Kitty se foi,  procura de Jack, mas no conseguiu encontr-lo. Dentro da manso, tudo fora preparado. A sala de jantar estava silenciosa, mas uma equipe de 
empregados se mantinha a postos para servir a comida, que vinha sendo preparada na cozinha.
      Dezenas de cadeiras haviam sido arrumadas em fileiras no salo para o concerto que aconteceria aps o jantar e antes do baile, para a elite local. Char trouxera 
um grupo de cantores da capital para interpretar rias de peras famosas.
      A orquestra tocaria antes e depois da apresentao dos cantores, para que os criados tivessem tempo de remover as cadeiras para o baile, que viria logo em 
seguida.
      Kitty ficou satisfeita ao ver que tudo fora to bem planejado. Lady Dunmark dera orientao a Bea em todos os detalhes. Char, com o auxlio de Jack, contara 
com a cooperao de seu capataz e de alguns homens da vila, e tudo corria sem problemas. A duquesa percorrera as salas naquela manh e, sem muitos sorrisos, dissera 
que tudo estava bem.
      Kitty escutou gente falando no cmodo ao lado e se aproximou, parando antes que pudesse ser vista.
      - Entendo sua aflio.
      - No, major Whitaker, acho que no entende.
      Kitty no tinha a menor idia de quem estaria conversando com Jack, mas experimentou um estranho pressentimento do que se tratava. O homem prosseguiu falando, 
mostrando-se alterado:
      - Minha mulher est to aborrecida que chorou o dia inteiro, e meus garotos se mostram prontos a faz-lo em pedaos!
      - Qual a resposta que deseja? Se o sujeito  esse grande canalha que o senhor diz que , ainda quer que sua filha se case com ele?
      - Ele  uma desgraa para a raa humana! Um verme do pior tipo!
      - E por isso, j proibiu sua filha de v-lo. O que eu posso fazer agora?
      - Major, ela tem sua prpria vontade. Minha proibio apenas no h de servir de nada!
      - Ento, eles j estiveram juntos outra vez?
      - Isso no sei dizer. Sally no fala comigo. Fale o senhor com Tommy, e mande que a deixe em paz!
      - No v que, se ns dois agirmos assim, apenas tornaremos o romance mais tentador, sr. Green?
      - Sim... acho que sim!
      - Bem, a verdade  que no vejo outra sada a no ser casar os dois!
      Houve uma pausa. Kitty podia quase ver o fazendeiro coando o queixo e pensando.
      - Minha esposa no gostar da idia - o sr. Green acabou por afirmar.
      - Mas imagino que gostar menos ainda de ter uma filha desonrada e malfalada por toda a vizinhana. No concorda?
      O sr. Green respirou fundo.
      - Conversarei com ela - concedeu, embora inconformado. 
      Compreendendo que Jack tinha preocupaes suficientes, Kitty girou nos calcanhares e se foi dali. No sabia a quem eles se referiam, mas a intuio lhe dizia 
que se tratava de um dos trs amigos de Jack. Achou melhor no contar nada a respeito da venda do tnico. Logo, ele tomaria conhecimento do fato.
      
      No terrao, Kitty, apreciando as inmeras tendas com suas bandeiras tremulando ao vento e a multido se divertindo, sentiu uma enorme solido se apoderar dela. 
No pertencia quele lugar. Em alguns meses pretendia estar muito distante, levando uma vida completamente diferente.
      E Jack tambm. Por volta do Natal, ele deveria estar em Portugal se sua recuperao mantivesse o mesmo ritmo.
      Antes que comeasse a chorar, Kitty saiu para assistir  prova final do cabo-de-guerra, a competio mais esperada pela vizinhana.
      Muitas das equipes j existiam antes mesmo dos festejos, pois se tratava de um antigo costume em Charsley Hall. Alguns cavalarios, empregados e o ferreiro 
da propriedade formavam a equipe que representaria Charsley Hall.
      - No seja tolo, Char! - lady Adelina o recriminara quando soube da vontade do filho em se juntar aos empregados. - J no basta termos o gramado arruinado!
      Mas, como Kitty comentara, todos consideravam a brincadeira como algo divertido e emocionante. As crianas e mulheres torciam com entusiasmo, e os mais velhos 
chegaram a organizar uma bolsa de apostas.
      Para surpresa de Kitty, uma das equipes finalistas era a de Charsley Hall. Contrariando a me, Char decidira participar. Na realidade, sua presena era um 
estmulo para os demais, que se esforavam ao mximo para puxar o outro time para a marca divisria.
      Bea gritava, junto com as outras mulheres, enquanto lady Dunmark segurava-a pelo brao, procurando no deixar que a filha se excedesse.
      Quando, num ltimo esforo, o time de Charsley venceu, Kitty se deu conta de que gritava e pulava de alegria tambm. Os membros do time ergueram Char nos ombros 
e marcharam no meio da multido.
      Kitty e Bea decidiram segui-los, e no momento em que passavam por uma das tendas, Kitty viu Jack de dedo em riste para Tommy. Ignorava se o motivo era a venda 
do tnico ou a reclamao do pai de Sally.
      As tortas feitas pelas senhoras da redondeza eram deliciosas, mas a maior atrao da festa eram as ostras trazidas de Whitstable. Antes de deixarem a comemorao 
para trocar de roupa para o jantar, Kitty experimentou uma ou duas ostras assadas e, como elogiasse muito o sabor, convenceu sua irm a experimentar uma.
      Era quase hora do concerto quando o sr. Driver, dando o brao  me, foi at Kitty para cumpriment-la.
      - Um jantar excelente, srta. Stone. Muito alm de nossas expectativas. Que tima idia trazer ostras frescas e presunto defumado! Os pratos estavam muito saborosos. 
Ah... as ostras amanteigadas!
      Kitty sorria com polidez, desejando que o conceito comeasse.
      - A manteiga aqui em Charsley Hall  superior e um excelente complemento para todos os pratos. Dizem que  o resultado de pastagens muito boas nesta parte 
de Kent, que por sua vez so o resultado de um solo excelente.
      Para alvio de Kitty, o major apareceu e, aps pedir licena aos Driver, dirigiu-se a ela:
      - Desculpe-me, srta. Stone, mas necessito de seu conselho a respeito de uma questo urgente relativa ao conceito.
      - Por favor, major, leve-a para assegurar o sucesso completo de nossa melhor festa. - O pastor completou seu comentrio inclinando-se de leve.
      S quando alcanou o meio do salo Kitty constatou que tudo no passava de inveno de Jack.
      - Major, est sendo muitssimo rude. - Ela esboou um sorriso. - Pobre sr. Driver...
      - Aquele homem  incrvel. Consegue transformar um simples agradecimento em um discurso.
      - Ou um elogio para a cozinheira em uma lista de ingredientes e suas origens. Agradeo muito ter me tirado daquela difcil situao!  quase impossvel afastar-se 
do pastor Driver quando ele comea a falar.
      -  o que tenho notado.
      - Sua Graa apreciou as ostras? - Kitty quis saber.
      - Tanto quanto ela aprecia qualquer outra coisa. Quando chegarmos ao fundo deste mistrio, Kitty, creio que descobriremos que todas as frustraes de minha 
tia resultam de um corao partido.
      
      Kitty se sentou ao lado da me, na segunda fila, para ouvir os cantores que Char trouxera de Londres.
      Embora tivesse conversado com muitos convidados durante a refeio e no caminho para a sala de msica, no se sentia concentrada nas festividades. Continuava 
a pensar na possibilidade de a duquesa deixar a propriedade, em Char assumindo o controle, em Jack ajudando o primo a se tornar influente nos crculos londrinos. 
E sobretudo: Jack ficaria na Inglaterra? Todas as indagaes a perturbavam ao mesmo tempo.
      Apenas quando Grace lhe sussurrou para aplaudir foi que percebeu que o programa j ia quase pela metade.
      Tentou manter a ateno nos cantores. Todos vinham da Itlia, um homem e duas mulheres muito bem vestidos. A orquestra composta por oito msicos tocara uma 
linda introduo e recebera calorosos aplausos.
      - No so maravilhosos, Kitty?
      - Sim, muito bons.
      Mas quando a msica recomeou, a mente de Kitty tornou a divagar.
      Jack via o mundo de uma forma muito diferente da dela, e sua imensa dedicao ao pas fazia com que ela se sentisse egosta e pequena. Ele falava da sobrevivncia 
da Inglaterra como nao perante as conquistas de Napoleo, a vida de Kitty girava em torno da felicidade de sua irm e sua me. Era irnico que Jack pudesse ajudar 
muito mais o Exrcito ingls ficando na Inglaterra e mantendo seus contatos polticos. Mas ele mal conseguia esperar pelo momento de partir e lutar ao lado de Wellesley.
      Ao ver Grace aplaudindo de novo, Kitty voltou  realidade. Cus, quais tero sido as canes apresentadas?
      Dois meses atrs, quando chegara a Charsley Hall, no teria imaginado que seus dias seriam to repletos de atividades e que nem sequer teria tempo para bordar 
uma nica pea que fosse para o enxoval do sobrinho. Planejara tudo com todo o cuidado para evitar se sentir entediada. Pela manh, um passeio a cavalo, algumas 
horas praticando sua harpa, um pouco de leitura e depois, muitas horas bordando com mame e Bea.
      Em vez disso, arranjara um chal para decorar, ajudara na remodelao de uma antiga manso, auxiliara na preparao de uma grande festa para a comunidade, 
ensinara uma garotinha a tocar harpa e apoiara os esforos de sua me paca fazer de Bea uma perfeita duquesa. E ainda alimentava o sonho de remodelar os jardins 
de Nether Acker.
      Entretanto, no desistira de partir de Charsley Hall e ter uma, vida independente. No momento, vivia como hspede da irm, bem como sua me. Sabia que ningum 
desejava que ela partisse e mudasse aquela situao cmoda para todos.
      Mas um dia teria de ir. No desejava viver em Charsley Hall para sempre, nem se deixar cortejar pelo reverendo ou por quem quer que fosse.
      Muito menos pelo major Whitaker. L estava o verdadeiro perigo para seu corao e sua alma. Nutria uma grande afeio por ele. Em sua presena, perdia todo 
o controle sobre si mesma.
      Receava a dor de um corao partido, algo que ela evitara ao mximo durante seus vinte e dois anos de existncia. No havia opo, no entanto. Estar perto 
de Jack Whitaker era se expor a uma desiluso, fosse por esperar por seu amor, fosse por aguardar notcias depois de cada batalha, vindas de uma terra distante.
      Jack Whitaker despertara nela sensaes mais profundas do que qualquer outro homem. Desejava ser envolvida em seus braos sempre que estavam prximos, e por 
causa dele imaginava os mais ntimos atos de amor. Por tudo isso, sabia que devia ter cuidado e, se pudesse, deveria se afastar o mais rpido possvel.
      No que tivesse para onde ir. Sobraram apenas alguns poucos tostes em sua bolsa, um colar de prolas, um par de brincos de rubi e algumas camisolas que poderia 
vender. Tudo junto no lhe daria o suficiente para viver por mais de algumas semanas. Poderia procurar uma ocupao como preceptora ou dama de honra. A melhor sada 
seria encontrar uma escola que admitisse uma professora de msica para jovens estudantes.
      Kitty conhecia bem os limites de suas qualificaes, mas tambm sabia que era bastante inteligente para expandir seus conhecimentos e vir a lecionar geografia 
e histria. Em um estabelecimento de ensino, seu parentesco com uma duquesa poderia vir a ser atraente para a direo.
      To logo a festa terminasse, teria tempo para enviar algumas cartas para escolas, talvez localizados em Bath, onde havia um bom nmero de internatos para meninas.
      
      - Preciso de sua ajuda, Jack - Char confidenciou ao primo, ao conduzi-lo a um canto da sala aps o desjejum.
      - Estou s ordens, Char.
      - Seria possvel hospedar o maestro Salsini por alguns dias? Eu o contratei como nosso professor de msica e pensei que ele pudesse ficar em Nether Acker com 
voc.
      Jack ficou em dvida se entendera direito as palavras do primo.
      - Quer dizer que Salsini permanecer por aqui durante alguns dias, mas voc deseja que ele se hospede em minha casa.  isso mesmo? E qual a razo de sua permanncia?
      - Mame no perde chance de comentar que deveramos melhorar nossas vozes. Por isso, conversei com o maestro, e ele decidiu ficar um pouco mais para nos ministrar 
lies de canto.
      Jack se conteve a custo para no explodir uma gargalhada.
      - As aulas foram idia de tia Adelina?
      - De modo algum. Imagino que mame no gostar nem um pouco, ainda mais porque a idia partiu de mim. Voc sabe como ela , Jack...
      - Onde est o maestro neste momento?
      - Eu o levei para a estalagem Red Lion, mas no poder ficar l enquanto estiver nos ensinando.
      - Por que no?
      - A estalagem fica muito longe, e o maestro estaria sempre na dependncia de algum para traz-lo e lev-lo de volta.
      Jack balanou a cabea.
      - Tenho apenas um quarto em condies de uso: o meu. Poderia coloc-lo nas dependncias dos empregados, mas ele teria de compartilhar o espao com trs homens. 
Justo aqueles que esto causando tantos problemas por aqui. Uma outra ala da manso vem sendo remodelada, mas ainda demorar para ficar pronta.
      - Quer dizer que no tem lugar para Salsini?
      - Meu caro, voc tem inmeros quartos vazios em Charsley Hall. Use um deles.
      - Mas o que mame dir?
      - Char, estou perdendo a pacincia! Afinal, voc  o duque! Acabou de realizar uma grande comemorao para toda a comunidade. Legalmente, todos os empregados 
so pagos em seu nome, e estou certo de que todos seriam leais se voc lhes permitisse. A nica exceo seria a sra. Wells, que talvez pudesse achar que estaria 
traindo a duquesa ao seguir suas instrues.
      - Contudo, o que vou dizer se eles obedecem apenas s ordens de minha me?
      - J  hora de mudar esta situao. Estarei a seu lado!
      
      Nervoso, Char torcia as mos, aguardando que os empregados que chamara viessem a sua presena.
      - Seja firme e diga exatamente o que deseja - Jack falou ao ver o mordomo se aproximar.
      - Vossa Graa chamou?
      A sra. Wells vinha apressada atrs dele, mostrando-se bastante surpresa.
      - Eu... desejo que preparem um quarto para o sr. Salsini, o maestro e tenor. Ele ficar por alguns dias, talvez uma semana.
      A sra. Wells se inclinou numa leve cortesia.
      - Mas, senhor, nenhum dos aposentos est preparado para receber hspedes. Terei antes de conversar com a duquesa.
      - Ah... entendo.
      Jack cutucou o primo ao constatar sua indeciso.
      - No ser necessrio consultar minha me, sra. Wells. - Char tossiu para clarear a garganta. - E, Randall, providencie alguns serviais para ajudar a preparar 
o cmodo.
      A governanta franziu a testa, mas no teve coragem de contrariar as ordens do duque.
      - O maestro deve chegar esta noite.  melhor comearem o quanto antes. - E Char deu por terminada a conversa.
      - Devemos, agora, ir at o quarto da duquesa - Jack afirmou quando se viram a ss.
      - Eu queria evitar...
      - Voc no lhe pedir nada, Char. Ir apenas inform-la de sua deciso.
      Por incrvel que parecesse, a duquesa no fez nenhuma objeo, mas notava-se que ficara descontente. Jack esperava que Char aprendesse que, se mostrasse firmeza, 
poderia vencer a oposio de sua me.
      
      Horas mais tarde, Jack encontrou-se com Kitty no chal.
      - Um professor de canto! - Jack proferiu as palavras com amargura, erguendo os braos em sinal de desnimo.
      - No deseja essas aulas,  isso?
      - No, para ser sincero. Mas no  esse o problema, Kitty. Ela entendia por que Jack estava to aborrecido, mas deixou-o falar, pois quem sabe assim sua irritao 
se dissipasse.
      - No so as aulas que me aborrecem, mas a atitude de Charsley. - Jack massageou um joelho. - Meu primo se preocupa apenas com assuntos mundanos, com os tolos 
desejos de sua...
      - De minha irm e me dele?
      - Sim. Preparativos para festivais, aulas de canto, poesia... - Jack parou de falar e, suspirando, deixou que seu gesto falasse de sua frustrao.
      - Voc deve estar muito aborrecido por ele no compartilhar de suas preocupaes.
      - Pode apostar. Seriam apenas alguns dias, e talvez uma breve ida  capital.
      - O que exatamente quer que ele faa, Jack? Discurse na Cmara dos Lordes?
      - Exato.
      - Voc est certo ao dizer que Char no se interessa por algo mais consistente. Posso avaliar como  importante o que lhe pede, mas deixe-me expor um pensamento 
que me ocorreu alguns dias atrs. Logo que Bea tiver seu beb, ela vai querer ser apresentada  rainha, e talvez at residir em Londres durante parte do ano.
      - Continue - falou Jack, encarando-a. - Est me parecendo interessante.
      - Jovens damas apreciam bailes. Gostam de danar e de oferecer recepes, e, lgico, devero convidar muita gente.
      - Fale mais, Kitty - Jack a incentivou, sorrindo.
      - Bem, a jovem duquesa de Charsley no se tornar uma anfitri perfeita da noite para o dia. Mas se voc desejar levar Char para Londres, ela poder vir a 
ser sua grande aliada nessa tarefa.
      Jack se levantou, foi at Kitty, fez com que se erguesse da cadeira e a abraou com carinho.
      - No imaginava que voc fosse to ardilosa, minha querida!
      - Posso ser s vezes. Mas, quando sinto seus braos me enlaando, vejo que no sou to esperta...
      Jack colocou os lbios nos dela, impedindo-a de dizer qualquer outra palavra.
      
      As instrues de Char foram para que se encontrassem com o maestro Salsini duas horas antes do jantar. J informara  me que estariam tendo aulas, e se o 
barulho a incomodasse, ele poderia mandar preparar uma carruagem para que fizesse um passeio.
      Relutante, Bea apareceu, certa de que o professor italiano acharia sua voz fraca demais.
      - A duquesa conseguiu diminuir sua autoconfiana, Bea querida! - Kitty procurava incentiv-la.
      - Espero que esteja certa.
      - E ela consegue seus propsitos deixando-a nervosa. Voc est toda trmula! - Kitty adoraria dizer a Bea que um dia ela estaria livre da presena da viva, 
mas lembrava-se a tempo que prometera a Jack no revelar nada sobre as velhas cartas de amor da duquesa.
      Como seria bom se a viva duquesa, de alguma forma, se afastasse de Charsley Hall!
      O sr. Salsini entrou carregando uma pasta forrada de veludo, de onde tirou algumas pginas e distribuiu para Kitty, Bea, Char e Jack.
      - Trata-se de uma cano muito simples que cantaremos juntos. - O maestro se sentou ao piano e tocou a pea inteira no primeiro momento. - Agora, cantem, soltando 
a voz com naturalidade.
      - No precisamos fazer um aquecimento com escalas ou algo parecido? - Char indagou, interessado.
      - Vossa Graa, gosto de aquecer a voz cantando canes curtas. Escalas so muito entediantes, embora no deixem de ser excelentes para treinar o controle da 
respirao.
      Kitty concluiu que o homem devia saber do que falava. E, para seu espanto, o tempo passou muito rpido. Aprendeu bastante sobre suas cordas vocais e como uma 
respirao apropriada e profunda poderia dar mais fora  voz.
      Olhando para o fundo da sala, notou que sua me entrara sem fazer rudo e assistira ao final da aula. Quando o grupo se desfez para se preparar para o jantar, 
lady Dunmark se dirigiu ao maestro, e os dois permaneceram conversando por mais algum tempo na sala de msica.
      
      Como era seu costume, Jack foi at os aposentos da tia para tomar um aperitivo antes da refeio noturna. Agora que lera as cartas de amor da duquesa para 
seu amado, entendia por que Adelina se opusera a que usassem o velho chal. Deveria ter sido seu ninho de amor. Ela jamais poderia supor que as missivas estariam 
guardadas l, e depois de tantos anos devia imaginar que seus segredos estavam bem seguros e jamais seriam revelados.
      Como sempre, Jack a encontrou debruada sobre uma caixa, lustrando e arrumando suas miniaturas.
      - Boa noite, tia Adelina - Jack a cumprimentou, fazendo uma pequena reverncia e constatando com satisfao que as dores diminuam, e a cada dia recuperava 
a musculatura.
      - Jack, voc est com uma aparncia tima!
      - Obrigada. Sinto que venho melhorando mais rpido.
      - Sirva-nos um clice de licor, por favor.
      Ele apanhou a pesada garrafa de cristal e encheu dois pequenos clices. Lady Adelina tinha o hbito de sempre beber um clice antes do jantar.
      - Espero que a aula de canto no a tenha perturbado. - Jack lhe entregou seu clice.
      - No fiquei contente com a idia, mas ningum se importa mais com meus sentimentos.
      - Vai valer a pena, minha tia. Nossas vozes soaro mais harmoniosas a seus ouvidos sensveis. - Com o comentrio, Jack tentou deixar o ambiente menos carregado.
      Ele chegou mais perto, para olhar uma das caixas de miniaturas.
      -Onde se encontra a pea que lhe trouxe de Lisboa? Nunca tive a oportunidade de perguntar se tem algum valor histrico.
      - Est aqui, meu bem, nesta caixinha ao lado de minha poltrona. Mandei vir um livro da capital que poder nos dar informaes mais precisas. Em minha opinio, 
trata-se de uma pea de grande valor.
      - Ah, sim! Ei-la.
      - Analisei a assinatura e conclu que o artista deve ser francs, e do sculo XVI.
      O olhar de Jack se deteve numa das miniaturas num canto da caixa, que mostrava a face de um homem. Seu rosto pareceu-lhe familiar. Sim! Era idntico a seu 
tio Joshua.
      - Tia Adelina, este  tio Joshua?
      - Devo ter um outro exemplar do mesmo artista... - A duquesa fingiu ignorar a questo de Jack.
      Tio Joshua... Joshua Cannon, irmo da falecida me de Jack, Madeline.
      Joshua devia ter vivido em Charsley Hall ou em Nether Acker por muito tempo depois da morte do pai de Jack. O major se lembrava de que o tio cuidara de todos 
os negcios da propriedade e fechara a casa quando Jack esteve fora com as tropas britnicas.
      Tio Joshua e tia Adelina?!
      - ...espero ter mais detalhes assim que receber o livro. Jack analisou a miniatura com mais ateno. Sem dvida, tratava-se do semblante de Joshua Cannon.
      - Sim, sim... O livro ser muito til. Espero que possa ser encontrado em Londres - Jack comentou, distrado.
      - Voc  sempre to atento com minhas necessidades e desejos, Jack! - Adelina tomou o ltimo gole da bebida e colocou o clice na mesinha.
      Ao segurar o brao da duquesa, Jack a fitou de soslaio. Sim, era possvel, e quase provvel, que o chal das rosas tivesse sido o ninho de amor da duquesa 
de Charsley e Joshua Cannon, seu tio, que no o visitara at o momento, com a desculpa de estar muito ocupado com os negcios.
      Jack mal podia esperar para conversar com Kitty sobre sua descoberta.
      
      Kitty esperava que o momento da refeio fosse calmo, aps todo o movimento do dia anterior, mas no contara com a presena do maestro Salsini.
      A cada prato servido, o maestro tecia elogios e descrevia como as diferentes comidas e vinhos podiam afetar as cordas vocais, e os fazia rir com narrativas 
interessantes, que se tornavam ainda mais engraadas por seu linguajar, uma mistura de ingls e italiano que s vezes se tornava at difcil de entender.
      Kitty ficou curiosa ao testemunhar o olhar lnguido que sua me dirigia ao maestro. Calculava que aquela atrao terminaria logo depois da primeira conversa.
      A mistura de idiomas do maestro agradava a todos, com exceo da duquesa, Salsini era um homem atraente, no muito alto, mas robusto. Seus dentes muito brancos 
contrastavam com a pele e os cabelos escuros. Devia estar perto dos cinqenta, mas quando cantava parecia muito mais jovem.
      Adelina se retirou imediatamente aps o jantar, sem dar maiores explicaes, mostrando sua desaprovao ao convidado italiano, o que no foi surpresa para 
Kitty.
      Lady Dunmark se mudou para um sof vazio quando os cavalheiros entraram na sala, e o maestro logo se acomodou a seu lado.
      - Bea, voc reparou em nossa me? - Kitty sussurrou ao ouvido da irm.
      - Sim,  claro que notei.
      - Quero dizer... ela e o sr. Salsini...
      - No  romntico, Kitty? Creio que existe algo especial entre eles.
      - Acha mesmo?
      - Enquanto o maestro cantava, no concerto, mame me disse que parecia estar ouvindo um anjo.
      Kitty no teve tempo de comentar, pois a irm se afastou para ir jogar cartas com Char.
      Olhando ao redor, Kitty avistou Jack, que lhe fazia um sinal. Logo em seguida, seguiu-o para fora daquele ambiente, sem ser notada pelos presentes.
      No corredor, Jack segurou as mos dela com firmeza.
      - Kitty, descobri a identidade do amante da duquesa! Kitty prendeu a respirao, ansiosa por saber de quem se tratava.
      - Quem ?
      -  espantoso! Trata-se de meu tio Joshua. Irmo mais velho de minha me. Vi a miniatura de seu rosto na coleo da duquesa, e a tudo se tornou evidente para 
mim.
      - Jack, conte-me sobre seu tio.  fascinante!
      - Titio nunca se casou, e era muito devotado a minha me quando eu era pequeno.  um advogado bem-sucedido, lida com importao e possui inmeros negcios. 
E uma pessoa muito conscienciosa.
      Jack parou de falar por um momento e riu.
      - Suspeito que tio Joshua tivesse suas razes maiores para permanecer aqui alm de colocar em ordem os papis e as finanas de meu pai...
      Kitty assentiu.
      - Em minha imaginao, vejo os dois enamorados e atrados um pelo outro. Lady Adelina, uma viva cujo marido no lhe fora fiel, e ele um solteiro solitrio. 
Mobiliaram aquele adorvel chal e com certeza mantiveram seu romance em segredo por todo o tempo. Mas no consigo entender por que terminaram. Imagino que ela j 
estivesse grvida, o que seria mais uma razo para se casarem.
      Jack fez que no.
      - Talvez titia no soubesse da gravidez quando o mandou embora. Ou quem sabe meu tio lhe falara de outros planos, e ela teve medo de ser rejeitada se contasse 
a respeito de seu estado. Mesmo apaixonada, a duquesa no permitiria ser desprezada.
      -Sim, e provavelmente desejava proteger os interesses de seu filho, o pequeno duque de Charsley. - Kitty meneou a cabea.
      - A duquesa  uma mulher orgulhosa, e no lhe agradaria compartilhar seus problemas com outro algum, mesmo sendo o homem que amava. Entretanto, pode ser que 
estejamos errados quanto a ela ser me de Mary. A histria do acidente com a carruagem poderia ser verdadeira, afinal - Jack continuava  procura de decifrar esses 
enigmas.
      - No sabemos nem se sua tia alguma vez comentou sobre Mary com seu tio.
      -  verdade. Conheo titio, e sei que ele no  do tipo que abandonaria um filho ou uma mulher nessas condies. Temos um grande mistrio em nossas mos, Kitty.
      - Por que no lhe escreve?
      - Tenho uma idia melhor. Vou visit-lo. Char e eu iremos a uma reunio dentro de uma semana ou duas para discutir questes polticas que sero tratadas na 
corrida de cavalos, em Greatapple. Antes, passarei por Bristol e verei o que tio Joshua tem a dizer sobre tudo isso.
      - Oh, Jack... Creio que ser uma conversa difcil.
      - Penso diferente. Acho que ser elucidativa. Depois de tantos anos, se titio no souber da existncia da criana, poder nos dar outras informaes que nos 
auxiliem a esclarecer certos pontos.
      - Como as pessoas conseguem tornar suas vidas to complicadas?
      - Kitty querida, infelizmente no somos imunes a nada. - Jack a abraou com fora.
      - Algum pode nos ver, Jack! - Kitty o empurrou.
      - Se nos virem, seremos forados a anunciar nosso noivado sem demora!
      Kitty no pde deixar de rir de tal possibilidade.
      - Jack, sei que voc e a duquesa tm um relacionamento especial, portanto, acho que posso lhe perguntar. Em sua opinio, lady Adelina seria capaz de despertar 
amor em algum? Minha percepo  um tanto limitada, mas ela no parece ser uma mulher que se deixe levar por uma paixo, ou que se apaixone s raias da loucura.
      - Minha querida Kitty, h sculos os poetas tentam definir as qualidades que despertam amor, e em especial aquele que faz com que a pessoa perca o juzo.
      - Sim, voc est certo. No adianta querer descobrir. Jack tornou a se aproximar e a beijar as mos de Kitty.
      - Talvez em vez de procurar descobrir as razes de tudo, por que no deixamos que essa emoo maravilhosa tome conta de ns?
      Carinhoso, ele colocou as mos de Kitty em sua prpria cintura, segurou-a pelos ombros e acariciou-lhe a nuca de leve.
      Kitty encostou-se mais nele.
      - Acredito que sei o que se passa, Jack. Aquele chal deve estar enfeitiado pela lembrana de amantes antigos que dividem sua felicidade com todo casal que 
vai at l.
      - Kitty, deixe-me sentir o calor de seus lbios. No precisa tentar me convencer, pois acredito que existe uma fora sobrenatural que me faz sentir essa imensa 
atrao por voc.
      Kitty o puxou e o beijou, levemente a princpio e depois com mais ardor, at que sua boca se abriu e o beijo se tornou mais profundo, deixando-os sem flego 
e trmulos.
      - Precisamos um do outro, Kitty. No podemos voltar atrs.
      - Mas voc partir em breve, Jack. No poderei esper-lo... No posso esperar at que a guerra termine. A no ser que eu v junto.
      - Nem mencione tal possibilidade! No tem noo do que  viajar com as tropas. Ficar esperando em Lisboa tambm no seria soluo.
      Kitty se desvencilhou do abrao e o encarou, com muita tristeza.
      - Boa noite, major.
      - Boa noite, Kitty.
      As dores que Jack experimentou ao se dirigir a seu quarto no vinham mais apenas de seus ferimentos.
      
      Jack dirigia com cuidado a charrete que pegara emprestado da coleo de Char. Sua mente se concentrava na visita que teria pela frente.
      Enviara uma nota ao tio informando sobre sua chegada iminente, mas ainda no sabia como abordaria o assunto de um antigo romance. Em Charsley Hall, conversando 
com Kitty, tudo parecera fcil.
      Incrvel como Bristol prosperara. A ltima vez que estivera l, era ainda criana, e recordava mais ou menos do porto lotado de barcos de todos os tipos e 
tamanhos que o fascinaram.
      Depois de obter algumas direes, chegou a uma casa grande rodeada por jardins bem cuidados.
      Um empregado devia estar aguardando, pois saiu logo da residncia para segurar os cavalos. Jack pde perceber que tio Joshua continuava sendo um homem abastado 
e possua criados bem treinados.
      Joshua cumprimentou Jack, abraando-o com alegria.
      - Como vai, meu menino?
      - Melhorando muito. A cada dia sinto-me mais forte.
      - Fico feliz em ouvir isso, e em v-lo tambm.
      Joshua o conduziu at a biblioteca, e os dois se acomodaram em confortveis poltronas.
      - Muito bem, quero saber tudo sobre nossa vitria em Portugal e sua opinio a respeito de como a guerra vem sendo conduzida.
      Por mais de meia hora, Jack falou de suas experincias, parando de vez em quando para saborear o delicioso clarete que lhe fora servido. Joshua escutava atento, 
sem fazer comentrios.
      - E assim, pretendo voltar para Portugal dentro de um ms ou dois - Jack concluiu.
      - Hum... vejo que est decidido.  uma caracterstica da famlia Cannon. Sua me era uma mulher decidida tambm. Embora no tivesse uma constituio robusta, 
possua uma vontade de ferro.
      - Gostaria de t-la conhecido melhor.
      - Sua morte foi um terrvel golpe para mim e para seu pai, Jack. Porm, muito pior para voc, meu garoto. Estou certo de que Madeline estaria orgulhosa em 
ver o homem honrado em que seu filho se transformou.
      Jack tomou um gole grande do vinho para dissipar o n que se formara em sua garganta. Sentia sempre muita emoo ao falar da me.
      - Como sabe, tio, estou em Charsley Hall, recuperando-me sob os cuidados de tia Adelina.
      Ao ouvir aquele nome, Joshua desviou o olhar, fixando-o em algum ponto distante.
      - Ah, sim... Sua Graa goza de boa sade? Jack decidira abordar o tema de maneira objetiva:
      - Penso que ela sente muito sua falta, meu tio. Joshua o encarou.
      - O que voc sabe a respeito?
      - Encontrei um pacote de cartas.
      - Como?! - Joshua fez meno de se levantar, mas deixou-se ficar sentado e cobriu o rosto com as mos. - Estava convencido de ter queimado todas elas, como 
prometi a Adelina. Onde estavam?
      - No pequeno chal perto do...
      - Oh, Deus! Nunca me ocorreu procurar l. Dei minha palavra a Adelina que queimaria tudo... Suponho que ela me despreze por isso.
      - Titia no sabe que as achei.
      Joshua recostou a cabea no espaldar e cerrou as plpebras como se estivesse sozinho.
      - Quando ela me disse que estava indo embora, pensei que iria com algum, com outro amante. Mas nunca ouvi dizer que tenha se casado de novo.
      - E voc nunca tentou entrar em contato com titia?
      - Nunca. Respeitei sua vontade.
      - Mas esta linda casa!  como se tivesse sido construda para ela, meu tio.
      - E foi mesmo, Jack. - Joshua fez um gesto como se mostrasse a inutilidade de tudo o que o cercava.
      - Tio Joshua, venha me visitar. Poder me dar orientaes na reforma da manso em Nether Acker. Esteve fechada desde o falecimento de meu pai, e abri apenas 
alguns quartos de uma nica ala.
      - Afinal, por que imagina que sei algo sobre reforma de casas?
      - Garanto que sabe muito mais do que eu. Se por acaso tia Adelina no o receber, poder ficar comigo. Ela se tornou reclusa, mas sei que conserva sua imagem 
em miniatura, meu tio.
      - Pensarei sobre o assunto. Admito que jamais deixei de am-la.
      - Devo passar por Greatapple em meu regresso. Prometi que iria interferir a favor de Wellesley ao falar com alguns polticos influentes que estaro presentes 
quela festa. Mas aguardarei sua visita dentro de duas semanas.
      - Vamos ver, Jack.
      
      - Voc deve comparecer  festa de Ruchester, Kitty. - Lady Dunmark enxugou o nariz, com muita delicadeza, com o leno de renda. - No imagino onde possa ter 
apanhado este resfriado. No poderei ajudar Beatrice em nada, neste estado.
      Kitty empalideceu. Apenas uma semana atrs, recusara o convite de Bea e Char para acompanh-los quele evento. Duas das maiores mexeriqueiras londrinas estariam 
l - lady Pontarch e lady Clarissa -, que haviam se deleitado em perguntar-lhe por vrias vezes como Kitty se sentira aps sua irm ter fugido com seu noivo. Ambas 
exageravam nos elogios que lhe faziam ao dizer que estava se portando muito bem perante uma situao constrangedora como aquela. Kitty no conseguira crer em nem 
uma nica palavra do que diziam.
      Entretanto, no via sada. Teria mesmo de acompanhar Bea e conviver com aquelas novidadeiras e mais outras tantas durante sete dias. Teria tambm de evitar 
que sua impulsiva irm cometesse muitos erros, que seriam, sem dvida, comentados nas rodas sociais.
      - No poderei enfrentar essa situao sozinha. - Bea implorava para que a acompanhasse. - Mame no se sente bem, e se voc no for, haverei de desistir tambm.
      - Estaro nos observando como falces em cima da presa, Bea, prontos a mergulhar sobre elas a qualquer momento... Tudo o que dissermos ser anotado e mal interpretado. 
Se voc deixar escapar qualquer informao sobre seu difcil relacionamento com sua sogra, esse se tornar logo o assunto de todas as conversas.
      - Char j se encontra l com os cavalos que ir inscrever na corrida. Desejo muito ir, mas no terei segurana suficiente sem voc ou mame comigo. Detesto 
ser o centro das atenes.
      - Bem, Jack estar l. Sempre podemos contar com sua ajuda. No momento, ele trata de negcios em algum outro lugar, e logo nos encontrar na casa dos Ruchester.
      Kitty suspirou. Se encontrasse Jack l, ficaria sabendo do resultado de sua visita ao tio muito mais rpido.
      - Se formos, Bea, deveremos pensar em algum passatempo para nossas tardes, quando os homens estaro ausentes, pescando ou jogando bilhar.
      - Mas achei que todos ns iramos s corridas.
      - As corridas acontecem durante apenas alguns dias. O que iremos fazer depois disso?
      - Nem imagino, Kitty.
      - Talvez pudssemos levar um bloco para desenhar.
      - Sou pssima em desenho. S sei fazer pequenas figuras, que, quando ficam prontas, ningum  capaz distinguir. Todos riro de mim!
      - Ento, fingiremos que temos muitas cartas para escrever. Grace Dunmark tossiu de leve, e Kitty reparou que o resfriado que a me alegara ter no parecia 
to forte assim.
      - Levem um bordado, de preferncia algo com muitas cores e bastante complicado para que tenham a desculpa de precisar fazer e refazer.
      Aps toda a agitao para arrumar as malas, Kitty ficou feliz em se sentar na carruagem. Enfim, relaxou.
      Bea contemplava a paisagem e, distrada, torcia a franja que adornava sua bolsa.
      - O que devo dizer quando perguntarem de voc, Kitty? Devemos combinar uma boa resposta para no haver surpresas desagradveis.
      - Bea, todos conhecem os fatos. Char me cortejou durante alguns meses, e as pessoas esperavam que ele me pedisse em casamento, inclusive eu. S que agora estou 
feliz por nada disso ter acontecido, e mais ainda por ele ter se apaixonado por voc.
      - Acha que as pessoas entendero?
      - Oh, Bea... Ningum espera que ns duas continuemos amigas. Alguns imaginam que estou deprimida por ter sido rejeitada, e voc  considerada a ovelhinha inocente 
conquistada pelo duque maldoso. Podem ainda crer que vivemos competindo para obter as atenes de Sua Graa.
      - Mas isso  ridculo!
      - No aos olhos de gente fofoqueira, que quer transformar o fato em escndalo. E quanto mais falarmos, mais iro distorcer nossas palavras.
      Kitty tomou as mos de Bea, tentando deix-la um pouco mais segura.
      - Nesses meses que passei em Londres, pude conhecer melhor as pessoas e a natureza humana. A todo lugar que eu ia, procuravam me confortar, mas era evidente 
que era tudo falsidade. Tentavam sempre me provocar para que eu fizesse crticas a voc e a Char. Dessa forma, aprendi que o melhor seria no falar muito. Mas vamos 
encarar a realidade. Muitos tentaro fazer com que falemos do duque, e deveremos estar sempre alertas para no deixar escapar algo que possa dar origem a maledicncias.
      Bea ficou em silncio por minutos, e pareceu ter adormecido. De sbito, porm, sentou-se ereta e ps-se a falar:
      - Muito bem, pensei em trs coisas para dizer. Primeira: minha irm me auxilia quando tento melhorar minha performance ao piano. Segunda: minha irm  uma 
excelente amazona e conhece melhor a propriedade do que eu e o duque. E por fim direi que dependo de seus conselhos, pois voc  uma perfeita dama e sabe muito bem 
como viver em sociedade.
      - Como eu gostaria que fosse tudo verdade, Bea!
      - Direi que minha irm  um anjo.
      - Nesse caso, direi que minha irm  a jovem que tem todas as qualidades para ser a esposa perfeita para o duque. Eles foram feitos um para o outro.
      - Ah, Kitty, receio que ficarei muito nervosa para dizer uma palavra sequer...
      - Excelente! Sorria com timidez e finja no entender o que esto lhe perguntando.
      
      
      
    Captulo VIII
      
      
      Uma vez na manso dos Ruchester, a governanta conduziu Bea e Kitty direto a seus aposentos. Aps se refrescarem e trocarem de roupa, as irms se dirigiram 
ao salo vermelho, onde as senhoras se encontravam.
      Feitas as apresentaes, Kitty comentou que representava lady Dunmark, sua me, que se achava adoentada. Conversaram sobre amenidades at que lady Clarissa 
Ruchester as levou a conhecer a propriedade.
      - Nossa casa  modesta em comparao  grandiosidade de Charsley Hall. - Lady Ruchester beirava os quarenta anos e parecia satisfeita em desempenhar o papel 
de esposa de um conde. - O imvel  um exemplo de arquitetura barroca, mas tem muitos detalhes da poca da rainha Anne.
      A condessa continuou falando enquanto percorriam os sales ricamente decorados. Kitty no pde conter o espanto ao deparar com dois quadros de Van Dyck na 
parede forrada de folhas de carvalho dourado.
      Quando viu Kitty parando para admirar as obras, a condessa desdobrou-se em explicaes:
      - Como deve imaginar, meu bem, os primeiros membros da famlia do conde eram monarquistas. Van Dyck fez estes portraits quando o duque foi agraciado com o 
ducado.
      Kitty sentiu que Bea estremeceu a seu lado. De volta ao salo vermelho, lady Clarissa se sentou ao lado de Kitty.
      - Que bom tornar a v-la, srta. Stone! Est apreciando a visita  propriedade de sua irm?
      Kitty fez esta traduo do que acabara de escutar: Acha difcil compartilhar a mesma residncia com seu ex-noivo e sua irm?
      Ao falar com Bea, lady Clarissa sorriu-lhe, mostrando-se bastante simptica.
      -Deve ser muito agradvel morar em Charsley Hall. Ouo dizer que a decorao  primorosa, com moblia e peas de arte do sculo passado. No quero dizer que 
esteja fora de moda. Por favor, no interprete mal o que digo.
      Bea no alterou a expresso perante o comentrio.
      - A decorao do sr. Adams  refinada. No gostaria de fazer nenhuma modificao. Para mim, tudo  perfeito!
      Kitty acariciou a mo de Beatrice. Com certeza, o comportamento da jovem estava  altura da ocasio.
      Durante os dias que se seguiram, os cavalheiros se dividiram em diversas atividades. Muitos passavam o tempo pescando, outros, observando o treinamento dos 
cavalos que participariam das corridas.
      As senhoras se mantinham juntas quase sempre. O assunto versava sobre infindveis comentrios a respeito da vida de pessoas ausentes. Por sorte, Kitty e Bea 
tiveram a excelente idia de organizar um campeonato de domin, e assim puderam se afastar do grupo.
      Mas o to temido momento chegou, quando, certa tarde, lady Clarissa encontrou Kitty sozinha no jardim.
      - Est muito quente, no  mesmo, srta. Stone?
      - Sinto-me bastante confortvel e refrescada aqui,  sombra destas rvores.
      Lady Clarissa pegou o leque e comeou a se abanar com energia.
      - Prefiro os meses mais frios, mas meu Charles insistiu em trazer seu novo cavalo para ser testado.
      - Desejo a eles muita sorte.
      - Obrigada. Sei que tero uma boa atuao, s espero que as apostas no cheguem a nenhuma fortuna. Charles costuma ser um apostador cauteloso, graas aos Cus.
      Kitty olhou para o livro que segurava, porm, achou que seria indelicado de sua parte voltar a ler enquanto lady Clarissa estivesse ali.
      As duas se encararam e, de repente, lady Clarissa tocou no tema que Kitty tanto temera:
      - Como deve ser estranho para uma irm residir com... Bem, no desejo ser indiscreta.
      Deseja, sim. Voc quer que eu diga algo chocante sobre Char ou minha irm, que voc possa repetir para suas amigas, Kitty teve vontade de retrucar.
      Mas, em vez disso, afirmou com toda a calma:
      - Imagino que todos estejam curiosos, porm sinto-me muito bem at o momento.
      Lady Clarissa nada disse, provavelmente aguardando por mais informaes, mas Kitty se calou.
      Aps minutos de silncio, a senhora se ergueu, dizendo que iria molhar os dedos na fonte para se refrescar.
      - Excelente idia, milady. Se o calor se tornar insuportvel, farei o mesmo.
      De novo a ss, Kitty respirou fundo. Era difcil se controlar quando sua vontade era gritar para todos que o que acontecera interessava s a ela.
      
      O jantar ainda no tinha sido servido. Kitty se sentou  direita de Bea, em um largo sof, com almofadas de cetim, e lady Clarissa  esquerda, com um sorriso 
falso.
      O sorriso de uma raposa que avista uma presa fcil, Kitty concluiu.
      - Duquesa, sua aparncia  a de uma esposa muito feliz.
      - E estou, de fato, milady. - Bea escolheu um fio de linha azul para seu bordado.
      - O que est bordando, duquesa, se me permite perguntar?
      - A princpio deveria ser um jardim, mas as cores esto se misturando demais.
      - Garanto que ficar lindo quando estiver pronto.
      - Tenho pouco tempo para trabalhar. - Bea deu de ombros. - Penso que sou mais hbil para apreciar as flores do que bord-las. Gosto muito de rosas, embora 
ache as prmulas maravilhosas na primavera.
      - Entendo.
      - Em Charsley Hall temos lindos canteiros de tulipas. Creio que j devem ter secado. No  triste, lady Clarissa, que as flores tenham vida to curta?
      Kitty quase soltou uma gargalhada. Quem sabe Bea no seria muito melhor nesse jogo social do que se imaginava?
      - Como adoro rosas, costumo guardar suas ptalas e preservar sua fragrncia.  um antigo costume de nossa casa.
      - Que interessante! - Lady Clarissa mal disfarava sua falta de interesse pelo tema.
      - ...e algumas vezes, misturamos diferentes tipos de rosas, as mais escuras com as mais claras, e at mesmo as de ptalas menores. Quais so aquelas de cabo 
longo que gostamos de apanhar, minha irm?
      Kitty fingiu no estar prestando ateno.
      - Desculpe-me, Bea. No ouvi o que disse.
      - Ah, no tem importncia... Receio que esteja aborrecendo lady Clarissa com minhas divagaes sobre flores.
      - No, Vossa Graa. Como pode imaginar que eu no me envolva com seus assuntos?
      Bea olhou o bordado e suspirou.
      - Veja o que fiz com esta linda seda, Kitty!
      Kitty apanhou o bordado para olhar com mais ateno.
      - Deixe-me ver o que posso fazer.
      Os minutos seguintes foram gastos de propsito em enrolar as linhas e evitar qualquer outro tipo de conversa, at que lady Clarissa se ergueu e, com uma desculpa, 
retirou-se.
      Para as demais senhoras, Bea apenas sorria. Preferia ser considerada infantil ou imatura a se tornar o centro das atenes e dos falatrios.
      
      Jack chegou no quarto dia de corridas. A primeira oportunidade que ele e Kitty tiveram para conversar apareceu depois do jantar, quando Bea e Char conversavam 
sobre a vitria de um de seus cavalos naquela tarde.
      Jack acompanhou Kitty ao terrao, iluminado por inmeras estrelas.
      - Estou ansiosa para saber o que seu tio disse.
      - Ele no negou nada, Kitty. Ignora a existncia de Mary, mas estava aberto para falar de seu romance. Tio Joshua quer muito rever a duquesa, pois eu lhe assegurei 
de que ter todo o nosso apoio.
      - Acredita que ele pretende cortej-la de novo e talvez at se casar com ela?
      - Titio nunca desistiu da idia de despos-la.
      - Estou pasma, Jack! Jamais poderia supor algo parecido.
      - Sim, sei que  difcil acreditar. O chal era mesmo o ninho de amor deles, e meu tio no esqueceu um momento sequer do tempo que passaram juntos. Tio Joshua 
a adora.
      - Conte-me mais sobre o que falaram.
      - A princpio, ele ficou aturdido ao saber que eu encontrara as cartas. Depois, interpretou o fato como sendo a mo do destino ajudando-o a se reencontrar 
com o amor de sua vida.
      - No disse a seu tio nada sobre Mary?
      - No. Tambm no lhe dei indcio algum sobre esse assunto. Quando tia Adelina o mandou embora, Joshua pensou que ela tivesse um novo amante. Em minha opinio, 
a existncia de Mary dever ser revelada por ela mesma, se um dia o fizer.
      -  claro que no devemos interferir nessa questo.
      - Suspeito que titio no sabe da existncia dessa criana.
      Eles foram interrompidos por um grupo de pessoas que se aproximava. As notcias que Jack trouxera eram surpreendentes, mas no deixavam de ser auspiciosas.
      
      A manh do ltimo dia na manso dos Ruchester transcorreu cheia de comentrios sobre os resultados das corridas. Char se mostrava desapontado com seu garanho, 
que conquistara apenas o terceiro lugar, mas Bea, que esquecera o nome do cavalo, apostara no vencedor.
      - Tudo aconteceu por acaso - Bea garantiu  irm, ao caminharem em direo ao grupo de senhoras, no salo.
      A sra. Faspan, a mais idosa de todas, puxou Bea pelo pulso assim que entraram, fazendo com que a jovem duquesa se sentasse a seu lado.
      - Todas ns estamos curiosas, e parece que sou a nica com coragem para perguntar. Talvez no devesse, pois voc me ver como uma criatura rude e intrometida, 
mas no posso me conter. Tais questes so sempre deixadas para as mais velhas, a quem  permitida certa indiscrio.
      Bea tentou mudar de lugar, mas a sra. Faspan segurava-a firme.
      - Diga-me, duquesa, sua irm no se arrepende, para no dizer lamenta, de no ter se casado com o duque? No existe nenhum ressentimento entre vocs?
      Os olhos de Bea se arregalaram, e sua expresso era de completa revolta.
      Kitty notou que seria melhor intervir antes que a situao se agravasse.
      - Talvez eu possa responder  indagao da sra. Faspan. Como j disse diversas vezes em Londres, senhora, a impresso de que o duque mantm algum interesse 
por mim aps ter se casado com minha irm  um completo e rematado absurdo. Apreciamos a companhia um do outro, e nos respeitamos como cunhado e cunhada.
      - Espere, Kitty! - Bea a interrompeu com energia.
      Kitty observou sua irmzinha ficar de p, empinar o queixo e encarar a sra. Faspan, e depois lady Clarissa.
      - J ouvi o suficiente! Chega de comentrios e insinuaes. O que esperam de minha irm e de mim? O que desejariam ouvir para satisfazer seu apetite por fuxicos? 
Gostariam de escutar que meu marido, minha irm e eu compartilhamos da mesma cama?!
      Abateu-se sobre todos o mais pesado silncio. Mas Bea ainda no havia terminado:
      - No acham que se trata de uma notcia interessante para ser comentada nas prximas festas?
      Ningum ousava dizer uma palavra sequer. Bea olhou ao redor, encarando uma a uma as senhoras presentes.
      - No admitirei mais ouvir uma nica slaba sobre esse assunto, e no gostaria de saber que o que estou dizendo agora ser tema nos grupos de mexericos. Minha 
irm, Kitty, sempre teve cavalheiros que lhe fizeram a corte, inclusive o duque de Charsley. E certo que um dia encontrar algum que combine com ela, e ento vir 
a se casar. Eu, ao contrrio, me apaixonei por Char, o primeiro homem que entrou em minha vida, logo depois que ele e Kitty romperam. Para mim e para Charsley, o 
amor surgiu de repente. Penso que minha irm  mais cautelosa em seus relacionamentos.
      Kitty desejava poder pular e cumprimentar a irm.
      Passado o susto, todas se puseram a falar, concordando com Bea. Diziam que se tratava apenas de insinuaes, pois nenhuma promessa fora quebrada e nenhum ressentimento 
existia entre as duas irms.
      A sra. Blake veio para junto de Kitty.
      - Sua irm comportou-se  altura, srta. Stone.
      - Por certo. Pode no ser o final da histria, mas sei que ouviremos muito menos comentrios quando o outono chegar.
      
      Ao retornar a Charsley Hall, Bea no cabia em si de tanto orgulho por ter enfrentado as damas na casa dos Ruchester.
      Kitty analisava a reao de sua me ao acompanhar o relato da filha caula. Lady Grace Dunmark parecia no estar ouvindo com toda a ateno, como era seu costume.
      - Realmente, mame, Bea foi muito corajosa ao se defender com tanta veemncia.
      -  mesmo, querida? - Lady Dunmark sorriu, distrada.
      - Mame, gostaria que estivesse l para ver as expresses sra. Faspan e de lady Clarissa. Ambas pareciam ter recebido um balde de gua fria!
      - Entendo. - Grace Dunmark esboou outro sorriso, dessa vez de uma mulher feliz consigo mesma.
      Meia hora depois, Kitty seguiu Bea at seus aposentos.
      - Irm querida, tenho uma suspeita de que mame se envolveu com aquele cantor italiano.
      - Ah, eu a achei um pouco distante esta manh... O maestro Salsini?
      - Nem posso mencionar o que estou pensando, pois ela no admitiria. Creio que, quando partimos, mame no se encontrava enferma como dizia. No queria se afastar 
dele, isso sim.
      - Kitty, no pode estar falando srio! Mame brincando com a verdade?! Isso  algo que sempre nos ensinou a no fazer!
      - Mas quando o amor est em jogo...
      As irms romperam em sonoras gargalhadas, at chegarem s lgrimas.
      Kitty enxugou os olhos com um leno bordado.
      - Mame tem idade suficiente para saber de si, e se est feliz com esse relacionamento. No tenho objees a fazer.
      - E se as pessoas descobrirem? No seria embaraoso?
      - Duvido que exista um lugar onde se chame menos ateno do que em Charsley Hall. Mame conhece pouqussima gente na vizinhana.
      - Mas e a duquesa? Se ela souber de um romance acontecendo sob seu teto... decerto pediria a mame que deixasse a manso.
      - Improvvel. Penso que a duquesa no chamaria a ateno de nossa me em um assunto como esse.
      - Eu no arriscaria.
      - Acredito que Jack possa contornar a situao.
      - Ah, com certeza! Jack consegue o que quer da duquesa. E falando nele, qual so seus sentimentos em relao ao major? O interesse dele por voc  bvio.
      Kitty ergueu a mo.
      - No, Bea. Jack  um cavalheiro muito gentil, mas suas atenes esto todas focadas na guerra. To logo se restabelea, voltar a Portugal, e nesse meio tempo 
dedica-se a angariar apoio para o general Wellesley. Sua ida  casa dos Ruchester no foi para assistir a corridas de cavalos, nem para aproveitar minha companhia.
      - Tem certeza? Muitas vezes notei que o major a olhava, e fiquei me perguntando o que haveria entre vocs dois.
      - Somos apenas bons amigos, nada mais.
      - Voc sabe, Kitty, que foi dessa forma que Char e eu... comeamos nosso namoro. ramos amigos. Cus, no devia tocar nesse assunto... Desculpe-me.
      - Fique tranqila, Bea. Eu no me importo.
      
      Jack olhou  volta. Kitty fizera um belo trabalho na sala de estar em Nether Acker. Os mveis tinham sido mudados de lugar, e as cortinas, retiradas, o que 
permitia que se tivesse uma linda vista do jardim.
      Joshua se juntou a ele, e ambos admiraram o resultado das excelentes modificaes.
      - Esta  uma linda casa antiga, Jack. Pena que tenha ficado fechada por tantos anos.
      - Sim, titio, voc est certo. Mas  necessrio que algum venha morar aqui. Do contrrio, no haver razo para mant-la aberta.
      -  verdade.
      - Talvez seja o lugar ideal para voc e a duquesa...
      - No coloque o carro na frente dos bois, meu menino. Nem vi Adelina ainda!
      O dilogo foi interrompido pelo som de rodas de carruagem no pedrisco e a voz de Baldwin, que conduzia a duquesa e demais pessoas ao salo.
      Jack procurou observar a expresso da tia ao encontrar seu antigo amor. A no ser que estivesse completamente enganado, os olhos dela brilharam de emoo.
      - Joshua... - lady Charsley murmurou.
      Os outros, ignorando que se tratava de um momento importante, passaram por ela fazendo comentrios sobre a moblia e a aparncia da manso. Jack se dividia 
entre os comentrios dos visitantes e o reencontro de seus tios.
      Joshua deu um passo  frente e cumprimentou a duquesa, beijando-lhe as mos.
      - Adelina, voc est encantadora como sempre. 
      Curioso, Jack pensou.
      Ela parecia mesmo encantadora. A expresso amarga desaparecera, sendo substituda por um leve sorriso.
      Bea levara Grace e Kitty para admirar o revestimento das paredes.
      - Adoro madeira antiga.  uma caracterstica da era elizabetana, no?
      Lady Dunmark tambm no poupou elogios:
      - Um trabalho muito fino, digno das casas e famlias mais refinadas.
      Kitty sorriu ao ouvir os elogios sobre seu trabalho de restaurao.
      - No fizemos mais do que dar um bom polimento a toda a madeira.
      Char estava to admirado quanto a jovem duquesa ao ver a transformao do ambiente.
      - Pelo visto, no h necessidade de grandes obras. As dependncias parecem muito bem conservadas.
      Baldwin percorreu a sala servindo clices de licor. Adelina se serviu, sem tirar os olhos de Joshua.
      Jack e Kitty se fitaram e sorriram ao observar os dois. Lady Dunmark no reparara em nada, assim como Char e Bea. Era esperar demais que vissem algo alm de 
si mesmos.
      Grace Dunmark e Bea puseram-se a admirar uma pintura sobre a lareira, e o sr. Cannon sussurrou algumas palavras para a viva duquesa. De imediato, as faces 
dela enrubesceram de surpresa e adorao.
      Char foi at eles.
      - Mame e sr. Cannon, gostaria que vissem o portrait que descobri no sto, quando eu, Jack e Kitty examinvamos o contedo dos velhos bas. Trata-se de um 
quadro de nossos ancestrais, lady Anne, que desposou o primeiro duque de Charsley.
      A duquesa se encontrava por demais aturdida para responder algo alm de:
      - Muito bom, Charsley...
      Mais tarde, quando o jantar foi anunciado, todos se encaminharam a seus lugares. Adelina tomou o brao de Jack e se sentou ao lado dele. O sr. Cannon se acomodou 
a direita dela.
      Lady Dunmark sussurrou para Kitty:
      - O que houve com a duquesa? Ela no est bem?
      - No notei nada de diferente - Kitty disfarou.
      - Abra os olhos, minha cara. Adelina est prestes a ter palpitaes.
      - No se preocupe, mame. Acredito que ela est bem. 
      Sentando-se, Kitty se ps a olhar com ateno, embora discreta, para a duquesa, que exibia um leve sorriso. Fez um sinal de cabea para a me, que deu de ombros 
como que admitindo que se equivocara em seus comentrios.
      Durante a refeio, todos conversaram sobre as atividades de Jack em Nether Acker, mas a duquesa falou muito pouco. Em vez de suas costumeiras insinuaes, 
limitou-se a sorrir e a concordar, como se tivesse experimentando um sbita sensao de felicidade.
      Aps o jantar, Jack sugeriu um passeio pelos jardins, cujas alamedas haviam sido iluminadas por tochas. Um trabalho de remodelao tambm vinha sendo realizado 
em todos os canteiros, e muitas roseiras foram plantadas.
      Em dado momento, Jack parou e esperou que todos se aproximassem.
      - Como podem ver, demorar uma ou duas estaes para que o jardim esteja em perfeitas condies, mas encontrei algo muito interessante. - Jack deu um assobio 
curto, e um pouco distante mais algumas tochas foram acesas, iluminando uma esttua de mrmore branco.
      - E fantstico, Jack! - Bea exclamou.
      - Sim, Vossa Graa, e devo agradecer a voc e Char o fato de a terem encontrado.
      Jack se virou para os demais.
      - O duque e a duquesa a visualizaram atravs dos arbustos e do mato que crescia a seu redor. Chegamos  concluso de que deve ser Vnus, ou Afrodite, se preferem 
o nome grego. O cavalheiro que veio de Londres para restaur-la calculou que deve ter mais de cem anos. Pensamos, ento, que poderia ser um presente do primeiro 
duque para lady Anne, que cresceu aqui e deixou de herana toda esta propriedade para nossa famlia.
      Quando retornavam para a manso, Kitty procurou fazer com .que todos se adiantassem, para que Adelina e o sr. Cannon ficassem para trs, dando a eles alguns 
minutos de privacidade.
      O ch foi servido, como de costume, e em seguida o grupo comeou a se preparar para partir.
      Jack e o tio acompanharam os visitantes at a porta, e Kil notou que o sr. Cannon fazia um pequeno sinal para a duquesa.
      Teriam feito planos para se encontrar mais tarde? E onde poderia ser tal encontro?
      Na carruagem, Bea elogiou a beleza da casa e a qualidade da refeio. Lady Dunmark sussurrou ao ouvido de Kitty que a reunio poderia ter sido mais agradvel 
se Jack tivesse convidado o maestro Salsini.
      Kitty precisou cobrir a boca com a mo para no deixar escapar uma risada.
      
      Alguns dias mais tarde, Jack e o tio conversavam  mesa do desjejum.
      - Voc e tia Adelina deveriam passar suas vidas juntos. J me disse que a ama. Ela sente-se solitria...
      - Sim, mas Adelina se preocupa com Char e tambm com seu futuro neto. Mas acima de tudo teme que a propriedade no prospere sob o comando de Char. Adelina 
diz que ele no tem cabea para coisas prticas.
      Jack escolheu as palavras com todo o cuidado:
      - Claro que devo respeitar a viso de minha tia, mas digo que ela subestima o filho. Char  um poeta, um sonhador na maior parte do tempo, mas tem capacidade 
para aprender e crescer como pessoa.
      - Est sugerindo que Adelina o criou com rdeas curtas?
      - Pelo que entendo, sim.
      - Nunca imaginei. Ela  uma pessoa compassiva, mas... 
      Jack quase soltou uma boa gargalhada. Compassiva seria um dos ltimos termos que usaria para descrever a duquesa. Mas Joshua a amava, e quem ama no v defeitos 
no objeto de seu amor.
      - Adelina preza a histria da famlia e tem um forte senso de dever para com os seus, embora eu mesmo me pergunte o motivo. O duque no foi um bom marido. 
Tinha amantes na cidade e dedicava toda a ateno a elas, enquanto Adelina ficava em casa com Charsley.
      - Espero que no comentem nada com Charsley, pois no sei como ele reagiria ao ouvir crticas sobre o pai - Jack falou, demonstrando preocupao.
      - Ah, no! Obvio que no diria nada disso ao duque. Nem Adelina o faria. Pobre rapaz! Se tivesse tido um pouco mais de ateno paterna, seria... Bem, no adianta 
falar disso agora.
      -  verdade. Devemos nos concentrar no futuro e esquecer o que passou.
      - Tenho uma linda casa em Bristol e uma fortuna razovel. Desejo levar Adelina para viver comigo. Quero tambm lev-la para conhecer o continente assim que 
a guerra terminar. Ela no conhece os Alpes, nem a Itlia.
      - Seus planos me parecem excelentes, meu tio. Mas estaria a duquesa relutando em aceitar tal proposta?
      - No exatamente relutando. Mas, como falei, ela se preocupa com Char. Como ele ir se ajeitar sem ela?
      Jack assentiu, embora tivesse certeza de que seria o melhor para seu primo.
      Joshua continuou a expor suas idias sobre a situao:
      - Veja, a nica deciso que Char tomou sem o consentimento da me foi se casar com Beatrice, que, pelo jeito, no foi aprovada por Adelina.
      - Sem dvida.
      Jack imaginou como tudo devia ter acontecido. Char tivera permisso da duquesa para ficar em Londres por meses. Tanto que teve oportunidade de cortejar Kitty 
e depois voltar-se para Bea e fugir com ela para se casar.
      - Tenho uma proposta para lhe fazer, meu sobrinho. Sei que pretende ir de novo lutar na pennsula.
      - Sim, espero poder retornar em breve.
      - Mas tambm sei que Wellesley deseja que permanea aqui, trabalhando e defendendo sua causa. Correto?
      - Sir Arthur conta com o auxlio de muitos outros cidados, alm de mim.
      - Por que no reconsidera, Jack, e comea a participar ativamente do governo? Sou influente e poderei faz-lo ocupar um dos lugares na Cmara dos Comuns, representando 
Bristol, se concordar.
      Jack suspirou. Pela terceira vez estavam lhe oferecendo um lugar seguro, no qual poderia fazer muito pouco. Afinal, seu tio devia compreender, era um soldado, 
e no um poltico.
      - Ao que tudo indica, no concordar com minha sugesto com tanta facilidade. Mas pondere a respeito. Acredito que se voc estivesse por perto a duquesa se 
sentiria mais segura para deixar seus negcios, e estaria mais propensa a aceitar minha proposta!
      
      
      
    Captulo IX
      
      
      Completamente aturdido, Win entrou no quarto informando a Jack que a duquesa chegara a Nether Acker, e vinha sozinha.
      - Sua Graa o espera no salo!
      Jack ficou to surpreso quanto Win. Em geral, quando ela desejava conversar mandava cham-lo a seus aposentos. Era a primeira vez que a tia o procurava.
      Mais espantado ainda ficou ao v-la usando um vestido rosa-plido e com uma aparncia jovial.
      - Tia Adelina, permita-me dizer, a senhora est muito bonita!
      - Obrigada. Joshua disse-me que voc foi o responsvel pelo retorno dele e por traz-lo de volta para mim.
      - No foi difcil convenc-lo, pois titio nunca deixou de am-la.
      - Tampouco meu amor por ele terminou!
      - Tia Adelina, sinto em lhe dizer, mas tio Joshua se ausentou por uns dias. Precisou ir a Canterbury para tratar de negcios.
      - Sei disso. Quase fui junto, mas achei melhor ficar, porque necessito falar com voc em particular.
      A duquesa se levantou, aproximou-se da janela e pegou um leno em sua bolsa.
      - Existem alguns empecilhos para que Joshua e eu possamos viver juntos a partir de agora, meu querido. - Pela vidraa, Adelina admirava a bruma que vinha do 
rio.
      - Dificuldades podem ser contornadas, titia.
      - Por isso mesmo preciso de seu conselho, Jack. Primeiro, existe Char, que me preocupa, pois no sei como se sair no comando dos negcios. Vejo agora que 
no o preparei para exercer seus deveres.
      - Tia Adelina! Char  mais do que capaz de administrar a propriedade. Far tudo a seu modo, mas estar  altura da responsabilidade.
      Ela meneou a cabea.
      - Gostaria de estar to convencida. Char necessitar de um bom conselheiro. Se voc estiver aqui em Nether Acker, meu filho poder contar com sua ajuda, mas 
do contrrio...
      - A senhora tem conselheiros competentes que estaro junto de Char tambm. Alm do mais, poderei lhe escrever sempre, de onde quer que eu esteja.
      - Mas essa ainda no  a maior questo. Oh, Jack, tenho uma terrvel confisso a fazer, mas no sei se conseguirei!
      Jack jamais vira Adelina chorar. Um tanto inseguro, aproximou-se dela e a conduziu at um sof.
      - Sente-se, minha querida.
      - O que fiz, Jack,  imperdovel. Quando Joshua e eu nos apaixonamos, Charsley beirava seus catorze anos. Uma idade difcil, e eu no... - Adelina interrompeu 
o que dizia e encarou Jack, enquanto as lgrimas rolavam por seu rosto.
      - Continue, por favor.
      E de repente toda a histria veio  tona. Seu romance, a gravidez mantida em segredo, o afastamento de Joshua, sua viagem ao exterior, o nascimento de Mary 
e a histria dos pais que nunca existiram.
      - Estava errada em mentir, mas uma mentira leva a outra, e ao fim se torna impossvel parar.
      - Por que no contou a Joshua e no se casaram, na ocasio?
      - Deveria t-lo feito, mas pensava em Charsley e no quanto ele precisava de mim.
      Adelina, desde ento, se afundava na culpa e no remorso.
      - E mesmo agora no tenho coragem de revelar a Joshua que temos uma filha. Estou to confusa!
      -Titia, nada do que fez  imperdovel, acredite-me. Tio Joshua ficar muito feliz em saber que tem uma filha.
      - Mas como lhe contarei o que fiz, aps ter mentido a ambos durante tantos anos? Com certeza, Joshua me desprezar!
      - Sei que ama essa criana, minha tia. Eu mesmo dedico sincero afeto a Mary. Espere mais alguns meses para contar tudo  criana e a meu tio. Depois de casados 
voc poder falar para tio Joshua. Enquanto isso, Mary permanecer em Charsley Hall com a srta. Munstead. Ela aguarda ansiosa o nascimento do beb, e Beatrice poder 
contar com uma amiguinha para seu beb. Alm do mais, a srta. Stone  muito ligada a Mary, como voc sabe.
      - No devo abandon-la.
      - Mas no estar to distante assim. Mary ficar rodeada de gente que a ama e se sentir feliz. Quanto a revelar-lhe os fatos, a senhora poder achar um bom 
modo mais tarde. Nesse meio tempo, a garotinha ir visit-los, e Joshua poder conhec-la melhor.
      - Jack, acha mesmo que devo?
      - A senhora  uma mulher forte, tia Adelina. Garanto que pode fazer o que desejar.
      
      Nem uma hora havia se passado aps a partida da duquesa, quando Jack ouviu o som de uma montaria se aproximando. Da soleira, pde avistar Kitty vindo em direo 
 manso, e desceu os degraus para receb-la.
      - Tenho notcias surpreendentes! - Kitty foi longo falando, enquanto desmontava.
      - Conte-me, ento. - Jack apanhou as rdeas da mo dela, e os dois seguiram at o estbulo.
      - Estive no chal esta manh e, quando me aproximei, ouvi vozes! Acredito que seu tio e a duquesa passaram a noite l.
      - Ah, tambm tive o mesmo pensamento...
      - Mas no h colches nas camas, Jack. Resolvi tir-los quando iniciamos a reforma do imvel.
      - Cuidei desse pormenor antes que tio Joshua chegasse.
      - Seu atrevido! Quer dizer que mandou colocar um colcho sem me dizer nada, pois imaginou que talvez...
      - Sim, foi isso mesmo.
      - Quanta falsidade!
      - Por qu? Voc desaprova minha atitude, Kitty?
      - De modo algum! Espero que eles se casem e passem o resto de suas vidas juntos.
      - Eu tambm.
      - E, a propsito, temos um outro pequeno problema com essa gerao antiga...
      - Um romance para lady Euphemia? Kitty deu risada.
      - Minha me ficou muito desapontada porque voc no convidou o maestro para o jantar, naquela noite.
      Jack soltou uma boa gargalhada.
      - E srio?! Nesse caso, deveremos dar uma outra festa. Amanh  noite, s oito horas.
      
      Kitty se preparava para cavalgar com Jack e Mary quando foi tomada por um estranho pressentimento.
      Logo, a criada Neil apareceu, contando as notcias que ouvira dos empregados da manso:
      - O major Whitaker recebeu um comunicado de Portugal bem depois da meia-noite. Um dos empregados levou a mensagem para Nether Acker.
      No deviam ser boas novas, Kitty concluiu.
      Seus receios foram confirmados quando Mary e ela encontraram Jack nos estbulos. Ele tentou brincar com Mary, mas Kitty pde notar que estava preocupado.
      Cavalgaram por algum tempo at atingirem um local de onde se avistava o rio Acker. Assim que desmontaram, Jack pediu a Mary que colhesse algumas flores.
      Kitty, sentada em uma pedra, esperava que Jack falasse.
      - Recebi uma mensagem de Wellesley. Ele teve de bater em retirada para Lisboa e est fortificando as colinas para defender a cidade. Parece que os espanhis 
o abandonaram.
      - E agora voc est mais ansioso do que nunca para retornar, no?
      - Ele deseja que eu continue na Inglaterra, mas no sei se serei capaz de ficar. Preciso estar l, no meio da ao.
      Kitty sentiu o corao apertado.
      - Desse modo, em breve diremos adeus um ao outro!
      - Mas ser apenas por um ano ou dois, Kitty. Voc pode ficar com os seus, e logo retornarei.
      - No, Jack, no!
      - Mas por que no, Kitty? - Ele enlaou os dedos nos dela. Kitty soltou a mo e se afastou.
      - No ficarei em Charsley Hall. To logo o beb de Beatrice venha ao mundo, procurarei um lugar para mim, que seja s meu e no qual eu no dependa do duque.
      - Mas voc me disse que no possui dinheiro algum; nem sequer uma pequena renda.
      - Certo, mas encontrarei um trabalho que me dar um salrio e um lugar para ficar.
      - Quer dizer que trabalhar como...
      - ...professora em uma escola, ou talvez como preceptora.
      - Kitty, isso  ridculo! Voc  necessria aqui.
      - Bobagem! Tudo o que fiz teria sido feito mais cedo ou mais tarde.
      - No est raciocinando direito. Mas deixe-me lhe dizer: se deixar Charsley Hall, no pense que se livrar de mim. Quando voltar, eu a encontrarei.
      Ela balanou a cabea. A tristeza em seu rosto era evidente.
      - No, Jack.
      Mary chegou mostrando um lindo buqu de flores silvestres, e no houve tempo para nenhuma outra palavra.
      
      Kitty se esforou ao mximo para parecer alegre quando, junto com Bea, o duque e Jack, se dirigiu  igreja para o casamento de Tommy.
      Adelina oferecera o chapu a Sally, e Bea lhe dera o vestido. O major mandara confeccionar um novo terno para o noivo, e o duque o presenteou com um par de 
botas da melhor qualidade.
      Apesar de o pai da noiva parecer j ter tomado mais aperitivos do que seria conveniente e a me no parar de chorar, o casal sorriu durante toda a cerimnia 
e, na sada da igreja, trocaram um romntico beijo. Aquela demonstrao de felicidade deixou o corao de Kitty um pouco mais apertado.
      Ao menos o caf da manh aps o matrimnio foi bastante curto, e Kitty conseguiu evitar uma longa conversa com o pastor. Jack no lhe dirigiu a palavra, e 
ela ficou aliviada por no ter de dar explicaes a ningum sobre seu aparente abatimento.
      
      A segunda festa na manso de Jack foi mais alegre para todos, menos para Kitty. A duquesa Adelina e Joshua mostravam-se bastante  vontade na companhia um 
do outro, e lady Dunmark estava radiante.
      O maestro Salsini, com suspiros melodramticos, beijou a mo de Grace.
      - Carssima!
      Kitty no acreditava na reao de sua me, que olhava o maestro como se estivesse vendo algum muito especial, sem dvida apreciando as demonstraes exageradas 
dele.
      Quando Win entrou no salo para retirar a bandeja, Kitty no pde deixar de notar os pares presentes. Bea, sentada ao. lado de Char, com a cabea encostada 
em seu ombro, acariciava a barriga, que agora j era bastante evidente. Char fitava o fogo da lareira, na certa compondo uma ode de amor. Lady Dunmark ouvia atenta 
o que o maestro lhe contava, e Adelina e Joshua conversavam num outro canto da sala.
      Apenas Jack e Kitty se mantinham distantes um do outro.
      Passados alguns minutos, Joshua e Adelina saram de braos dados, com certeza em direo ao chal. Seus olhares diziam mais do que qualquer palavra seria capaz.
      Aps a sada deles, Char esticou as pernas e se espreguiou.
      - Minha querida, passou da hora de voc se deitar. Bea exalou um profundo suspiro e assentiu.
      - Lady Dunmark, maestro, esto prontos para nos acompanhar de volta a Charsley Hall? - Char perguntou.
      - Sim, Vossa Graa. Eu mesmo conduzirei lady Dunmark para casa.
      Jack pediu a um dos criados que trouxesse a carruagem.
      - A srta. Stone ir comigo logo a seguir - Jack completou. Kitty esperava que a me fizesse alguma objeo, mas ou Grace no escutara o que ele dissera, ou 
no se importara mesmo. Mantinha o olhar fixo no maestro enquanto ele lhe ajeitava o xale. Enfim, quando se viram a ss, Jack tomou Kitty em seus braos.
      - Temos de conversar. Diga... voc me ama, Kitty? Ela se desvencilhou e deu um passo atrs.
      - Jack, no posso me permitir am-lo, uma vez que voc est decidido a partir para a guerra. Sei que  um soldado que se expe a todos os riscos e inspira 
seus homens a lutar. Prefiro deix-lo agora e esquecer tudo. Devo ir embora e comear uma nova vida.
      Suas palavras soavam falsas. Ela o adorava e no havia como voltar atrs. Seu corao no lhe pertencia mais.
      - Est sendo egosta, Kitty, pensando apenas em si mesma. No  de mim que quer se afastar, mas de sua irm e de sua me.
      - Egosta?! - Escutou a prpria voz mais alta do que imaginara. - No posso me dar a esse luxo, major. Alm do qu, o egosta aqui  voc. Todos, seu precioso 
general Wellesley, lorde Pearson, tio Joshua e a duquesa, e acima de tudo Char dizem que sua presena  necessria aqui e na Cmara dos Comuns. No campo de batalha 
voc  apenas mais um soldado que pode morrer com apenas uma bala. Ficando na Inglaterra, poder auxiliar um Exrcito inteiro, falando com seus pares e requisitando 
o apoio de outros. Pode auxiliar as pessoas que vivem em sua propriedade, em Charsley Hall e nas vilas.
      Kitty parou um instante para ganhar flego, mas no ousou encar-lo e enfrent-lo.
      - Voc tem esse sonho romntico, Jack. Acredita que poder vencer o Exrcito francs inteiro com um golpe de sua espada. E ainda diz que eu sou egosta. Como 
tem coragem?!
      A expresso de Jack se tornou dura e fria. De repente, Kitty soube o que um inimigo pode sentir ao ser fitado com tanta raiva. Minutos atrs, ele se mostrara 
gentil com ela, implorara por sua compreenso, beijando-a com ternura. Naquele instante, porm, parecia uma esttua de granito. E foram suas palavras que causaram 
aquela transformao.
      Em um instante, tudo mudou. Tudo acabou entre eles.
      Jack se manteve calado, olhando para Kitty.
      Ouviu-se o som de uma tora de madeira estalando na lareira.
      Kitty apanhou a bolsa e o xale e se foi em direo  porta principal. Charsley Hall no ficava muito distante. Embora no se sentisse muito segura em andar 
sozinha quela hora da noite, decidiu que seria melhor caminhar do que esperar que Jack se dispusesse a conduzi-la.
      - Aonde pensa que vai, srta. Stone? - Jack a chamou antes que contornasse a alameda.
      Kitty apertou o xale em torno do pescoo.
      - Por que faz uma pergunta to tola, major? Estou indo para Charsley Hall, ora! - E Kitty recomeou a andar.
      Em uma frao de segundo, Kitty o viu a seu lado, como se Jack tivesse dado um grande salto para vencer a distncia entre os dois. Ele a forou a parar, segurando 
seu brao com fora.
      Kitty procurou se soltar, mas Jack a puxou para si e enterrou o rosto em seus cabelos.
      - No pode me deixar, Kitty. No ainda!
      Ela estremeceu, e ele a levou de volta para o interior da manso. Ainda  porta, Jack a beijou.
      - Minha querida, no se afaste de mim!
      Kitty jamais sentira tal agonia. Seu corpo ansiava por seu toque e seus beijos, mas em sua mente sabia que no poderia ser assim. As lgrimas comearam a rolar 
por suas faces, e Jack as secou, acariciando seu rosto com incrvel suavidade.
      - Oh, Jack, no posso te amar!
      - Querida, no me faa sofrer.  tarde demais. No pode negar que j nos amamos.
      - No diga isso, Jack. No  verdade. Voc pensa que me ama, mas na realidade ama seu sonho mais do que a mim.
      - No. Como pode dizer isso?!
      - Porque  um fato irrefutvel.
      Jack a abraou e encostou a testa na dela.
      - Kitty, no acredite nisso, meu amor.
      Jack continuou a segura-la e a acarici-la. Cada parte do corpo de Kitty que ele tocava parecia queimar sob seus dedos, com um desejo que jamais experimentara.
      Seria to fcil se entregar a Jack naquele momento! Por que no conhecer o amor verdadeiro, apenas uma vez? Ningum precisaria saber.
      Kitty se via em brasas. Assim, se encostou mais nele, o que fez com que sentisse as batidas dos coraes. Jack beijou sua face, seus lbios. Ela queria mais 
e mais.
      De sbito, ele se afastou, empurrando-a com fora.
      - Kitty, perdoe-me. No consegui me controlar!
      Indo para a lareira, Jack respirou fundo, arrumou o palet e passou os dedos pelos cabelos.
      - Chamarei Win para nos levar. No seria adequado acompanh-la sozinho to tarde da noite.
      Jack saiu da sala, e Kitty deixou que as lgrimas corressem livres.
      Ele no retornou logo. Queria lhe dar um tempo para se recompor. Desse modo, com rapidez, Kitty arrumou o vestido e alguns cachos soltos. No haveria, porm, 
como arrumar o que havia dentro de si.
      A frustrao, a dor e a vergonha eram muito fortes. Esteve prestes a se entregar, ignorando seus princpios e tudo o que achava correto. De alguma forma, Jack 
percebeu e a rejeitou. Ou por considerao ou por recusar seu amor! No importava. Seu rosto queimava. Ele notou que ela o desejava e mesmo assim teve autocontrole 
suficiente para parar.
      Jack reapareceu e abriu a porta da frente. Kitty foi quase correndo at a carruagem, mantendo os olhos baixos.
      Seguiram em silncio pela alameda escura e atravs da vila, onde no se via sequer uma vela acesa nas janelas.
      Chegando a Charsley Hall, Jack ajudou Kitty a descer do veculo e, pegando-a pelo brao, acompanhou-a at a entrada.
      Kitty o fez calar-se quando ele ia comear a falar.
      - Boa noite, major.
      Subindo as escadas, lutou contra o pranto que ameaava cair outra vez. Talvez nunca mais o visse. Jack podia partir a qualquer momento para Londres e de l 
para Portugal sem lhe dizer adeus.
      
      
      
    Captulo X
      
      
      Neil a esperava no quarto. 
      - Senhorita, onde estava? Fiquei preocupada! Est chorando, meu Deus!
      Kitty respirou fundo.
      - Minha me se encontra na manso?
      - Milady chegou h um quarto de hora. O que h? A senhorita chegou tarde, e ela tambm. Lady Dunmark j havia soltado os cabelos e dispensou minha ajuda, fechando 
a porta antes que eu pudesse...
      - Ah,  muito complicado para explicar, Neil... Voc deve estar cansada tambm. V para a cama, e de manh poder escovar meus cabelos. Mal consigo manter 
os olhos abertos!
      Kitty esperava que sua me estivesse bem e que ela e o maestro Salsini no tivessem se excedido. . Ora, de que isso importava, afinal?
      No tinha sua me o direito de dar vazo a suas emoes? Parecia que existia algo no ar, tanto em Charsley Hall como em Nether Acker.
      Talvez o amor!
      Fora isso o que desejara, e Jack a repelira. E ela jamais saberia a razo.
      Apagou a vela e enfiou-se sob as cobertas.
      - Oh, Jack, nunca imaginei que o amor fosse tamanha tortura! - Kitty sussurrou, recomeando a chorar.
      
      - Por favor, pea  srta. Stone para me encontrar no salo azul.
      - Imediatamente, senhor. - Randall fez uma reverncia. Jack se encaminhou para seu aposento favorito em Charsley
      Hall, ideal para um pedido de casamento. Se tivesse podido escolher, teria preferido o chal das rosas, mas isso era impossvel com Adelina e Joshua l.
      Um som distante de piano chegou a seus ouvidos, A melodia era melanclica. Imaginou se poderia ser Kitty tocando quela hora.
      No momento em que a msica parou, Jack foi at o espelho e arrumou os cabelos e o leno em seu pescoo. Depois, virou-se para esperar que ela entrasse.
      Sentiu o corao acelerado. Tentava no pensar na vspera desastrosa. Teria Kitty se ofendido por sua ousadia a ponto de no mais querer v-lo?
      Por fim, ela apareceu. Jack tentou decifrar sua expresso, que parecia normal; no sorria, mas tambm no parecia zangada.
      Por um momento, ambos se olharam. Depois, falaram ao mesmo tempo:
      - Voc queria me ver?
      - Boa tarde, Kitty.
      Um silncio constrangedor se seguiu.
      Jack achava que no seria capaz de falar, como se a lngua estivesse presa, e o crebro, vazio.
      Deu um passo  frente e estendeu os braos. Kitty se aninhou naquele abrao, e as palavras se tornaram obsoletas quando seus lbios se encontraram.
      - Minha adorada Kitty, voc me aceitaria se dissesse que no voltarei para Portugal, nem para o Exrcito de Wellesley?
      - Estou ouvindo direito?! Voc decidiu no retomar a luta armada?
      - Sim. Quero ficar aqui com voc.
      - No posso acreditar, Jack! - Kitty sentiu um n na garganta, e os olhos se encheram de lgrimas.
      Jack segurou-lhe os ombros, encarando-a sem pestanejar.
      - Pensei muito sobre o assunto. Voc estava certa, ontem, meu bem. Meu desejo de voltar a lutar em um campo de batalha no faz muito sentido. Posso fazer muito 
mais pelo pas estando aqui, na Inglaterra.
      - Tem certeza absoluta, Jack? Pode desistir de guerrear? Esse tem sido seu sonho de tantos anos!
      - Ponderei a esse respeito tambm. Quando me lembro do que tenho falado a outros homens que anseiam por ir para o front, acho que deveria ouvir meus prprios 
conselhos.
      Kitty meneou a cabea, mas nada comentou.
      - Mais do que tudo, porm, ficarei por sua causa, Kitty.
      - Jack, prometa-me que nunca esconder de mim se algum arrependimento surgir. No devemos ter segredos entre ns.
      - E se voc desejar ir embora para longe...
      - Para ser acompanhante de uma velhinha implicante ou preceptora de crianas travessas?
      - Quem sabe para escapar de um marido excntrico ou do choro dos pequeninhos?
      - Ah, Jack! Crianas... nossas crianas? Seria minha maior alegria. Jamais fugiria de seus filhos e suas filhas!
      - Sendo assim, vamos providenciar muitos deles, Kitty!
      
       porta do chal, Kitty observava os carregadores colocarem sua harpa sobre a carreta para lev-la a Nether Acker, que seria sua residncia a partir do dia 
seguinte. A cerimnia de casamento estava marcada para a tarde, e em breve seria a sra. Whitaker.
      Adelina, a viva duquesa, casara-se com Joshua na manh daquele dia na capela de Charsley Hall. Passariam a primeira noite ali, lugar que fora seu antigo ninho 
de amor.
      Jack e Kitty prometeram um ao outro no dizer a ningum o motivo de Adelina e Joshua terem escolhido aquele local, mas Kitty suspeitava que outras pessoas 
alm dos criados teriam tirado suas prprias concluses.
      A nica pessoa de fato envolvida naquele antigo romance era Mary, e ela estava contentssima por ver sua protetora to feliz. Beatrice j lhe devotava muita 
afeio, e a srta. Munstead a levaria todos os dias a Nether Acker. Jack prometera cavalgar com a garota sempre que fosse possvel.
      Kitty se entusiasmara pela idia de Jack ser eleito membro da Cmara dos Comuns. Imaginou que seria interessante se tornar uma anfitri poltica e ajud-lo 
em seu trabalho.
      - Kitty? - Jack a chamou da alameda.
      - Sim? - Ela correu para perto da charrete.
      - Voc no vai acreditar! Yates encontrou uma compradora para seu tnico. Flossie Baker adquiriu cinco garrafas, e depois de beberem todas, ela o arrastou 
at o pastor. No prximo domingo sero lidos os proclamas!
      - Finalmente, Yates foi pego na prpria rede! - Kitty riu, enquanto Jack a ajudava a subir no veculo. - Agora temos de convencer Bart a se declarar para Neil.
      - Sua empregada?
      - Eu lhe disse, Jack, que havia algo mgico naquele chal. Jack achou graa.
      - Seja o que for, minha querida, inspira amor para durar por toda a vida.
      E se beijaram longamente...
      
Victoria Hinshaw - Eternamente Apaixonados (Julia Hist 1440)




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Projeto Revisoras